OESP, Vida, p. A20
Autor: MEYER, Regina Maria Prosperi
22 de Ago de 2007
Conseguir produção limpa envolve esforço regional
Para especialista, é preciso envolver regiões metropolitanas inteiras para implantar políticas de qualidade ambiental
Entrevista: Regina Maria Prosperi Meyer: arquiteta e urbanista
Cristina Amorim
A arquiteta e urbanista Regina Maria Prosperi Meyer será uma das únicas participantes da 6ª Conferência Municipal de Produção Mais Limpa, que acontece hoje no Memorial da América Latina, em São Paulo, que não lida com questões ambientais no dia-a-dia. Sua contribuição, contudo, é essencial no ano em que a população urbana mundial empata com a rural pela primeira vez na história da humanidade. "Produção limpa implica regras que ultrapassem os limites do município", afirma.
Como o urbanismo pode colaborar para uma produção mais limpa?
Há a necessidade de se levar em conta não só o município mas a região metropolitana. É impossível tratar de questões como poluição dos rios, no que a indústria tem imensa participação, sem levar em conta este conceito. É o caso da limpeza do (Rio) Tietê: o despejo que se dá em outros municípios é difícil controlar e, sem isso, é uma atividade inócua. Produção limpa implica regras que ultrapassem os limites do município. No Brasil, a Grande Recife já trabalha desta forma e há iniciativas no Paraná e em Santa Catarina.
É caro limpar a produção?
Num primeiro momento sim, pois exige investimento. Precisamos ter regras de implantação gradual muito claras e realistas, lembrar que somos parte de um processo, não de uma transformação abrupta. Precisamos de cenários, metas, financiamento para adaptação. O grande drama que o Brasil vive é que, no momento em que a gente realmente começou a se industrializar, a variável da produção limpa entrou em cena. A industrialização do Hemisfério Norte foi mais barata do que a nossa será.
Manter a produção industrial entre áreas residenciais não expõe a população à poluição?
Essa indústria poluidora, de base, não existe mais em São Paulo, e ela tem de ser regulamentada seja lá onde estiver. A indústria hoje é flexível, está espalhada e é voltada para o serviço, como gráfica e alimentação. São Paulo passa por esta transição: de eminentemente industrial se torna uma cidade de serviço.
Qual é o impacto ambiental desta fragmentação?
Por exemplo, na forma como vive a mão-de-obra. A classe operária está na periferia e cada vez mais precisa do transporte coletivo. A poluição do ar produzida pelo veículo motorizado é uma das principais preocupações ambientais da cidade. A produção que depende da mobilidade precisa ser equacionada.
Especialistas defendem que a pessoa viva e trabalhe na mesma região da cidade, para conter o deslocamento. Mas como aplicar essa idéia em um local como a Grande São Paulo?
Essa idéia me parece fora da realidade. O emprego está absolutamente espalhado dentro da cidade, não mais localizado dentro de uma região como era o ABC paulista, e as pessoas ficam nos espaços que se apresentam como mais viáveis no aspecto econômico. É muito difícil desenhar uma redução de viagens. E há um atraso na infra-estrutura de transporte - não apenas o metrô, mas todos os modos de transporte têm de entrar em cena.
Quem é:
Regina Meyer
É arquiteta e professora na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade
de São Paulo (USP)
É doutora em Estruturas Ambientais Urbanas
OESP, 22/08/2007, Vida, p. A20
As notícias aqui publicadas são pesquisadas diariamente em diferentes fontes e transcritas tal qual apresentadas em seu canal de origem. O Instituto Socioambiental não se responsabiliza pelas opiniões ou erros publicados nestes textos. Caso você encontre alguma inconsistência nas notícias, por favor, entre em contato diretamente com a fonte.