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Como julgar uma identidade social? Um caso na T. I. Raposa Serra do Sol

Folha de Boa Vista
Autor: Wanderley Gurgel de Almeida
28 de Abr de 2008

O objeto da matéria publicada no dia 16 de abril neste jornal - Índia é impedida de levar filhos "brancos" para Raposa Serra do Sol - é provocante, e nos convida a uma análise séria sobre identidade social. No entanto, pô-los sob um olhar relacional, pode favorecer ao entendimento, por exemplo, do porquê de conflitos ainda serem recorrentes nas mais diversas sociedades, entre outras, indígenas no Brasil.

Consideremos a existência de sociedades globalizadas, caracterizadas pela cultura de massa. Isto pode impor um modelo cultural e estético que privilegia apenas aqueles que estão dentro dos padrões sociais preestabelecidos por ela para serem aceitos e terem uma vida uniforme, deixando de lado a diversidade cultural, e conseqüentemente a étnica. As minorias étnicas como a indígena e seus descendentes, podem ir à mesma direção sem que tenham a consciência tomada, realizando práticas cometidas pelas sociedades complexas, pondo seus pares à margem, por exemplo, das criações tecnológicas e de acesso a serviços, por diferenciarem-se em traços físicos, hábitos e costumes que os caracterizam como indivíduo.

Propomos um debate que leve a compreensão de que uma identidade deve ser considerada como um fenômeno que emerge da dialética entre indivíduo e sociedade (Berger & Luckmann [1971], apud CARDOSO DE OLIVEIRA, 1985:43), onde é mantida e remodelada pelas relações sociais, formadas a partir do contraste com outra identidade. Essa identidade individual é forjada, assim, coletivamente sem, contudo, anular a capacidade e manifestação de traços específicos. Com esta premissa, podemos compreender que, se os filhos desta senhora não têm a mesma simetria cultural àqueles da sociedade local, não é por culpa deles e sim da própria sociedade.

Considerando a idéia de indivíduo associada à de identidade, esta última pode ser entendida como o conjunto de características próprias e exclusivas a alguém. É ela que estabelece a condição social de cada indivíduo, influenciando suas atitudes dentro do grupo de que faz parte, identificando-se ou não, sendo que esta identificação estabelecerá sua relação de existência no grupo.

Por desconhecer os indivíduos em questão, uma das conclusões possíveis a que podemos chegar é a permissão para que a essa senhora seja permitida a companhia dos filhos, considerando que, por sua idade [76 anos] terá dificuldades orgânicas para integração à economia local, papel que pode ser assumido por seus filhos. Assim sendo, a sociedade na qual conviverão poderá sentir se há ou não uma sintonia cultural dos dois com a coletividade, visto que identidade social baseia-se no compartilhamento de valores, crenças, idéias e práticas das quais têm os indivíduos, afinidades.

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