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Copenhague deu certo

OESP, Vida, p. A30
Autor: CORRÊA, Marcos Sá
01 de Out de 2010

Copenhague deu certo

Marcos Sá Corrêa

Não é só cá fora que o clima da Terra está esquentando. Nos laboratórios, ele empurra cientistas para o front de uma "revolução econômica, logística, tecnológica e social". E tem arsenais de relatórios, nos quais a "frieza dos números e de gráficos cheios de linha" esconde "paixões, simpatias, inimizades, cargos e prestígio". E dinheiro.
É por essas e outras que há um ano, quando o mundo se ensaboava para ir à conferência do clima em Copenhague, um sabotador anônimo inoculou nas páginas do RealClimate.com e-mails internos da Unidade de Pesquisa Climática da Universidade de East Anglia, na Grã-Bretanha, para insinuar que, no fundo, o aquecimento global não passa de uma conspiração acadêmica de paranoicos. Mas a tramoia serviu para provar que, feita por seres de carne e osso, até a melhor ciência se parece "com qualquer atividade humana".
Diferente, na ciência do clima, é a busca de conhecimento em "árvores, corais, cavernas, no gelo dos picos mais altos da Terra e nos lugares mais gelados do planeta, nos vulcões". Isso transformou os cientistas em "montanhistas", "mergulhadores" ou "trekkers", misturando uma das maiores aventuras do conhecimento nas últimas décadas com aventuras que pareciam monopólio da turma dos esportes radicais.
Em outras palavras, as de Sérgio Abranches, o verdadeiro autor dos parágrafos acima, extraídas de seu livro Copenhague, Antes e Depois, "a ciência do clima é também uma espetacular aventura humana". Como é o caso do paleoclimatologista Lonnie Thompson, cuja pesquisa de campo abarca a prospecção do gelo milenar nos glaciares mais altos da Terra. Thompson encontrou nos Andes pistas de desordens climáticas que engoliram civilizações, muito antes que o primeiro europeu moderno pusesse os pés no continente americano. Assim como desencavou na cordilheira Qilian Shan, entre o Tibete e a Mongólia, a evidência de que vivemos hoje na época mais calorenta dos últimos 40 mil anos.
A mudança climática, nesses termos, pode ser tudo, menos chata. Nessa reportagem de 321 páginas sobre a conferência de Copenhague, Abranches fez o que nem todo repórter tem fôlego ou tempo para tentar. Vasculhou dezenas de livros e calhamaços acadêmicos para armar as peças básicas desse quebra-cabeça essencial do século 21.
Sim, ele cobriu de 8 às 22 horas a conferência do ano passado. Encarou aquele fiasco político que, a seu ver, tornou irreversível a marcha forçada para um acordo internacional que adapte a economia mundial ao planeta - em vez de fazer o contrário. O dia a dia de Copenhague está lá, assim como seus bastidores. Mas o melhor do livro é condensar tudo sobre esse tal do aquecimento global, sobre o qual provavelmente você teria medo de perguntar a um jornalista e, mais ainda, a um cientista político.

OESP, 01/10/2010, Vida, p. A30

http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20101001/not_imp618099,0.php

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