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Controle biológico para a mosca-da-fruta

GM, Agribusiness, p. B12
30 de Ago de 2004

Controle biológico para a mosca-da-fruta

A cidade de Juazeiro (BA) terá, a partir de setembro, uma fábrica com capacidade para produzir 100 milhões de unidades semanais de moscas estéreis. A insólita linha de produção servirá para o combate à praga da mosca-da-fruta (Ceratitis capitata), que causa prejuízos da ordem de R$ 360 milhões anuais à fruticultura brasileira, tanto por perda material de frutas quanto pela questão das barreiras sanitárias impostas por países importadores.
A idéia é usar as moscas esterilizadas no controle biológico da praga. Segundo o entomologista e pesquisador da Universidade de São Paulo (USP), Aldo Malavasi, a mosca-da-fruta se acasala com apenas um companheiro durante sua vida, que dura em média 20 dias. É a fidelidade da mosca que garante a eficiência do mecanismo de controle biológico, informa o cientista.
"Com uma porcentagem segura de cruzamentos com espécimes não-férteis, a geração seguinte será consideravelmente menor do que a anterior", diz Malavasi, que comandará a unidade da Biofábrica Moscamed Brasil em Juazeiro. A fábrica é a primeira do Brasil voltada para a produção em escala de indivíduos estéreis da praga, que põe suas larvas na polpa dos frutos carnosos.
O empreendimento consumirá R$ 14 milhões em investimentos para a reforma de galpões de uma indústria têxtil desativada, e sua adaptação para a produção de moscas estéreis. O complexo, que ocupa área de 60 mil metros quadrados nos arredores de Juazeiro, foi cedido no ano passado à biofábrica, que já captou recursos da ordem de R$ 9 milhões dos ministérios da Agricultura e de Ciência e Tecnologia, e dos governos estaduais da Bahia e de Pernambuco, mais a garantia de aporte de R$ 1,5 milhão por ano, durante três anos, do Ministério da Integração Nacional, a título de verba para custeio.
Capacidade de produção
A produção, que consiste em larvas de moscas expostas a radiação, será absorvida por fruticultores de Pernambuco, Bahia, Rio Grande do Norte e Minas Gerais. O objetivo da unidade é atingir capacidade plena de produção - cerca de 200 milhões de moscas esterilizadas por semana - até 2006. A partir desse ponto, parte da produção será exportada para países da América do Sul e aos mercados de Espanha e Israel.
De acordo com Malavasi, é no mercado externo que se encontra a maior demanda por mecanismos de controle biológico de pragas. Os citricultores do estado da Flórida, nos Estados Unidos, por exemplo, consomem integralmente 1,8 bilhão de moscas produzidas a cada semana pelas biofábricas da Guatemala.
O mercado espanhol de moscas-da-fruta esterilizadas representa praticamente o dobro desse volume, diz o pesquisador. "Nós temos uma vantagem competitiva importante no baixo custo dos insumos de criação de moscas", afirma
Segundo ele, a disponibilidade de insumos como bagaço de cana, usado para a germinação de larvas, faz com que os custos de produção da mosca no Brasil sejam cerca de 53% inferiores aos observados nos Estados Unidos ou na Espanha. O único limitador para a exportação das moscas de Juazeiro é a logística de transporte. Enviadas em viveiros fechados para os compradores, as larvas esterilizadas têm sobrevida inferior a 48 horas, limite para a condição de apóxia (falta de oxigênio).
Pólo importador
É o prazo para as cargas vencerem, de avião, um percurso de Juazeiro a Valência, o pólo importador de moscas na Espanha, passando pelos aeroportos de Recife (PE) e Lisboa, em Portugal. "Acima desse tempo, o que chega ao comprador é mosca morta", diz Malavasi.
A demanda interna pelas moscas estéreis ainda está imatura. "Por hora, existe procura gerada pela preocupação com as barreiras sanitárias impostas pelos EUA e alguns países asiáticos, como o Japão, que rejeitam frutos colhidos de pomares com incidência superior a um limite pré-determinado na população de moscas e com níveis altos de defensivos químicos", afirma Malavasi.
A mosca estéril já é utilizada por fruticultores das regiões Nordeste e Sudeste para controlar a população da praga nos pomares, sem romper o limite para o uso de agrotóxicos. "Mas a demanda tende a aumentar em um curto prazo, com o barateamento dos controles biológicos."

GM, 30/08/2004, Agribusiness, p. B12

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