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Conferência 'empurra com a barriga' soluções para o clima

O Globo, Sociedade, p. 43
14 de Dez de 2014

Conferência 'empurra com a barriga' soluções para o clima
Em vez de propor medidas, COP 20 adia entrega de metas para junho

RENATO GRANDELLE
renato. grandelle@ oglobo.com. br

Negociadores de mais de 190 países, reunidos desde o início do mês em Lima, renderam-se ao cansaço e devem encerrar a Conferência do Clima (COP 20) em Lima deixando os temas mais polêmicos para uma nova avaliação, que seria realizada apenas em junho de 2015. Este será o prazo para que os países definam suas metas de emissão de poluentes, mas devem fazê-lo "respeitando sua soberania nacional". Para ambientalistas, a expressão dá margem para que os governos não se esforcem como seria necessário para combater as mudanças climáticas.
O texto final, de quatro páginas, foi defenestrado por representantes de alguns países em desenvolvimento, que alegaram não terem sido consultados durante sua redação. Mesmo com o protesto, havia a possibilidade de que as conversas fossem encerradas na noite de ontem - a previsão inicial era de que as discussões terminassem na última sexta-feira.
O objetivo da conferência era obter um compromisso contundente para um acordo global contra as mudanças climáticas, que seria assinado por chefes de Estado na Conferência do Clima de Paris (COP 21), em novembro de 2015. Em vez disso, as autoridades terão de esperar até o fim de julho para saber o que cada país está disposto a fazer

Falta de consenso irrita países mais pobres

Europa aprova rascunho, EUA veem ressalvas e África repudia inércia
Nos corredores do encontro, o clima era de decepção até o início da noite de ontem. Anfitrião do evento, o ministro do Meio Ambiente peruano, Manuel Pulgar Vidal, afirmou que poderia romper o impasse entre países desenvolvidos e em desenvolvimento. Missão fracassada. Os Estados insulares e a África repudiaram o texto logo após sua divulgação. A União Europeia aprovou o rascunho, assim como os EUA - embora ressaltando que vários pontos precisavam ainda ser amarrados.
- Não temos tempo para longas e novas negociações. Não estou dizendo que não existem modificações possíveis, mas a areia da ampulheta está acabando - comentou um negociador.
SEM MEDIDAS PARA 2020
Os países mais pobres, principalmente os Estados insulares, cobram medidas específicas. Por exemplo, o documento apenas "reitera o apelo" para que nações desenvolvidas se comprometam a financiar políticas de mitigação e adaptação das nações pobres. O Fundo Climático Verde, criado para conduzir estas ações, deveria receber US$ 100 bilhões por ano até 2020. Em 2014, ganhou apenas US$ 10 bilhões.
- O rascunho mostra elementos básicos para as contribuições nacionais, mas deixa muito trabalho a ser feito no ano que vem. Será um período decisivo para definirmos o futuro da segurança climática - ressalta André Nahur, coordenador de Mudanças Climáticas e Energia do WWFBrasil. - O financiamento proposto até agora é irrisório.
Outra crítica é que o rascunho ignora que medidas devem ser realizadas a partir de 2020, quando um novo acordo global entraria em vigor.
No início da noite de ontem, o Brasil tentava ainda ressucitar a proposta que levou ao encontro, que prevê que os países emergentes assumam metas em alguns setores da economia, enquanto os desenvolvidos se comprometeriam a cortar em todas as áreas.
Os países desenvolvidos reiteraram que mais de metade das emissões de gases-estufa vêm de nações em desenvolvimento e, por isso, deveria assumir metas mais ambiciosas.

O Globo, 14/12/2014, Sociedade, p. 43

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