O Globo, Ciência e Vida, p. 32
24 de Out de 2006
Consumo excede em 25% recursos do planeta
Degradação da biodiversidade é tanta que serão necessárias duas "berras para suprir demanda até 2050
O homem está consumindo 25% mais recursos naturais a cada ano do que o planeta é capaz de repor. Levando-se em conta o crescimento populacional, a evolução tecnológica e o desenvolvimento econômico, até 2050 a Humanidade estará consumindo mais que o dobro da capacidade da Terra. Ou seja: seriam necessários mais de dois planetas para suprir tal demanda, segundo o relatório "Planeta Vivo 2006", do Fundo Mundial para a Natureza (WWF).
Se a tendência não for controlada imediatamente, em 2050 os seres humanos estarão consumindo até 220% da capacidade biológica da Terra, o que levaria o planeta a um colapso, alerta o relatório, divulgado a cada dois anos.
Em 33 anos, populações de animais caíram em 30%
Tal consumo insustentável está levando a um declínio considerável das populações de espécies de animais, em razão da degradação ou completa destruição de seus habitais.
O documento aponta que, entre 1970 e 2003, as populações de animais terrestres e aquáticos sofreram uma redução de aproximadamente 30%.
"Essa tendência global sugere que estamos deteriorando os ecossistemas naturais a um ritmo nunca visto na História da Humanidade", sustenta o relatório.
Os especialistas analisaram dados referentes a 695 espécies terrestres, 274 marinhas e 344 de água doce. Em média, as populações de espécies terrestres caíram 30% nestes 33 anos, mas a queda foi muito mais acentuada nas regiões tropicais - onde chegou a 55% - do que nas temperadas. Isso ocorreu, segundo o documento, em razão da destruição acentuada, nessas áreas, de habitais naturais para dar lugar a áreas de cultivo e criação de gado. Tal processo ocorreu de forma mais intensa nas regiões temperadas antes da década de 50.
Entre as espécies marinhas, a redução registrada entre 1970 e 2003 foi de 25%. O relatório chama a atenção para a grande destruição de manguezais - um terço de área global foi perdido entre 1980 e 2000 - regiões muito importantes para a reprodução dos animais. Entre as espécies de água doce, a redução populacional foi de 30% globalmente.
Os maiores responsáveis, segundo o relatório, são a pesca excessiva, a poluição e a destruição de sistemas fluviais para o abastecimento de água, entre outros fatores.
Emissões de C02 aumentaram dez vezes
Embora a água doce para consumo e irrigação não seja considerada um bem escasso globalmente, sua distribuição pelo planeta é extremamente irregular e, em algumas regiões, a pressão é grande. De acordo com o relatório do WWF, estima-se que de 15% a 35% das captações para irrigação no mundo não sejam sustentáveis.
O documento destaca ainda as emissões de C02, que tanto contribuem para o aquecimento global. Segundo os dados, foi um dos índices que mais cresceram, aumentando mais de dez vezes entre 1961 e 2003.
Queimadas são as vilãs ambientais no Brasil
Destruição de florestas causa redução de populações animais em mais de 55%
Roberta Jansen
Na lista dos países que causam mais impacto ao meio ambiente, o Brasil aparece em 60o lugar, muito atrás dos Estados Unidos, o primeiro colocado no ranking da insustentabilidade. Mas para um país que tem matriz energética limpa (hidroelétricas), a posição chama a atenção. O grande problema, apontam especialistas, é o desmatamento para a abertura de áreas agrícolas e, sobretudo, pastagens.
- Por causa das queimadas, o Brasil é o quarto país do mundo hoje em volume de emissões de C02 - aponta o superintendente de conservação do WWF no Brasil, Leonardo Lacerda - Se conseguíssemos reduzir o desmatamento, poderíamos estar numa posição de liderança global em relação ao desenvolvimento sustentável, poderíamos estar mostrando ao mundo que é possível um país se desenvolver sem aumentar o consumo.
Na análise de Lacerda, as ocupações ilegais, sobretudo na Amazônia, são as maiores responsáveis pela situação. Isso leva a uma destruição considerável de populações animais.
- O percentual de redução populacional para regiões tropicais é de 55%, mas eu diria que, no Brasil, talvez seja ainda um pouco mais alto - afirma Lacerda. - Somos um dos campeões mundiais em desmatamento e sabemos que existe uma relação muito estreita entre destruição de habitats e perda de biodiversidade.
Lacerda frisou ainda a preocupação da instituição em relação à destruição de áreas de mangue. De acordo com o relatório, a perda de regiões de manguezais na América do Sul foi superior a 50% entre 1970 e 2003.
- Esse dado é extremamente preocupante porque as áreas de mangue são berçários de várias espécies - diz o especialista.
A destruição de recursos naturais hoje no Brasil acompanha a média global: já consumimos aproximadamente 25% mais do que se pode repor naturalmente.
O Globo, 24/10/2006, Ciência e Vida, p. 32
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