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Contando com as chuvas

O Globo, Economia, p. 19
10 de Jan de 2013

Contando com as chuvas
Se clima não ajudar, governo manterá térmicas para garantir fornecimento. Tarifa pode subir 3%

DANILO FARIELLO
danilo.fariello@bsb.oglobo.com.br
MÔNICA TAVARES
monicao@bsb.oglobo.com.br

As tarifas de energia poderão subir até 3% em 2014, se o pior cenário de previsão de chuvas se concretizar e a quase totalidade das usinas térmicas se mantiver acionada ao longo deste ano, admitiu o diretor-geral do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), Hermes Chipp, após participar, ontem, da reunião do Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico (CMSE). O governo está, assim, contando com as chuvas e com as térmicas para evitar problemas no fornecimento de energia, embora o risco de apagão tenha sido novamente descartado pelo ministro de Minas e Energia, Edison Lobão.
- Em 2008 (ano de seca mais severa, em que também se cogitou o risco de racionamento), no dia 21 de janeiro, não havia uma gota de chuva. Agora, no dia 9 de janeiro, nós já temos chuva em boa parte do Brasil, portanto, nos nossos reservatórios, que estão com alguma dificuldade hoje, a tendência é melhorar daqui para frente - disse Lobão.
O Comitê discutiu medidas que poderão ser adotadas para afastar o risco de um racionamento, entre as quais, o uso permanente das térmicas mais caras, hoje só acionadas quando o nível dos reservatórios cai demais. O Comitê - do qual também faz parte o ministro e representantes da Eletrobrás, da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) e da Empresa de Pesquisa Energética (EPE) - analisou ainda opções para reduzir o impacto nas tarifas do custo das térmicas.
Chipp disse que, no pior cenário de chuvas, com as térmicas mais caras acionadas o ano inteiro em 2013, o custo mensal médio desse uso será de R$ 400 milhões. Isso poderia levar a um aumento de tarifas entre 2% e 3% em 2014, dependendo das ações que o governo adotar para reduzir esse impacto.
Com chuvas, impacto será mínimo
No melhor cenário, indicado pelas condições meteorológicas a que o governo têm acesso hoje, as chuvas serão mais intensas até o fim de abril, quando as térmicas mais caras poderão ser desligadas. Com mais chuvas, o impacto do uso das térmicas no preço das tarifas deverá ser mínimo em 2014, diz Chipp:
- Com o retorno das chuvas, desligaremos as térmicas mais caras primeiro.
Segundo fontes, o leque de medidas em estudo pelo governo é bastante variado. Entre as principais ações, destacam-se acelerar os investimentos em geração e transmissão; aumentar a curva de aversão ao risco do limite mínimo dos reservatórios de água (o que permitiria ligar as térmicas por mais tempo); manter as térmicas ligadas ao longo de todo o ano; sancionar a renegociação de excedentes de energia contratados por grandes consumidores; aplicar aos consumidores residenciais e de baixa tensão a "bandeira tarifária" (com variações sazonais da tarifa anual conforme o volume dos reservatórios e o preço da energia no atacado); e conceder mais incentivos aos chamados microgeradores de energia elétrica, como residências, prédios e estabelecimentos comerciais com placas de geração de energia solar, por exemplo.
Mal terminou a reunião do CMSE, Lobão convocou uma entrevista coletiva em que descartou a hipótese de um novo racionamento de energia, como ocorreu em 2001. O ministro negou ainda que faltará gás natural das indústrias, por causa de um desvio do fornecimento para o acionamento de usinas termelétricas.
- Não haverá agora, e espero que jamais haja novamente, desabastecimento de energia elétrica neste país - disse Lobão. - Na reunião de hoje (ontem), ficou a tranquilidade reiterada de que o país possui um estoque de energia firme e em condições de atender a todas as nossas necessidades.
Na avaliação do governo, o custo maior com as térmicas em 2013 é razoável, para afastar um novo risco de racionamento. O governo indicou ontem, portanto, que lançará mão de todas as possibilidades para evitar um racionamento, que poderia abalar o crescimento do país e a popularidade do governo.
lobão admite atrasos em obras
Com os principais reservatórios das bacias dos rios Parnaíba e Rio Grande em condição crítica, o Brasil têm acionado as usinas térmicas com custo mais caro de geração, movidas a óleo diesel e gás. Essa energia é paga em parte por encargos e em parte pelas distribuidoras, que depois apresentam seus custos à Aneel, que poderá repassá-los à tarifa dos consumidores finais.
O ministro reconheceu que há atraso nas obras do setor elétrico, conforme revelou o GLOBO ontem. Ele culpou, principalmente, questões socioambientais, como a demora na liberação de licenças e intervenção de grupos indígenas em construções de usinas hidrelétricas como Jirau, Santo Antônio, em Rondônia, e Belo Monte, no Pará.
- Os atrasos realmente existem, infelizmente em todas as obras do país, não apenas no setor elétrico.
O ministro garantiu que, independentemente da variação das tarifas por conta do uso das térmicas, haverá já no próximo mês a redução das contas pagas pelos consumidores em 20% prometida pela presidente Dilma Rousseff.
Analistas do JPMorgan avaliaram ontem que, graças às mudanças estruturais no sistema, o risco de um racionamento de energia no Brasil, como ocorrido em 2001, é improvável, permanecendo inferior a 10%.
Após dois dias seguidos de quedas, as ações de empresas do setor elétrico se recuperaram ontem e ajudaram a Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) a fechar em alta. O Ibovespa subiu 0,74%, aos 61.578 pontos. Entre as cinco maiores altas, quatro foram de papéis de elétricas. As ações PNB da Cesp tiveram a maior valorização e subiram 6,71% e os papéis PN da Cemig, 5,58%. O dólar comercial teve queda de 0,04%, para R$ 2,037 na venda.

'Se demorar a chover, custo vai ficar mais pesado'
Especialista da USP defende flutuação de preços para consumidor

RONALDO D'ERCOLE
ronaldod@sp.oglobo.com.br
PAULO JUSTUS
paulo.justus@sp.oglobo.br

SÃO PAULO Apesar dos níveis preocupantes dos reservatórios das hidrelétricas em todas as regiões do país, para especialistas, as usinas térmicas que compõem o sistema energético brasileiros estão aptas a evitar um novo racionamento, como o que aconteceu em 2001. Porém, isto tem um preço.
- As térmicas podem continuar sendo usadas, mas nós pagaremos por isso. Se chover logo, esse custo vai ser menos grave. Se demorar a chover, esse custo vai ficar mais pesado - diz José Pinguelli Rosa, diretor da Coppe-UFRJ e ex-presidente da Eletrobrás.
Segundo Pinguelli, se o governo tivesse acionado as térmicas antes, o quadro hoje seria melhor:
- A situação dos reservatórios é critica, especialmente no Sudeste, onde estão a 28%, que é muito baixo. Mas a situação não é desesperadora porque dispomos das térmicas. E ainda há a perspectiva de que haja chuva até abril, mesmo que não seja tanta como precisamos - diz - Se o governo tivesse ativado mais cedo as térmicas o problema do baixo nível dos reservatórios hoje seria menor.
O fato de o Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico (CMSE) não ter anunciado qualquer nova ação depois da reunião de ontem não surpreendeu Pinguelli. Uma medida importante, e anterior à reunião, observa, foi a ativação da Termelétrica de Uruguaiana (RS), que é movida a gás natural e tem capacidade de geração de 600 MW.
Para Virgínia Parente, professora de programa de pós-graduação em energia da USP, é pequeno o risco de impactos expressivos do uso das térmicas nos preços para o consumidor. E o governo, diz, está atento. Ela admite que o sistema elétrico nacional não é de risco zero, mas reconhece que seu planejamento dá opções que minimizam os riscos.
Uma medida importante para dar maior eficiência ao sistema nacional, defende Virgínia, seria a flutuação dos preços da energia também para os consumidores residenciais, como acontece nos EUA.
- Isso permitiria a redução do consumo em momentos de alta demanda, como o atual.

O Globo, 10/01/2013, Economia, p. 19

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