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Conflito em Humaitá: Indígenas da Transamazônica relatam aumento do preconceito

Amazônia Real - http://www.amazoniareal.com.br
Autor: Elaíze Farias
17 de dez de 2014

Estudante do curso de administração na Universidade do Estado do Amazonas (UEA) no município de Humaitá (a 591 quilômetros de Manaus em linha reta), Nilcélio Rodrigues, 35, indígena da etnia Jiahui (pronuncia-se "diarrui"), sempre torce para que os trabalhos da faculdade sejam apenas individuais. Quando é em grupo, ele tem que enfrentar a resistência dos colegas. Para ser aceito, conta com apoio dos professores.

"Quando é trabalho individual, sem problemas. Em grupo, os outros alunos não querem se reunir com a gente. Os professores têm que convencê-los a nos aceitar", relata. Além do indígena Jiahui, há outros quatro alunos indígenas, todos da etnia Tenharim, que estudam na UEA de Humaitá. Alunos do ensino médio e fundamental escaparam de sofrer algum tipo de hostilidade porque há escolas nas próprias aldeias das reservas indígenas de Humaitá.

A dificuldade de Nilcélio Rodrigues em ser "aceito" pelos colegas na faculdade indica o aumento do preconceito e do racismo contra os indígenas que vivem nas aldeias localizadas em Humaitá, no sul do Amazonas, desde o recrudescimento da tensão e do clima de hostilidade no município após os conflitos envolvendo os índios Tenharim e a população não-indígena.

Há pouco mais de um ano, três homens desapareceram na Transamazônica. Seus corpos foram encontrados 49 dias depois, enterrados na aldeia Taboca, na Terra Indígena Tenharim-Marmelos. A investigação da Polícia Federal concluiu que cinco Tenharim mataram Stef Pinheiro, Luciano Freire e Aldeney Salvador. Os indígenas Tenharim negam a autoria das mortes.

Segundo Nilcélio Rodrigues, o preconceito não distingue as etnias. "Basta acharem que a gente é índio que já começa. Temos sofrido preconceito em banco, lojas, nas ruas, onde a gente passa, enfim. Quando passamos nas ruas, tem sempre alguém que diz 'ah, lá vem aquele índio'. Mandam recado, dizem que não podemos mais andar na cidade", relata.

Os Jiahui são facilmente identificados com os Tenharim por causa da proximidade da sua reserva com o território Tenharim-Marmelos. Eles também cobravam pedágio na Transamazônica, mas suspenderam logo após o acirramento dos conflitos, em dezembro de 2013 e janeiro de 2014. Os Tenharim também deixaram de cobrar o pedágio, medida que adotaram por considerarem uma forma de ressarcimento por terem seu território cortado para a construção da Transamazônica na década de 70.

A reserva Jiahui tem apenas 140 pessoas vivendo em três aldeias. Os Jiahui foi um dos povos indígenas mais afetados com os impactos da Transamazônica. Nilcélio diz que "mais de mil pessoas" de sua etnia morreram na década de 70. "Hoje, as nossas três aldeias têm 140 pessoas, mas muitos jiahui são casados com munduruku, mura e parintintin. Jiahui mesmo são apenas 67 pessoas", diz.

Sem o dinheiro do pedágio, os Jiahui mantêm sua sustentabilidade com a venda de produção de castanha, açaí e óleo de copaíba, atividade que desenvolvem há vários anos. Nilcélio diz que até mesmo a comercialização tem sido prejudicada nos últimos meses.

Estamos vendendo mais em Porto Velho. Em Humaitá, bem pouco. Aqui, muitos compradores ficam com suspeita de comprar nossos produtos e de fechar negócio", diz Nilcélio Rodrigues.

O povo Jiahui produz duas safras de açaí e copaíba por ano e uma safra de castanha. Assim, chega uma renda anual de até R$ 10 mil.

Territórios dos municípios têm nove etnias indígenas

Os territórios indígenas de Humaitá e da cidade vizinha de Manicoré, além de uma parte de outro município, Canutama, são formados por nove etnias. As populações indígenas ocupam 60 aldeias, segundo o presidente da Organização dos Povos Indígenas do Alto Madeira (Opiam), Joabe Mura. São os seguintes povos: Mura, Tenharim, Parintintin, Jiahui, Pirahã, Apurinã, Juma, Munduruku e Torá.

Joabe Mura, 36, contou à Amazônia Real que o conflito envolvendo os Tenharim e a população de Humaitá afetou todos os povos indígenas da região.

"Todos nós fomos atingidos. A sociedade tem preconceito com todos. Se eu ando na rua, algumas pessoas fazem gracinha, fazem piada. Falam dos Tenharim, mas findam afetando a gente também. Dizem que índio é vagabundo, que tem ser preso e morrer. Isso acontece em todo o lugar, em lojas, hospitais, escolas", disse Joabe, que afirma não revidar as provocações.

Junto com os Tenharim, são os indígenas que moram na zona urbana de Humaitá os mais afetados, segundo Joabe Mura. O clima hostil causou, inclusive, a desarticulação de um movimento indígena urbano que vinha crescendo.

"Havia um movimento que vinha se fortalecendo, mas que acabou parando por causa desses problemas. Muitos que moravam aqui em Humaitá foram embora e os que ficaram perderam o emprego ou estão com dificuldade de encontrar um", diz.

Verão Pirahã, 30, um dos poucos da etnia Pirahã que fala fluentemente português, reitera a declaração dos outros indígenas desta reportagem. Ele conta que tem sido difícil "driblar" a reação da população não indígena da cidade quando está próximo de indígenas.

"Esse conflito com os Tenharim gerou outros conflitos. Prejudicou outras comunidades. Ficou difícil vir a Humaitá. Não temos mais segurança, nem liberdade. Ficamos temerosos", diz Verão Pirahã.

Os índios Pirahã têm uma história de contato de 200 anos, mas sua relação com o povo não indígena é rara. Sua atual população de 210 pessoas (número concedido por Verão) dificilmente sai de sua aldeia. Apenas para tratamento de saúde.

"Somos um povo pacífico, não queremos discussão com ninguém", diz Pirahã, que mora na aldeia Piquiá, onde é professor. A reportagem da Amazônia Real falou com Verão em uma das vezes em que ele foi à cidade de Humaitá.

Indígena Tenharim foi expulso de hotel

No dia 14 de novembro, Angélisson Tenharim, 23, estava em Humaitá para prestar exame de vestibular da Universidade do Estado do Amazonas (UEA) no dia seguinte. Ele se hospedou em um hotel da cidade, o mesmo que desde agosto firmou contrato com a Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), para abrigar pacientes indígenas, desde que a Casai (Casa de Saúde Indígena) foi incendiada durante os protestos de dezembro de 2013 (leia mais).

Por volta de cinco da manhã foi acordado pelo proprietário do hotel com ordens para sair do local naquele instante. O proprietário estava com receio de que manifestações organizadas dias antes em protesto contra a liberdade dos cinco indígenas presos, causassem danos ao seu hotel.

"Ele bateu na porta do quarto e disse: 'Está sabendo da manifestação? Não quero índio no hotel. Estou pedindo pra você se retirar'. Peguei minhas coisas e fui para outro hotel. Liguei para o coordenador da Funai em Humaitá e pedi providências. Mas soube que o dono não mudou de opinião", disse Angélisson.

Angélisson Tenharim conta que denunciou o dono do hotel no Ministério Público Federal (MPF), mas preferiu não registrar boletim de ocorrência na delegacia. Angélisson afirma que das vezes que tentou denunciar atos de preconceito ou racismo na polícia, apenas perdeu tempo.

Já aconteceu outras vezes. Tentei registrar B.O., mas todas as vezes que cheguei na delegacia, me disseram que o computador estava sem sistema. Agora não vou mais. Não adianta", conta Angélisson Tenharim.

O tratamento recebido pelo jovem indígena Tenharim tem sido constante contra o povo, embora muitas vezes velado. A reportagem não conseguiu falar com outros Tenharim, mas soube que os indígenas desta etnia são os que mais vêm sofrendo discriminação na cidade.

Entenda o conflito

Há um ano o professor da rede municipal Stef Pinheiro, 43, o vendedor comercial Luciano Freire, 30, e o funcionário da empresa Eletrobras Amazonas Energia, Aldeney Salvador, 40, desapareceram enquanto viajavam pela BR-230 (Transamazônica), no trecho que corta a Terra Indígena Tenharim-Marmelos, município de Humaitá, sul do Estado do Amazonas. O episódio provocou um dos mais acirrados e permanentes conflitos entre índios e não-índios da história recente da Amazônia Ocidental.

Inquérito da Polícia Federal apontou que os desaparecidos foram mortos no dia 16 de dezembro de 2013 por indígenas da etnia Tenharim. Depois de 49 dias de buscas que envolveram mais de 700 homens de tropas federais, estaduais e municipais, os corpos foram encontrados enterrados numa cova rasa com marcas de disparos de tiros dentro da aldeia Taboca, que fica na reserva.

Cinco indígenas estão presos preventivamente há 11 meses por acusação de sequestro, homicídio qualificado e ocultação de cadáveres. Gilvan e Gilson Tenharim, filhos do cacique da aldeia Kampinhu-ú Ivan Tenharim; o cacique da aldeia Taboca, Domiceno Tenharim; o professor municipal Valdinar Tenharim e o agente de saúde federal Simeão Tenharim, ambos da aldeia Marmelos, cumprem a prisão na Delegacia da cidade de Lábrea (AM) depois de passarem sete meses em cadeias públicas de Porto Velho (RO). Um sexto indígena, Aurélio Tenharim, foi indiciado como co-participante dos crimes, mas continua em liberdade. Os indígenas negam envolvimento nas mortes.

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