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Conta do clima chega a US$ 300 bilhões por ano

O Globo, Ciência, p. 28
12 de Ago de 2009

Conta do clima chega a US$ 300 bilhões por ano
Valor não deve ser alcançado durante a reunião de cúpula da ONU, em dezembro

Catarina Alencastro*
Enviada especial

O compromisso dos países ricos de financiar projetos para diminuir os efeitos das mudanças climáticas em países emergentes dificilmente será alcançado em dezembro, quando vai ocorrer a reunião de cúpula da ONU sobre mudanças climáticas, em Copenhague. A avaliação é do secretário-executivo da convenção, Yvo de Boer.

Estima-se que o montante necessário para pagar projetos de mitigação seja de US$ 200 bilhões por ano, mais US$ 100 bilhões anuais para projetos de adaptação às mudanças climáticas. Para Yvo de Boer, é preciso mais tempo para que os países ricos aceitem desembolsar tais quantias. A maior parte desse dinheiro, diz ele, viria dos governos e o restante, de investimentos no mercado de carbono.

- Eu não acho que nós teremos um acordo para os US$ 300 bilhões em Copenhague. Nós precisamos de um tempo para chegar lá. US$ 300 bilhões depois de uma crise é pedir muito - disse o secretário, que participa de um evento preparatório para a conferência, em Bonn.

Mercado de carbono: uma alternativa em debate
Essa visão é compartilhada pelo negociador chefe da delegação brasileira, Luiz Alberto Figueiredo, do Itamaraty.

Quando o assunto é financiamento, a maior preocupação do Brasil é com o mecanismo REDD (Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação de Florestas), que deverá ser regulamentado na Convenção de Copenhague. Como a maior parte das emissões de CO2 brasileiras vem do desmatamento, a chave das negociações do governo passa por instrumentos internacionais que o ajudem a pagar a conta do combate ao problema.

O diplomata brasileiro defende que haja financiamento "adequado" e de diferentes fontes para diminuir o desmatamento na Amazônia, atualmente em torno de 11 mil km2 por ano. Ele não descarta a possibilidade de o mercado de carbono ser uma dessas fontes.

- O financiamento para o combate ao desmatamento virá de várias fontes, inclusive do mercado de carbono, com cuidado para não ter quebra da integridade do sistema climático - resumiu Figueiredo.

Brasil quer liderar países em desenvolvimento
Para o Greenpeace, o perigo é que o mercado de carbono entre nessa conta, dando créditos para que outro país emita mais CO2 em troca de uma emissão que não deixará de acontecer, e não de uma emissão que será cortada. Nessa equação, as emissões globais, ao invés de caírem, acabarão subindo.

- Enquanto o mercado de carbono não estiver regulado, não é recomendável que seja usado para pagar o combate ao desmatamento - explicou João Talocchi, da Campanha de Clima do Greenpeace.

Figueiredo confirmou que o Brasil irá mesmo apresentar em Copenhague o volume da diminuição de emissões que deverá fazer no médio prazo.

A fórmula dessas reduções, disse, ainda está sendo discutida, mas terá como base as ações e números apresentados no Plano Nacional de Mudanças Climáticas.

Segundo o documento, lançado no final do ano passado, o Brasil pretende diminuir o desmatamento em 70% até 2017, o que levaria a reduções da ordem de 4,8 bilhões de toneladas de carbono. Os números que deverão ser apresentados ao mundo serão, segundo o diplomata, verificáveis.

- Nós temos o potencial de reduzir bastante. Pode representar mais do que estão fazendo os países desenvolvidos. Temos que ser ambiciosos - disse, completando que, com isso, o Brasil, além de puxar outros emergentes para assumirem compromissos, dará ao país a condição de cobrar cortes mais agressivos dos países ricos.
*A repórter viajou a convite da Agência de Notícias dos Direitos da Infância

O Globo, 12/08/2009, Ciência, p. 28

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