O Globo, Revista O Globo, p. 91-93
01 de Ago de 2004
As compras do bem
O consumo ético conquista os ingleses, que boicotam produtos politicamente incorretos
A jornalista mineira Helem Lara: "Nossa única defesa é não comprar ou comprar com consciência"
Por Fernando Duarte, de Londres
O caminho entre o metrô e o escritório de uma produtora de TV no leste de Londres é uma via-crúcis diária para a especialista em marketing Claire Wigington: além de várias máquinas de refrigerante, há nada menos que quatro imensas filiais de lojas de fast-food. Claire respira fundo e passa ao largo, não por uma questão de dieta, mas de princípios. A jovem profissional britânica, de 24 anos, recusa-se a beber Coca-Cola, há cinco anos não devora um sanduíche do McDonald's e, ao contrário de um sem-número de outras mulheres de sua faixa etária, passa longe das vitrines da popularíssima loja de roupas GAP. São empresas acusadas de serem politicamente incorretas, símbolos do imperialismo americano.
Se há alguns anos atitudes de protesto contra grandes corporações eram encaradas com sobrancelhas levantadas por grande parte da sociedade, o chamado consumo ético atualmente conquista muitos adeptos na Europa. Na Grã-Bretanha, o mercado politicamente correto movimentou o equivalente a R$120 bilhões em 2002. E uma pesquisa do Instituto Mori, um conceituado medidor de opinião pública do país, revelou que pelo menos 52% dos britânicos boicotaram alguma marca ou grande corporação naquele ano. Isto custou cerca de R$18 bilhões para gigantes como a Nike e a L'Oreal.
- Não dou dinheiro para empresas que exploram mão-de-obra barata no Terceiro Mundo ou desmatam florestas. Em vez de ir a supermercados, compro em mercearias que não têm poder para competir com megastores - diz Claire.
Consumo ético, porém, é um conceito que transcende torcidas de nariz diante de vitrines. Mesmo o ato de abrir uma conta bancária é guiado por uma espiada nas práticas sociais da instituição financeira. A mudança de atitude envolve também a preocupação com o meio ambiente e o ato de pegar um ônibus em vez de usar o carro e, conseqüentemente, contribuir para a poluição e o aquecimento global. Tomar um cafezinho também já não é tarefa simples: o consumidor precisa saber se a lanchonete abraça os conceitos do comércio justo (fair trade, em inglês) e não usa fornecedores que abusam de fazendeiros de países do Terceiro Mundo.
Os tubarões do setor alimentício, por exemplo, já perceberam que precisam fazer concessões se não quiserem perder fregueses. Além de os supermercados terem alargado sensivelmente o espaço de suas prateleiras dedicado aos produtos orgânicos (alimentos livres de agrotóxicos ou pesticidas), grandes redes do setor, como a Tesco, gradativamente comercializam produtos com o selo "Fair Trade", como rosas produzidas no Quênia.
Até o turismo tem seu braço ético: agências de viagem politicamente corretas estimulam os turistas a trocar cadeias de hotéis por pensões e hospedarias, além de incentivar o consumo de produtos fornecidos pelos pequenos comerciantes. A tendência também é seguida por gente da comunidade brasileira na Grã-Bretanha, ao ponto de a "Jungle Drums", uma das principais revistas verde-e-amarelas nos domínios da rainha Elizabeth II, ter um seção dedicada ao assunto, editada pela jornalista mineira Helem Lara, que passou os últimos oito de seus 33 anos sem tomar refrigerantes.
- Nossa única defesa é não comprar ou comprar com consciência - diz Helem, que tem na ponta da língua o conteúdo de um dossiê sobre supostas práticas pouco nobres da Coca-Cola com os trabalhadores de suas fábricas na Colômbia.
Já o empresário brasileiro Gabriel Gaya exige dos clientes de sua firma de importações um comprometimento com a causa do comércio justo. Além de só aceitar pequenas e médias empresas em seu portfólio, ele exige um termo de compromisso que garante salários e condições de trabalho decentes para funcionários. Gaya se preocupa ainda em oferecer preços justos:
- Muitas empresas européias importam cachaça para engarrafar aqui, o que encarece demais o produto final. Faço questão de trazer a bebida já engarrafada do Brasil, e não apenas como matéria-prima.
Entre as empresas britânicas, merece destaque a Gossypium, que, além de só fabricar roupas com algodão orgânico, compra diretamente de produtores indianos por preços superiores aos do mercado internacional. A causa já atraiu celebridades como o cantor e pianista Jamie Cullum, de 22 anos, cujas interpretações de clássicos do jazz e da música romântica lhe valeram o apelido de "Frank Sinatra de tênis".
O mercado ético conta até com publicações específicas, que dão dicas sobre lojas e companhias coniventes com a exploração de trabalhadores em países pobres. A mais famosa é a "Ethical Consumer", lançada em 1989. Foi por meio da revista que muitos britânicos souberam da decisão da cadeia de lojas de departamentos Harvey Nichols de abandonar as vendas de casacos de pele.
A batalha, porém, está longe de ser vencida. A fatia de mercado dos produtos éticos ainda é uma migalha comparada à de mercadorias tradicionais. Alimentos orgânicos, por exemplo, custam caro justamente por conta dos benefícios - e o preço ainda é o fator mais importante para grande parte dos consumidores.
O Globo, 01/08/2004, Revista O Globo, p. 91-93
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