O Globo, Opinião, p. 7
Autor: HERZOG, Cecilia Polacow
16 de Set de 2010
Como se não houvesse amanhã
Cecilia Polacow Herzog
O Rio perde uma oportunidade, talvez única, de reverter o quadro de degradação ambiental e cultural, e dar novo rumo ao desenvolvimento.
O caminho escolhido para a preparação da cidade para receber os grandes eventos nos próximos seis anos perpetua o partido do crescimento a qualquer custo, do paradigma que orientou o século XX: a sociedade do consumo, dos veículos poluentes, do cinza, do concreto, das paisagens falsas, copiadas e idealizadas.
A cidade tem um patrimônio ecológico inigualável para uma megalópole.
E vai destruir quase tudo o que resta, em nome do crescimento econômico baseado no mercado imobiliário predador da biodiversidade, das águas e das paisagens - que são o nosso grande patrimônio urbano. As áreas alagáveis das baixadas, os últimos fragmentos de manguezais, as encostas florestadas e os quintais estão sendo erradicados para sempre. Junto vão os serviços ecológicos prestados por esses sistemas naturais. Seremos uma cidade de concreto sob as águas: das inundações causadas pelas chuvas (cada vez mais intensas) e do mar (o nível está se elevando). Os impactos das mudanças climáticas estão apenas no começo. A situação da cidade é preocupante, visto que está assentada sobre um território frágil, suscetível a deslizamentos e enchentes, que tendem a piorar com a eliminação das áreas de acomodação das águas das chuvas, e a intensificação da impermeabilização do solo.
Quando os recursos financeiros jorram, os estragos podem ser incalculáveis. Falta visão holística, de conjunto, e de um planejamento sistêmico que seja rebatido no território, na paisagem, baseado em suas especificidades. Considerar a cultura local, e sua diversidade, é essencial para que não nos tornemos uma cidade "global" homogênea, "genérica" como tantas outras, sem identidade. Cidade composta de edifícios sem alma, sem contato com a realidade ambiental, social e cultural do lugar. Assistimos à eliminação iminente do que resta do patrimônio paisagístico e cultural, reconhecido mundialmente, e que certamente contribuiu para que fosse a cidade escolhida dessa década para tantos eventos internacionais.
O Rio de Janeiro poderia ser um modelo do novo paradigma da sociedade do bem-estar, com a virada para uma economia verde, baseada no desenvolvimento de novas tecnologias realmente ecológicas, e sustentáveis.
Atrairia empresas da nova economia, com estímulo a pesquisas de transporte sustentável e geração de energia limpa adequados a nossa realidade.
Inúmeras cidades no mundo já partiram por esse caminho e colhem frutos, com economias que crescem oferecendo qualidade de vida a seus moradores, atraindo visitantes para ver como é viver bem, com crianças felizes em contato com a natureza.
As decisões que definirão o futuro da cidade estão sendo tomadas a portas fechadas. Transparência e participação, como rege o Estatuto das Cidades, não fazem parte do processo. Conhecimento não falta. Além do corpo técnico municipal, a academia e as ONGs estão presentes e poderiam dar contribuições de grande valia. O Plano Diretor para a cidade do Rio de Janeiro, que será votado nos próximos dias, reflete essa situação. Plano esse que já tem até apelido: Frank, de Frankenstein - ou seja, um conjunto de remendos que irão legitimar as ações predatórias que impactarão no futuro imediato, e distante da cidade. O mesmo ocorre nas escalas estadual e nacional: drenam nossos recursos naturais não renováveis como se não houvesse amanhã.
Cecilia Polacow Herzog é paisagista e presidente da Inverde (www.inverde.org)
O Globo, 16/09/2010, Opinião, p. 7
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