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Confronto a vista

CB, Brasil, p.15
02 de Jul de 2004

QUESTÃO INDÍENA
Confronto à vista
Disputa de terras, garimpos, exploração de madeira. Funai, Polícia Federal e Exército mantêm vigilância em 32 áreas onde há risco de conflito envolvendo índios no Brasil. O maior foco de tensão fica em Roraima
Ullisses Campbell
Da equipe do Correio
A Polícia Federal está monitorando 32 pontos de conflitos iminentes entre índios e brancos de sete estados. As áreas mais tensas estão na Amazônia, onde povos indígenas de seis etnias disputam posse de terras, garimpos e até da madeira que está na floresta.
  A origem dos confrontos está ligada diretamente a um fator: na década de 70, a população indígena brasileira era de 60 mil, e eles detinham 20% das terras brasileiras. Hoje, com cerca de 400 mil pessoas, os índios estão em 12% do território nacional.
  A redução das reservas indígenas somada às mudanças culturais e à cobiça do branco e dos próprios índios por ouro, terra e madeira fizeram dessas áreas uma zona de perigo, avalia o indigenista Robert Lauri, da Fundação Nacional do Índio (Funasa).
  O ponto de maior tensão no país são as terras da reserva Raposa Serra do Sol, em Roraima, área indígena onde vivem 15 mil índios de cinco etnias diferentes — macuxi, taurepang, ingaricó, patamona e wapixana.
Discórdia
Em Roraima, o conflito ocorre entre índios, fazendeiros e políticos da região. Além de disputarem o domínio das terras, eles ainda divergem sobre o modo como deve ser feita a homologação da área. Um grupo defende a demarcação em faixa contínua. Outro grupo exige a divisão em ilhas, o que desvirtuaria o patrimônio fundiário e biológico da região, pondo em risco a cultura e as tradições indígenas.
  O presidente da Funai, Mércio Pereira Gomes, reconhece que as terras da Raposa Serra do Sol são alvo da mais tensa disputa do gênero no país. E destaca que a Polícia Federal, o Exército e a própria Funai montaram um sistema rigoroso de monitoramento de conflitos naquela região. A situação pode piorar principalmente depois da homologação das terras. Isso porque até mesmo os povos indígenas discordam entre si quanto ao método que deve ser usado na legalização da área.
Censo
Para saber ao certo quantos índios o Brasil tem, a Funai assinou um convênio com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) para realizar um censo indígena no país ainda neste ano. A previsão é que o resultado do levantamento seja divulgado em 18 meses.
  De acordo com os cadastros dos programas de saúde do governo, como as campanhas de vacinação, existem cerca de 400 mil índio, de 220 etnias, em 25 estados. Segundo Mércio Pereira, a população indígena deu um salto em duas décadas porque doenças como a varíola, que chegou a dizimar 30% dos índios brasileiros em um mês, foram erradicadas.
  As campanhas de vacinação, intensificadas nas décadas de 80 e 90, criaram um cordão sanitário em voltas das aldeias e, assim, contribuíram para aumentar a população indígena brasileira. Além disso, trabalhos voltados para a área da Saúde fizeram diminuir a mortalidade infantil nas reservas.
  Outro fator que impulsiona o crescimento da população é o contato com brancos. Antes, os índios davam espaço de dois anos entre uma gestação e outra. Hoje, esse intervalo não passa de três meses. Há índias que têm até 12 filhos, observa Mércio.
RAIO X
Existem 220 povos indígenas no Brasil, espalhados em 600 áreas e totalizando uma população de cerca de 400 mil índios. Os únicos estados em que não há aldeias são Piauí e Rio Grande do Norte

Em rota de colisão
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CB, 02/07/2004, p. 15

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