VOLTAR

Comunidades do entorno das indústrias têm altos níveis de metais pesados

Valor Econômico, Empresas, p. B3
10 de Abr de 2018

Comunidades do entorno das indústrias têm altos níveis de metais pesados

Por Daniela Chiaretti

Moradores de 14 comunidades da região de Barcarena, no Pará, têm vestígios de chumbo nos cabelos muito acima dos limites máximos considerados aceitáveis por estudiosos do tema. O mesmo acontece com as concentrações de alumínio, ferro, manganês, níquel, estrôncio e zinco, o que indica contaminação por metais pesados de pessoas que vivem próximas ao distrito industrial de Barcarena.
Os dados fazem parte de um estudo conduzido pela química Simone de Fátima Pinheiro Pereira, coordenadora do Laboratório de Química Analítica e Ambiental (Laquanam) da Universidade Federal do Pará (UFPA). O trabalho foi feito a pedido do Ministério Público Federal (MPF).
"Os resultados são preocupantes", adianta o procurador da República Bruno Valente, responsável no MPF pela área ambiental do Pará por seis anos, até 2016.
Os pesquisadores compararam os resultados com análises de cabelos de moradores de Altamira, também no Pará, mas que não vivem próximos a indústrias. Usou-se também como referência um estudo que analisou fios de cabelo de 1775 moradores da área urbana do Rio de Janeiro, feito por pesquisadores do Departamento de Química da PUC do Rio.
Moradores de Barcarena têm vestígios de chumbo, que é cancerígeno, em níveis quase três vezes superiores aos de Altamira ou do Rio. No caso do alumínio, que é tóxico, as concentrações são 30 vezes acima. "Na geoquímica da Amazônia não tem chumbo", diz Fátima Pereira. "O cabelo é uma matriz que indica contaminação passada. A presença de chumbo mostra que ele estava no corpo da pessoa, mas não é possível dizer quanto chumbo ficou dentro do organismo", continua a cientista, que estuda poluentes na região há 20 anos.
Há alguns anos, o grupo de pesquisas da UFPA concluiu outro estudo, que analisava a presença de metais pesados nas águas consumidas pelas comunidades do entorno do distrito industrial. Foram feitas análises em águas de poço, encanada, dos rios. "Das 26 comunidades que avaliamos, 24 têm níveis altos de chumbo", diz Simone. "O chumbo está lá, no lençol freático, nos poços, no rio. Está circulando. E isso é muito grave, porque chumbo dá câncer", diz ela.
Simone Pereira diz não poder atestar a procedência dos elementos contaminantes. Ela conta que tentou algumas vezes examinar os efluentes dentro das instalações da Alunorte, mas não conseguiu. "Encontramos resistência. O nosso sentimento é que isso tem que ser transparente. Não somos lixeira do mundo, somos Amazônia. Estes rios são importantíssimos para milhares de pessoas", continua.
"Não temos nada contra as indústrias. Mas somos contra práticas erradas das empresas e dos órgãos que não cobram delas o que deveriam", registra. "Sou uma cientista. Gostaria imensamente que o chumbo não tivesse aparecido, mas aparece em todos os meus estudos. De onde vem, eu não sei. Como não me deixam analisar dentro da fábrica, também não posso garantir que não é de lá", segue.
O polo industrial de Barcarena tem 90 empresas distribuídas em 3.000 hectares. É em Barcarena que se faz a industrialização, o beneficiamento e que se exporta caulim, alumina, alumínio e cabos de transmissão de energia elétrica. Em Barcarena está o importante Porto de Vila do Conde, principal porto público do Pará.
O distrito industrial de Barcarena, criado na década de 80, não tem licenciamento ambiental integrado. Isso está previsto nos anexos da resolução Conama 237/1997. Em outubro de 2016 o governo estadual assinou um acordo com o MP federal e estadual comprometendo-se com isso. O processo está em andamento.
Em resposta a questionamento do Valor, a assessoria de imprensa da Hydro disse "estar ciente" do estudo coordenado por Simone Pereira. Não esclareceu porque não se permitiu que a pesquisadora tornasse públicas as análises que eventualmente coletaria na Alunorte. A assessoria acrescentou que a empresa está "revendo completamente as metodologias utilizadas e as conclusões alcançadas."
A assessoria de imprensa da Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Sustentabilidade informou que o monitoramento das águas da região de Barcarena é feita pela Secretaria Estadual de Saúde (Sespa). A Sespa, por seu turno, também não concedeu entrevista.

Valor Econômico, 10/04/2018, Empresas, p. B3

http://www.valor.com.br/empresas/5441165/comunidades-do-entorno-das-ind…

As notícias aqui publicadas são pesquisadas diariamente em diferentes fontes e transcritas tal qual apresentadas em seu canal de origem. O Instituto Socioambiental não se responsabiliza pelas opiniões ou erros publicados nestes textos. Caso você encontre alguma inconsistência nas notícias, por favor, entre em contato diretamente com a fonte.