O Globo, Ciência, p. 30
24 de Nov de 2009
A conta é dos pobres
Países em desenvolvimento arcarão com pelo menos 75% do prejuízo climático
Vivian Oswald e Catarina Alencastro
Brasília
Um estudo do Banco Mundial quantifica, pela primeira vez, o tamanho do prejuízo que os países em desenvolvimento terão com a elevação da temperatura do planeta. E o número assusta: de 75% a 85% da conta serão deles. Às vésperas do início da Conferência sobre Mudanças Climáticas da ONU, em Copenhague, o Bird calcula que governos e setor privado terão de investir cerca de US$ 250 bilhões anualmente para reduzir as emissões das nações em desenvolvimento e promover novas tecnologias para adaptálos às mudanças climáticas até 2030.
Essas despesas para mitigar os efeitos das mudanças climáticas vão desde modernização das técnicas agrícolas até o investimento em moradias resistentes a inundações.
- (Os países) têm que atuar juntos, de forma diferenciada.
Não temos tempo a perder e tudo terá que começar com metas ambiciosas dos países ricos - afirmou a economista-chefe do Bird, Marianne Fay.
O banco afirma que, atualmente, gastam-se apenas US$ 10 bilhões para o financiamento climático dos países em desenvolvimento, muito abaixo dos pelo menos US$ 75 bilhões necessários para a adaptação às novas condições climáticas e US$ 175 bilhões para a redução das emissões. O relatório aponta ainda que as emissões têm impacto direto sobre pobreza e que os países mais pobres terão reduções permanentes do PIB de 4% a 5% com o aumento da temperatura global em 2 graus Celsius - elevação já aceita como um fato irreversível.
"Os países em desenvolvimento suportarão o peso dos efeitos da mudança climática. Para esses países, a mudança climática ameaça aprofundar vulnerabilidades, minar os ganhos conquistados com dificuldade e prejudicar seriamente as perspectivas de desenvolvimento", diz o documento.
Ainda não há uma estimativa oficial para a América Latina, mas Fay garante que o Brasil será um dos países mais afetados daqui para frente. Investimentos substanciais em pesquisa e tecnologia devem ser feitos para adaptar o mercado na velocidade necessária. O Bird estima que serão precisos recursos adicionais, além dos US$ 15 bilhões atuais. Calcula algo que pode ir de US$ 100 bilhões a US$ 700 bilhões anualmente.
"As tecnologias existentes e melhores práticas, por exemplo, podem reduzir de 20% a 30% o consumo de energia nos setores industrial e energético, ajudando a reduzir as emissões sem prejudicar o crescimento econômico", informa o documento. Por sinal, Fay garante que o Brasil é um dos países que não terá que optar entre um e outro: - O Brasil tem uma condição interessante: não tem que escolher entre crescimento e sustentabilidade.
O Brasil tem a possibilidade de crescer com sustentabilidade.
Ela elogiou o compromisso que o governo assumiu de reduzir em 80% o desmatamento da Amazônia até 2020, mas alertou: - Não podemos esperar que o Brasil possa financiar sozinho um bem público global. O Brasil não tem o dever de controlar o desmatamento sem ajuda global.
Os compromissos que o país deve levar a Copenhague, segundo o coordenador de Desenvolvimento Sustentável do Bird, Mark Lundell, são louváveis. Mas ele avalia que o país precisa estar atento para que eles sejam cumpridos: - Na medida em que você diminui o desmatamento, mais difícil fica manter baixo o desmatamento.
Nas demais áreas, o Brasil já tem uma das matrizes energéticas mais limpas. Diminuir as emissões com o aumento da demanda por energia e o aumento da população é um desafio difícil, mas também factível
O Globo, 24/11/2009, Ciência, p. 30
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