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'Continuamos poluindo os rios e pagando um preço alto por isso', afirma especialista

O Globo, Especial/Dia Mundial da Água, p. 2
Autor: CARLO, Édison
22 de mar de 2019

'Continuamos poluindo os rios e pagando um preço alto por isso', afirma especialista
Édison Carlos avalia que o país não aprendeu com a crise hídrica no Sudeste, em 2014: continua desperdiçando água, não aposta em estações de reuso e reduz investimentos em saneamento

Renato Grandelle
22/03/2019 - 04:30 / Atualizado em 22/03/2019 - 08:17

RIO - Rico em recursos hídricos, o Brasil sofre, no entanto, com crises de desabastecimento, desperdício crônico de água e está longe de conseguir resolver o problema do acesso ao saneamento básico, focos principais da Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (Oscip), presidida por Édison Carlos. Em entrevista ao GLOBO, o químico faz um balanço da situação do país na área.
No Dia Mundial da Água, o Brasil tem motivos para comemorar?
Sim, porque tem uma das maiores reservas de água doce do mundo (12,8% do total). O problema é que não sabemos usar esse recurso, que está distribuído de forma irregular em nosso território, e fazemos muito pouco para preservá-lo.
Como se dá essa distribuição?
Aproximadamente 70% da água doce está na Região Norte, onde há baixíssima densidade populacional. Apenas 6% da população vive nesta área. Já o Sudeste tem 40% dos habitantes do país e apenas 6% de toda a reserva de água doce. Esta desigualdade impõe desafios ao gerenciamento da água, como a alta taxa de desperdício. Fomos ensinados por décadas que temos recursos hídricos em abundância, por isso pensávamos que poderíamos fazer qualquer coisa.
É viável a a transposição a água de regiões onde ela é mais abundante para o Sudeste?
Existe tecnologia para isso, mas o custo é alto. São empreendimentos gigantescos, que ocupam milhares de quilômetros. O ideal seria decidir como aproveitar melhor os recursos que já existem aqui.
Em 2015, na Cúpula das Nações Unidas sobre o Desenvolvimento Sustentável, o país se comprometeu a universalizar os serviços de água e esgoto até 2030. No ritmo em que caminhamos, será possível cumprir a meta?
Não. Se continuarmos no ritmo da última década, provavelmente só cumpriremos nosso desafio por volta de 2050. Segundo o Ministério do Desenvolvimento Regional, ainda temos 35 milhões de pessoas sem água tratada, e quase 100 milhões não contam com tratamento de esgoto. É quase metade da população. Os dejetos, então, são jogados na natureza e poluem os rios. A água não tem fronteiras. Se um município coleta o esgoto, mas a cidade vizinha não tem saneamento básico, ele será contaminado.
Após a crise hídrica de 2014, nós aprendemos a lição?
Não, continuamos poluindo os rios, de que tanto precisamos, e pagamos um preço alto por isso. Temos que nos pensar como um país com baixa disponibilidade de água, e que, por isso, deve adotar tecnologias para seu reaproveitamento, como fizeram Espanha e Israel. Durante a crise, o governo anunciou a construção de diversas estações de reuso, mas o plano foi abandonado logo depois. Em todo o mundo há projetos de dessalinização da água do mar. É uma estratégia de alto potencial no Brasil, onde há várias capitais litorâneas. Mas vale lembrar que a construção de uma usina demora quatro, cinco anos. Por isso, não podemos esperar uma crise para tirar esse plano do papel.
Por que o país não consegue resolver o problema do saneamento básico?
Uma lei de 2017 passou esta atribuição às prefeituras, então são elas que devem ser cobradas pela população. Infelizmente, predomina a desinformação. Por questões políticas, os prefeitos acreditam que este tema não interessa à população. Acham que saneamento é só construir tubo e que, por não ser uma obra visível, não dá voto. Ignoram que, se houvesse investimento, conseguiriam evitar uma série de doenças cuja solução é simples, como diarreia, leptospirose, hepatite A, dermatites e as relacionadas ao mosquito Aedes aegypti. Como não há prevenção, esses casos param no sistema público de saúde, que fica sobrecarregado e exige uma fortuna.
Então, além de prejudicar a saúde da população, o país também perde dinheiro por não investir no acesso à água potável e ao tratamento de esgoto?
Sim. Quando fica doente, a criança não vai à escola, o trabalhador falta no serviço, o idoso morre por doenças graves, o turismo cai. É um efeito cascata sobre diversas áreas. Segundo nossas projeções, se o país tiver tratamento correto da água e saneamento básico, pode ganhar R$ 1 trilhão até 2037.
Quanto deve ser investido em saneamento?
Se quisermos universalizar o serviço até 2030, precisaremos de, no mínimo, R$ 20 bilhões por ano. No entanto, o investimento vem diminuindo. Em 2014, foram gastos R$ 14 bilhões na expansão e manutenção da rede de esgoto. Em 2016, esse investimento caiu para R$ 11 bilhões.
Como evitar que esta queda seja ainda mais acentuada?
Podemos estabelecer parcerias público-privadas, seja por concessões ou contratos mistos. O setor privado tem mais flexibilidade para buscar financiamento, inclusive no exterior. Mas não há uma fórmula única.
Qual é sua avaliação sobre os 12 anos da Lei do Saneamento Básico?
O país investiu mais de R$ 80 bilhões no setor nos últimos sete anos. É uma quantia significativa, que seria inimaginável se não houvesse esta lei, que deu segurança jurídica para o setor privado. O problema é que, entre as décadas de 1980 e 2000, as cidades e a população cresceram sem infraestrutura de saneamento. Há muitos condomínios de alto luxo que têm fossa no quintal. Em Santa Catarina, um estado com alta qualidade de vida, apenas 22,8% do esgoto é coletado.
E o desperdício, também é um problema?
Sim. Hoje, o país perde, em média, 38% da água potável produzida. O estado do Rio desperdiça 50%. É como uma padaria que joga metade do pão fora. Isso ocorre devido a vazamentos, redes já degradadas, roubo de água, medidores que não detectam o volume realmente usado. Se perdemos muita água, precisamos buscar ainda mais na natureza. É um esforço que deve ser evitado. Além disso, também gastamos mais água do que o recomendado pela ONU. O consumo médio do Brasil, em 2017, foi de 154 litros diários por habitante, chegando a 250 litros no Rio. O ideal são 110.
Qual é a situação do Brasil em comparação com outros países da América do Sul?
Estamos em um patamar semelhante ao do Peru e da Bolívia. Enquanto isso, o Chile, por exemplo, já resolveu seus problemas com saneamento.

O Globo, 22/03/2019, Especial/Dia Mundial da Água, p. 2

https://oglobo.globo.com/sociedade/continuamos-poluindo-os-rios-pagando…

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