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Conheça a história daquelas que são destaques na produção científica paraense

Diário Online - https://www.diarioonline.com.br
Autor: Cintia Magno
08 de mar de 2020

Depois da confirmação dos primeiros casos de coronavírus no Brasil, a rapidez com que uma equipe de pesquisadores brasileiros chegou ao sequenciamento genético do novo vírus chamou a atenção do mundo. A equipe foi coordenada por duas pesquisadoras brasileiras. A exemplo das biomédicas, neste Dia Internacional da Mulher, hoje, o DIÁRIO mostra que as mulheres são destaques também na ciência desenvolvida no Estado do Pará.

Na parede de uma das salas do campus de pesquisa do Museu Paraense Emílio Goeldi, os triângulos vermelhos anotados no mapa da Amazônia demarcam os territórios por onde a ecóloga humana Regina Oliveira já desenvolveu trabalhos científicos na região que adotou como morada há mais de 30 anos. Natural de Niterói, no estado do Rio de Janeiro, a bióloga de formação iniciou sua jornada pela floresta amazônica ainda no período da graduação.

De lá para cá, a floresta nunca mais saiu de Regina. "Quando eu fiz a faculdade de ciências biológicas, claro, a Amazônia era o foco. Muitos biólogos da minha geração conseguiram realizar o sonho de vir para a Amazônia, então isso para mim foi um privilégio", lembra, sem deixar de complementar. "Um privilégio que demorou. Não foi algo tão simples".

A chegada à Amazônia foi pela capital vizinha, Manaus. Bolsista de um projeto de Dinâmicas Biológicas de Fragmentos Florestais fomentado pela ONG WWF em parceria com o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), Regina fazia os levantamentos das espécies de insetos que ocorriam nos fragmentos florestais antes e depois da formação do pasto, com o objetivo de identificar a melhor forma de conservação da floresta.

EXPEDIÇÃO

Ao lado de pesquisadores vindos de outros estados brasileiros, dos Estados Unidos da América e de diferentes países da Europa, Regina tomou o trabalho como um impulso para fazer uma pós-graduação em ecologia. Durante o mestrado, aos 30 anos, integrou uma expedição que saiu, em canoas construídas pelos indígenas, da fronteira do Brasil com a Colômbia e o Peru para navegar por 9 meses pelos rios da Amazônia com destino a Cuba.

"Já nesse período as comunidades tradicionais começaram a me chamar a atenção porque já estávamos discutindo, na academia, a questão da conservação", lembra. "Logo depois do mestrado fui trabalhar na ONG Vitória Amazônica e no Plano de Manejo do Parque Nacional do Jaú, que era o maior parque de floresta tropical do mundo, com 2,2 milhões de hectares".

Na ONG, a pesquisadora passou a ter contato direto com as comunidades tradicionais na região e, assim, a questão da abordagem de gênero e a relação das populações com os recursos naturais chegou ao seu dia a dia de trabalho. Nesse período, a região acompanhava os embates ambientais surgirem no Estado do Acre, assim como o assassinato de Chico Mendes. Mudanças vão ocorrendo na própria conjuntura política brasileira e a ciência, naturalmente, também é afetada por essas transformações.

A existência das populações tradicionais dentro das florestas passa a ser reconhecida. "Essa linha de pesquisa também passou a entrar como meu foco de estudo e hoje a minha linha efetiva de estudo está voltada para a ecologia humana, onde abarco a questão de gênero, de território, territorialidade", aponta Regina.

72% dos artigos científicos publicados no Brasil incluem pelo menos uma autora brasileira.

55% dos estudantes universitários da Ibero-América* são mulheres.

*A Ibero-América é composta pela Argentina, Bolívia, Brasil, Colômbia, Costa Rica, Cuba, Chile, República Dominicana, Equador, El Salvador, Espanha, Guatemala, Guiné Equatorial, Honduras, México, Nicarágua, Panamá, Paraguai, Peru, Portugal, Uruguai e Venezuela.

Fonte: Organização de Estados Ibero-americanos para a Educação, a Ciência e a Cultura

Dia

No ano de 1977 a Organização das Nações Unidas (ONU) adotou o 8 de março como o Dia Internacional da Mulher.

Papel fundamental

Já com essa perspectiva, a pesquisadora passa a integrar a equipe do Goeldi, mudando-se para Belém em 1996, e no seu 1o trabalho na instituição contribuiu com a criação do Parque Estadual Monte Alegre. Regina já teve a oportunidade de coordenar, pelo museu, a criação de nove reservas extrativistas no salgado paraense, o que acabou lhe levando a outros trabalhos em regiões de manguezais.

"Vamos a campo, fazemos um estudo diagnóstico socioambiental participativo, fazemos oficinas, discutimos com os moradores a melhor forma de proteção daquela área, o que eles usam, como eles usam, o que conhecem daquela área e por que há essa demanda para a criação de uma reserva extrativista", explica.

Ela se orgulha de constatar que a maior parte do grupo de bolsistas que orienta é formada por pesquisadoras, a exemplo da graduanda de agronomia Elyzandra Mendes e da de biologia Thaís Carvalho, bolsistas da iniciação científica.

"As mulheres têm um papel fundamental para o desenvolvimento da ciência, principalmente na Amazônia. Nós, sim, sabemos fazer ciência. Sim, as mulheres têm que estar nos institutos de pesquisa. Sim, elas têm que estar delegando, no sentido amplo da ciência", considera. "Hoje temos uma diretora no Museu Emílio Goeldi [a bióloga Ana Luisa Kerti Mangabeira] e é importantíssimo assumir esses postos que antes não eram tão acessíveis às mulheres".

Trabalho no Instituto Evandro Chagas

É feminina também a direção de outro importante instituto de pesquisa sediado no Estado do Pará, o Instituto Evandro Chagas (IEC), órgão vinculado à Secretaria de Vigilância em Saúde (SVS) do Ministério da Saúde (MS). Além da diretora, a farmacêutica-bioquímica Giselle Maria Rachid Viana, e da vice-diretora, a também farmacêutica-bioquímica Lívia Carício Martins, o instituto tem 59% do corpo profissional formado por mulheres.

Elas também são maioria à frente das chefias das seções científicas, além de estarem em maior número também entre as que estão entrando no IEC, já que nos dois programas de pós-graduação mantidos pelo instituto, o percentual de mulheres que se submetem ao processo seletivo e são aprovadas fica em torno de 65% a 70% do total.

Essa foi justamente a porta de entrada para a atual diretora Giselle Maria Rachid Viana no Instituto Evandro Chagas. Ainda durante a graduação, a pesquisadora paraense entrou no IEC como estagiária em um dos primeiros processos de estágio pelo programa institucional de bolsas de iniciação científica, na década de 90.

"A minha linha de pesquisa é relacionada principalmente no contexto da malária, no diagnóstico laboratorial, tanto para ofertar ferramentas diagnósticas de maior precisão, quanto no estudo de monitoramento da vigilância molecular da resistência do parasito aos medicamentos", explica.

TRAJETÓRIA

Toda essa trajetória de pesquisas e atuação adotadas por Giselle culminou na sua participação na chefia da seção científica de parasitologia, que é a mais antiga da instituição e também a que detém o maior quantitativo de profissionais envolvidos. De lá, a pesquisadora recebeu o convite do Ministério da Saúde para assumir a direção do instituto, enquanto servidora de carreira. "Fazer ciência sempre foi um ideal para mim", considera Giselle. "Quando eu ainda estava na graduação, a vontade já era fazer parte dessa casa, que é um celeiro do conhecimento científico".

Embora sediada no Pará, o IEC atende a todo o território brasileiro e também internacionalmente, sobretudo o continente americano. Através de pesquisas operacionais, expedições de campo e referências laboratoriais, o instituto atua com o objetivo principal de produzir conhecimento científico e ações de inovação que deem suporte à saúde pública, sobretudo na tomada de decisões para as políticas públicas.

Entre outras referências, o Instituto Evandro Chagas responde nacionalmente pela vigilância das arboviroses, sendo responsável por fazer o diagnóstico laboratorial oportuno dessas doenças causadas pelos chamados arbovírus, como são classificados os vírus transmitidos por artrópodes (insetos como aranhas, carrapatos, mosquitos), a exemplo dos vírus da dengue, zika, chikungunya, febre amarela, velhos conhecidos dos paraenses.

À frente da seção de arbovirologia e febres hemorrágicas do IEC está também uma pesquisadora, a vice-diretora do instituto, Lívia Caricio Martins. Assim como Giselle e outras pesquisadoras do IEC, Lívia iniciou na instituição ainda durante a formação acadêmica, em 1997. "O instituto sempre foi referência nacional, portanto, sempre foi um desejo atuar aqui. Eu me apresentei para tentar um estágio e acabei de apaixonando pela arbovirologia, comecei a desenvolver algumas pesquisas e segui no mestrado e doutorado", lembra, ao destacar que o prédio da seção que chefia presta uma homenagem a uma das pesquisadoras brasileiras pioneiras no estudo dos arbovírus na Amazônia, Amélia Paes de Andrade Travassos da Rosa.

"A dra. Amélia formou uma geração de profissionais e alavancou os estudos dos arbovírus dentro do IEC em uma época em que não era fácil para as mulheres terem esse papel de liderança em um setor que, na época, era formado em sua maioria por homens. Por isso acredito que as pesquisadoras que seguiram depois dela sempre trazem um pouco desse legado que ela deixou".

Mais de 25 anos de atuação na Amazônia

O legado deixado por mulheres que vêm ocupando espaço na produção científica brasileira também é observado pela bióloga e professora titular do Núcleo de Altos Estudos Amazônicos (NAEA) da Universidade Federal do Pará (UFPA), Claudia Azevedo-Ramos. Com mais de 25 anos de atuação na Amazônia, ela trabalha com o manejo e a ecologia de ecossistemas com foco principal no manejo florestal, políticas públicas, gestão florestal, mudanças no uso da terra e seus impactos.

"Tenho trabalhado junto com a minha equipe com o efeito do desmatamento, da mineração e com as concessões florestais. Temos trabalhado para contribuir com alternativas que possamos associar tanto o uso econômico da floresta, quanto a sua conservação". Em meio a essa atuação, Claudia foi treinando e capacitando vários alunos de mestrado, doutorado e iniciação científica. E o que a pesquisadora pode observar foi o crescimento da participação feminina na produção científica.

"Nas seleções da pós-graduação, por exemplo, as mulheres têm comparecido de uma forma muito preponderante e estão ficando muito bem colocadas", considera. "Um dado bem objetivo é que dos meus alunos de pós-graduação, 85% são mulheres".

Para Claudia, também na maioria das graduações é possível observar as mulheres se sobressaindo, chegando na pós-graduação com uma formação qualificada e com conhecimento de várias línguas. "É claro que tem algumas áreas da ciência que são tradicionalmente mais masculinas, mas as mulheres estão cada vez mais ganhando o seu espaço", avalia.

INTERESSE

No caso de Claudia, o interesse pela ciência advém de muito cedo. Natural do Rio de Janeiro, ela conta que sempre teve uma relação profunda com a natureza. "Passei no vestibular para biologia e nunca me afastei dessa área de ciência e de pesquisa".

A professora também passou um período atuando na área administrativa, onde contribuiu com a montagem do Serviço Florestal Brasileiro, então ligado ao Ministério do Meio Ambiente, mas hoje vinculado ao da Agricultura.

"Hoje se observa que há um equilíbrio de gênero entre os pesquisadores que estão no CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico), um indicativo claro de que as mulheres têm ocupado o seu espaço nas áreas científicas", aponta, sem deixar de demonstrar preocupação com a possibilidade de as reduções no valor dedicado à educação, ocorridas a partir de 2019, possam colocar em risco essa ascensão feminina na produção científica.

"Quando você reduz bolsas para estudo por conta da redução do orçamento, as mulheres são as primeiras a sentir porque elas acumulam todos os encargos extras do cuidado com a família. Então, é preciso atentar para o fato de que temos que manter essas conquistas".

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