O Globo, Ciência e Vida, p. 24
08 de Set de 2006
Concentração de C02 é a maior em 800 mil anos
Estudos recentes realizados nos pólos revelam inéditos e alarmantes dados sobre o aquecimento global. Uma das pesquisas, na Antártica, confirma que a concentração de dióxido de carbono na atmosfera é a maior dos últimos 800 mil anos. Uma outra análise, no Ártico, mostra que o derretimento avança em ritmo acelerado, já ameaçando espécies de animais marinhos acostumados à água salgada.
Cientistas do Projeto Europeu da Antártica, que reúne especialistas de dez países, estudaram amostras de gelo muito antigas para estabelecer as concentrações de C02 na atmosfera no passado. Isso é possível através da análise de bolhas de ar aprisionadas a mais de três quilômetros de profundidade.
A comparação desse ar muito antigo ao contemporâneo revelou uma concentração sem precedentes de C02.
- Não há nada no gelo que nos dê razão para nos sentirmos confortáveis - afirmou Eric Wolff, do British Antarctic Survey (BAS). - Não há nada sugerindo que a Terra conseguirá lidar com esse aumento de dióxido de carbono. As amostras de gelo sugerem que o aumento do C02 vai, definitivamente, nos legar uma mudança climática muito perigosa.
A análise do ar antigo preservado nas camadas de gelo mostrou não apenas as concentrações de C02 e metano - os principais gases do aquecimento global -, mas também as temperaturas da época, fornecendo uma visão bastante acurada das condições ambientais do passado.
- As amostras de gelo revelam o ritmo climático natural da Terra nos últimos 800 mil anos. Quando as concentrações de C02 mudam sempre, há uma mudança climática.
Nos últimos 200 anos, a atividade humana fez aumentar os níveis de C02 para além do limite natural - explicou Wolff, em entrevista à BBC.
O "apavorante", ele acrescentou, é a velocidade do aumento da concentração registrada atualmente. No passado, o aumento mais rápido de C02 registrado foi da ordem de 30 partes por milhão, ao longo de um período de aproximadamente mil anos.
- O último aumento de 30 partes por milhão ocorreu em apenas 17 anos - afirmou o cientista. - Estamos realmente vivendo uma situação sem qualquer precedente.
O objetivo agora é obter amostras ainda mais antigas de gelo, de até 1,5 milhão de anos atrás.
Um Ártico cada vez mais doce
Um outro estudo, realizado no Ártico, revelou que como resultado do aquecimento global, as águas do Oceano Ártico estão cada vez menos salgadas - uma tendência que vem aumentando gradativamente ao longo dos últimos 500 anos.
O aumento das chuvas na região e o derretimento cada vez mais acelerado do gelo no mar seriam os responsáveis pelo problema.
Cientistas do Laboratório de Biologia Marinha de Woods Hole, em Massachusetts, calcularam que, entre 1965 e 1995, foram lançados no Oceano Ártico 20 mil quilômetros cúbicos a mais de água doce, proveniente de chuvas e rios. O derretimento de gelo marítimo contribuiu com outros 15 mil quilômetros cúbicos e o de geleiras, com dois mil quilômetros cúbicos.
Os números são compatíveis com a queda de salinidade registrada no oceano durante o mesmo período.
- Nossos resultados revelam uma redistribuição da água doce, o que, provavelmente, está relacionado ao aquecimento global - afirmou Bruce Peterson, que participou do estudo.
A mudança, alerta, ameaça as espécies de peixe acostumadas a águas mais salgadas.
Caos climático: 'bomba de efeito retardado'
Gases aprisionados no gelo ampliam calor
O aquecimento global do planeta está criando uma verdadeira "bomba de efeito retardado", alerta um estudo publicado na "Nature". A medida que a Terra se torna mais quente, gases de efeito estufa, que estavam aprisionados em camadas de solo congelado perene (permafrost), começam a emergir em velocidade muito mais rápida do que a estimada.
O metano aprisionado num tipo especial de permafrost está aflorando cinco vezes mais rápido do que o estimado originalmente, aponta o estudo.
Os cientistas se mostraram alarmados ao constatarem a existência de um ciclo extremamente perigoso do aquecimento, que não havia sido levado em conta nos prognósticos iniciais: o aquecimento já está derretendo camadas de gelo eterno que haviam permanecido congeladas durante milhares de anos.
Ao derreter, o permafrost libera metano e anidrido carbônico. Ao chegarem à atmosfera, esses gases contribuem para reter o calor da Terra, aumentando o efeito estufa e acelerando o derretimento de áreas de gelo eterno.
- Quanto mais a temperatura aumenta, mais permafrost se derrete, aumentando a tendência de construção de um ciclo vicioso - advertiu Chris Field, diretor de ecologia global do Instituto Carnegie, em Washington. - Isso é o mais inquietante desse assunto.
Existem muitos mecanismos que tendem a se perpetuar e relativamente poucos que tendem a ser interrompidos.
O fenômeno relatado na "Nature" é mais observado na Sibéria, embora também ocorra em outras regiões, num tipo específico de permafrost rico em carbono, congelado há 40 mil anos.
- Os efeitos podem ser profundos - disse Katey Walter, da Universidade do Alasca. - Está saindo muito (gás) e há muito mais para sair.
Um outro estudo recentemente publicado na "Science" determinou que a quantidade de carbono aprisionado nesse tipo de permafrost - chamado de yedoma - é muito maior do que se pensou originalmente e poderia guardar até cem vezes a quantidade lançada na atmosfera em um ano pela queima de combustíveis fósseis.
- É como uma bomba de efeito retardado - comparou Ted Schuur, da Universidade da Flórida.
O Globo, 08/09/2006, Ciência, p. 24
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