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COP-20 coloca foco em adaptação à mudança climática e nas verbas

Valor Econômico, Internacional, p. A11
Autor: CHIARETTI, Daniela
08 de Dez de 2014

COP-20 coloca foco em adaptação à mudança climática e nas verbas

Por Daniela Chiaretti | De Lima

O céu amanhece cinza todos os dias em Lima, mas quase nunca chove. Os bairros ricos da capital peruana, como San Isidro e San Borja, são muito verdes, com jardins e parques bem cuidados que se beneficiam da umidade do inverno e da irrigação automática no fim da tarde. Mas algumas estimativas dizem que a cidade pode ficar sem água em 30 anos, por conta da retração dos glaciares andinos. Como todas as partes, o Peru sofre os impactos da mudança do clima e terá que se adaptar - só que a conta está ficando cada vez mais cara.

A segunda semana da conferência do clima das Nações Unidas de Lima, a COP-20, começa com muitas pontas abertas e ainda bastante vaga sobre o resultado final, que deve dar as bases para o acordo climático global de 2015, em Paris. O foco destes dias, com o início da rodada de alto nível e a chegada dos ministros, deve estar na adaptação aos impactos do clima e em finanças.

Três novos textos de discussão devem estar prontos hoje cedo para debates entre os delegados dos 190 países reunidos em Lima. Um deles é sobre os elementos do acordo a ser assinado em Paris e outro, uma compilação de todas as propostas sugeridas pelas países, para consulta. O texto dos elementos é a base do novo acordo de Paris. Ainda não está claro quanto a COP-20 irá decidir sobre ele.

O terceiro documento é sobre como devem ser feitas as contribuições nacionais dos países - uma espécie de padronização sobre como descrever a redução de gases-estufa que cada um pretende, quais gases, se serão cortes absolutos de emissões ou relacionados à eficiência energética e PIB. As "Contribuições Determinadas a Nível Nacional" (INDC, na sigla em inglês) têm que ser apresentadas à ONU preferencialmente até março de 2015 e, no máximo, até junho.

Há diferentes propostas sobre o padrão das contribuições. Os EUA e Europa querem que foquem apenas em mitigação, em quanto e como devem ser reduzidos os gases-estufa. Países em desenvolvimento e emergentes discordam e querem algo mais abrangente, que englobe também sobre adaptação e meios de implementação (recursos financeiros, transferência de tecnologia e capacitação).

"Como os países podem harmonizar suas ofertas se não sabem o que vai ter no acordo?", diz um diplomata de um país em desenvolvimento que prefere se manter em sigilo. "Se eu tiver alguém me capacitando, poderia talvez fazer 20 vezes mais em redução de emissões do que se tiver que me virar sozinho."

A discussão sobre as novas metas de cortes não é tarefa para a COP-20 e nem o formato legal do acordo - se será um tratado, um protocolo ou algum outro documento internacional com força legal. Estes itens críticos ficam para 2015. Mas os países deixam pistas, em Lima, de como enxergam o novo acordo.

Na visão do governo brasileiro, por exemplo, o novo acordo deve ser enxuto, ser inovativo e criativo - até porque, transferência de tecnologia, por exemplo, nunca aconteceu de fato neste campo porque está em mãos privadas. A meta de redução deve ter um prazo de cinco anos (2025) e ter outra, indicativa, para 10 anos (2030). A China quer que a revisão de metas seja feita a cada 10 anos, para dar mais segurança e previsibilidade aos mercados. As pequenas ilhas e os países menos desenvolvidos querem 5 anos, porque acreditam que os eventos climáticos podem exigir cortes mais severos.

O que ficou claro em Lima é que a conta da mudança do clima está ficando muito mais cara. O estudo mais importante anunciado na COP-20, até agora, foi o relatório do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), o braço ambiental da ONU, sobre quantos recursos estão sendo dirigidos à adaptação, o quanto foi inicialmente estimado e qual a projeção para o futuro, considerando-se também tecnologia e a necessidade de se investir em pesquisa e conhecimento.

O intervalo entre o que é preciso e o que é projetado é gigante, segundo o "Adaptation Gap Report". Mesmo se as emissões de gases-estufa forem reduzidas de forma a manter o aumento da temperatura em 2oC, o custo de adaptação às alterações climáticas em países em desenvolvimento pode chegar a ser duas ou três vezes superior à estimativa prévia de US$ 70 bilhões a US$ 100 bilhões por ano em 2050 que havia sido baseada em projeções do Banco Mundial.

Em 2012-2013, recursos públicos financiaram US$ 23 bilhões a US$ 26 bilhões em adaptação à mudança do clima em países em desenvolvimento. O novo relatório, que repercutiu no "Pentagonito" (como os peruanos chamam a base militar onde foram montadas as tendas que abrigam a conferência da ONU), foi produzido a partir de dados de 19 institutos e centros de pesquisa no mundo.

O estudo analisou em mais profundidade a demanda que a mudança do clima dos países em desenvolvimento pode ter por recursos financeiros, tecnologia e conhecimento dos impactos das alterações climáticas e concluiu que a cifra anterior, dos US$ 100 bilhões, foi subestimada. Este custo poderia ser de US$ 150 bilhões em 2025 e 2030 e chegar a algo entre US$ 250 bilhões e US$ 500 bilhões em 2050.

O relatório também aponta a necessidade de se acelerar a propagação de tecnologia e dá exemplos de experiências bem-sucedidas. Cita o exemplo de Madagascar, que vem utilizando variedades de arroz desenvolvidas e que amadurecem em 4 meses, em vez de 5 ou 6 meses. Isso dá à colheita mais chance de estar concluída antes da temporada de ciclones.

Este é um tema sensível na COP de Lima. Pelo segundo ano consecutivo, em coincidência com as conferências do clima da ONU, as Filipinas são atingidas por fortes tufões. Em 2015, o tufão Hayan teve efeito devastador no país e inspirou um mecanismo de perdas e danos, para países que não têm mais tempo para se adaptar.

"Alguns países têm se adaptado como podem, seguindo seus próprios meios. Não podem mais aguardar pelas decisões da convenção do clima", disse o cientista Saleemul Huq, diretor do Centro Internacional para Mudança do Clima e Desenvolvimento, baseado em Bangladesh.

O Fundo Climático Verde começou a receber recursos nos últimos meses e também com anúncios na COP de Lima por parte dos países ricos. Está próximo a US$ 10 bilhões. "A ajuda está longe de ser adequada", disse Su Wei, chefe dos negociadores chineses.

A jornalista viajou ao Peru a convite da UNFCCC/Unep

Valor Econômico, 08/12/2014, Internacional, p. A11

http://www.valor.com.br/internacional/3807634/cop-20-coloca-foco-em-ada…

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