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Construções verdes

CB, Economia, p. 30
07 de Out de 2007

Construções verdes
Empreendimentos ecológicos ainda são raridade no Brasil, mas começam a conquistar consumidores interessados em preservar o meio ambiente e em garantir alta qualidade de vida

Luciana Navarro
Da equipe do Correio

Em tempos de discussão sobre o aquecimento global e sobre a urgente necessidade de preservação do meio ambiente, a indústria da construção civil brasileira resolveu entrar na onda do "ecologicamente correto". Aos poucos, os empreendimentos imobiliários sustentáveis ganham força e tentam reduzir o desperdício, que chega 30%: a cada três prédios erguidos, um é transformado em entulho. Nos edifícios verdes, o lixo é menor - aproveita-se mais os recursos naturais do terreno e ainda garante-se economia maior de luz e água para os futuros moradores.
Tantos benefícios, entretanto, têm um preço. Os prédios considerados sustentáveis têm um custo até 5% maior de construção. Com o aumento da demanda por esses empreendimentos e uma melhor adaptação do mercado imobiliário a esse segmento, a tendência é reduzir os gastos com a edificação. "No Brasil, isso ainda é novidade e tudo o que se precisa aprender tem um custo maior, mas, nos Estados Unidos, existem empresas que conseguem construir pelo mesmo preço das empreiteiras tradicionais", afirma Thassanee Wanick, presidente do Green Building Council Brasil, organização não governamental que busca desenvolver a construção sustentável no mundo.
De acordo com Paulo Safady, presidente da Câmara Brasileira da Indústria da Construção Civil (CBIC), o custo maior do imóvel é recuperado rapidamente pelos usuários por conta da economia de energia e água . "Há uma consciência do consumidor para a importância da sustentabilidade", afirma.
Os preços dos materiais utilizados na construção de prédios sustentáveis ainda são altos no Brasil, mas, à medida que a demanda aumentar, tendem a cair. "Estamos vivendo um momento maravilhoso da indústria da construção civil no país.
Com o crescimento das obras, surge a necessidade de diferenciar os projetos e, assim, o mercado passa a valorizar mais os empreendimentos sustentáveis", afirma Cláudio Conz, presidente da Associação Nacional da Indústria de Materiais de Construção (Anamaco). Mesmo com os preços mais altos, os produtos desenvolvidos ganham, aos poucos, o gosto dos clientes. As torneiras metálicas com fechamento automático, por exemplo, apresentam taxa de crescimento anual de 30%, de acordo com a Anamaco.
A redução dos custos e, conseqüentemente, do desperdício pode ser feita, segundo o professor Mounir Khalil El Debs, da Escola de Engenharia de São Carlos da Universidade de São Paulo (USP), com planejamento correto da obra. Além disso, o pesquisador defende o uso de estruturas pré-modaldas, que diminuem o tempo de construção e ainda evitam o descarte de madeiras gastas na fabricação de formas de concreto. "Dessa maneira, só fica mais caro se a arquitetura não ajuda o processo ou se não há uma padronização do tamanho do pré-moldado", explica El Debs.
Racionalização
Para evitar o uso de materiais desnecessários, o melhor é otimizar os espaços. A idéia é defendida pelo arquiteto Eduardo Estrela, diretor-geral da Estrela Arquitetura, única associada do Green Building Council em Brasília. Ele se prepara para lançar dois empreendimentos verdes em Águas Claras ainda este ano.
Cada prédio terá um terreno de 6 mil metros quadrados e ocupará apenas 10% da área. "Resolvemos verticalizar os edifícios para ampliar a permeabilidade do terreno", detalha. As cores das fachadas claras favorecerão, segundo ele, a economia de energia. Os edifícios terão, ainda, estações de tratamento da água que garantirão o reaproveitamento do líquido gasto em chuveiros e torneiras para lavagem de carros e irrigação dos jardins. "Medidas como essas geram cerca de 30% de economia no condomínio", garante o arquiteto.
A sustentabilidade dos empreendimentos imobiliários também é bandeira das Organizações PauloOctavio. Na sexta-feira, a empresa fez um pré-lançamento de seu segundo prédio verde na capital da República. Segundo Marcelo Carvalho, diretor da construtora, o edifício será construído na 213 Norte e terá os "princípios ambientais respeitados" com a utilização de placas de aquecimento solar e árvores do cerrado compondo o paisagismo, por exemplo.
Mais por menos
Apesar dos preços elevados cobrados pelos materiais de construções sustentáveis, há várias formas de adaptar as obras ao bolso e ainda garantir a economia de água, energia elétrica e alimentos. A Chácara Asa Branca, localizada a 25 quilômetros do centro de Brasília, reúne inúmeros exemplos de construções sustentáveis (veja ilustração).
Todas as edificações são feitas levando em consideração a posição do sol e a incidência maior do vento, o que permite ambientes iluminados e frescos a maior parte do tempo. As paredes são fabricadas com cimento, madeira, barro, ferro e não levam tinta. Segundo Leandro Santos Jacintho, administrador de empresas e um dos permacultores responsáveis pela área, as construções saem por até metade do preço daquelas de mesmo tamanho feitas de tijolos e concreto.
A idéia é aproveitar sempre os recursos disponíveis na natureza. As casas da chácara têm pilares de troncos de árvores e as varandas são feitas com madeiras normalmente desperdiçadas pela construção civil como o eucalipto. A luz solar é usada para pré-aquecer a água dos chuveiros que, quando utilizada, irriga as plantas dos jardins. A água da chuva é armazenadas em cisternas e tanques. Tudo isso, de acordo com Leandro, não sai caro. Uma cisterna com capacidade de armazenamento de 70 mil litros de água pode ser feita com R$ 2 mil desde que o material escolhido seja o mesmo das paredes das casas da Asa Branca. Neste caso, o investimento é rapidamente recuperado com a economia garantida nas contas de água. São apenas exemplos de que preservar o ambiente nem sempre dá trabalho ou custa caro.
(Colaborou Amaro Júnior)

CB, 07/10/2007, Economia, p. 30

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