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Comunidades Quilombolas já registram 34 mortes e 176 contaminações por coronavírus

CBN - https://m.cbn.globoradio.globo.com/media/audio/302505/comunidades-quilombolas-ja-registram-34-
Autor: CBN
23 de mai de 2020

O levantamento é feito pela CONAQ, a Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas. De acordo com especialistas, os povos tradicionais são ainda mais vulneráveis ao vírus, por possuírem um alto índice de doenças crônicas, como anemia e hipertensão arterial.

O novo coronavírus chegou às comunidades quilombolas brasileiras. Já são 34 mortes, pela COVID-19, segundo dados da CONAQ, a Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas. Outras 2 mortes são investigadas e mais de 176 pessoas já testaram positivo para a doença. Os estados mais afetados, segundo a organização, são o Amapá, Pará e Pernambuco.

Magno Cardoso mora em uma comunidade da cidade de Moju, no Pará. Ele conta que conhecia 6 das 9 pessoas que morreram no estado por COVID-19. Magno diz que foi preciso criar uma barreira sanitária no local para proteger os quilombolas.

- As pessoas vão se revezando para tomar conta desse espaço, orientando quem precisa entrar para ver se realmente necessita, se ele não pode fazer isso em outro momento, se tá usando máscara, se tá usando álcool gel, para precisar lavar as mãos... orientar. Só que é um trabalho que é feito somente pelas comunidades, não tem apoio da prefeitura, não tem apoio de governo do estado.

Dados divulgados recentemente pelo IBGE apontam que o Brasil possuía, em 2019, quase 6 mil localidades quilombolas. Os estados com maior número de povoados são Bahia, Minas Gerais e o Maranhão, locais que também convivem com o medo da chegada do vírus.

Em Minas, um levantamento feito pela reportagem da CBN constatou que, dos 420 municípios que possuem comunidades quilombolas, 174 já registram casos confirmados do novo coronavírus.

A comunidade Ribeirão dos Paraopebas fica entre as cidades de Brumadinho e Moeda, na região metropolitana de Belo Horizonte. Uma das lideranças, Marilene Delnina diz que, apesar de não ter casos confirmados internamente, os moradores se assustam porque já há registros da COVID nas cidades que cercam os quilombolas.

- A gente vê uma coisa que, assim, é muito próximo da comunidade, a gente já começa a ter medo, mas a gente coloca muito na proteção de Deus, para estar ajudando, e as pessoas tentando se afastar mais e procurar fazer aquilo que é necessário. Pessoal tá sempre fazendo a sua higiene, sempre lavando as mãos, usando álcool gel, se está saindo de casa eles estão usando a máscara...

De acordo com especialistas, povos tradicionais, como é o caso dos quilombolas, possuem uma histórica vulnerabilidade imunológica. Há também, nessa fatia da população, um alto índice de doenças crônicas, como a anemia e hipertensão arterial, o que a classifica como grupo de risco da COVID-19.

Além dos indicadores relacionados à pandemia, o racismo é uma barreira que agrava, ainda mais, a situação. A coordenadora da CONAQ no Pará, Valéria Carneiro, conta que o pai dela foi um dos casos que testaram positivo para a doença. Ele já está curado. Mesmo assim, Valéria conta que ele sofre com os preconceitos e que muitas pessoas se referem aos quilombolas como pessoas "contaminadas".

- Além de todos os danos que essa doença causa, a gente ainda tem que lidar com os preconceitos das pessoas, né? Então meu pai ele tá sofrendo muito assim, porque tipo ele ficou trancado sem poder sair, e cada hora que ele sai na rua aí parece que ele é o alvo, entendeu? Então as pessoas, até quando meu os irmãos vão lá, as pessoas ficam falando coisas assim: "olha, não vai para aí, porque esse pessoal aí está contaminado", sabe, coisas desse tipo.

Ao contrário dos povos indígenas, os quilombolas não possuem uma área específica para discussão de políticas de prevenção no Ministério da Saúde. Eles dependem exclusivamente da relação com as prefeituras e secretarias municipais. Segundo uma das coordenadoras da CONAQ e doutoranda em sociologia, Givânia Silva, isso dificulta o processo e expõe um racismo estrutural na pasta.

- Não tem nem na esfera do Governo Federal e nem também nos Estados. Então, todo processo de informação, elaboração de material, elaboração de campanha, todas essas informações tem sido produzida por nós , na CONAQ. Isso demonstra que a carga de racismo institucionalizado sobre os quilombos é muito maior, porque não tem espaço nenhum.

Uma grande dificuldade das comunidades é que grande parte delas não possui sequer acesso a internet e energia e precisam ir até às cidades para fazer a solicitação do auxílio emergencial, por exemplo. Além disso, os moradores também vão às áreas urbanas comprar itens de higiene, como água sanitária e álcool em gel, se expondo ao risco de contaminação.

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