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Como desmatamento pode explicar casos de Covid-19 entre indígenas

UOL/Ecoa -
25 de mai de 2020

Como desmatamento pode explicar casos de Covid-19 entre indígenas

Terras indígenas com as maiores áreas desmatadas no país também estão entre as mais vulneráveis ao avanço do novo coronavírus. De acordo com especialistas, invasores podem ter levado o vírus da cidade em direção às terras Yanomami e Raposa da Serra do Sol, em Roraima. Em abril, a Covid-19 matou um jovem yanomami de apenas 15 anos.
Oficialmente, eram 34 mortes entre indígenas até sexta-feira (22). O medo de quem acompanha os povos de perto é de que a união entre a doença e o desmatamento recorde em Terras Indígenas cause mais mortes e ameace até mesmo a existência de culturas milenares e isoladas.
Terras Indígenas vivem tensão
As Terras Indígenas (TIs) Yanomami e Raposa Serra do Sol estão na lista do Instituto Socioambiental (ISA) das mais vulneráveis ao avanço do vírus causado pela falta de infraestrutura, idade da população e de leitos hospitalares.
Ao mesmo tempo, as duas estão entre as três mais desmatadas em abril. Houve 2 km quadrados de desmatamento entre os Yanomami no mês passado. Na Raposa da Serra do Sol, 1 quilômetro quadrado de terra foi devastada em um mês; onde há 2 mil garimpeiros em atividade de acordo com a Polícia Federal (PF); contra 22 mil indígenas.
Um levantamento da Agência Pública mostra que mais de 2 mil propriedades privadas foram declaradas ao governo onde estão terras indígenas, em sete estados da Amazônia. Em 500 delas, vivem indígenas isolados.
Desmatamento cresce
Em um mês, o Brasil perdeu o equivalente à cidade de Porto Alegre em vegetação na região amazônica. O recorde é considerado histórico e foram registrados e divulgados pelo instituto Imazon. As Terras Indígenas somam somente 3% do total das áreas devastadas no mês. Mas diferentemente das propriedades particulares, que representam 66% da área desmatada, as TIs são demarcadas e fiscalizadas pela Funai, Ibama, Polícia Federal e polícias estaduais.
Invasores causam medo
A TI Munduruku, no Pará, por exemplo, registrou o maior índice de desmatamento em terras indígenas no país, de acordo com Imazon, equivalente a 4 km² somente em abril. A região recebeu a segunda fase da Operação Verde Brasil no dia 11 de maio, encabeçada pelo Exército. Em resposta, garimpeiros protestaram com tratores, motos e faixas pelas ruas do município de Jacareacanga (PA), onde está instalada a TI Munduruku. Um representante de uma instituição em uma área demarcada no Norte, diz que há medo de ser morto ao publicar fotos e dar entrevistas com o próprio nome devido à presença dos desmatadores. "Existe muito medo. Principalmente nas áreas onde existe garimpo... Porque ele, por si só, é algo que traz a concentração de muita gente", explica Rômulo Batista, porta-voz da Campanha de Amazônia do Greenpeace Brasil, mas que atua fora das Terras Indígenas. Segundo ele, um estudo aponta que 10 mil hectares de garimpo foram abertos nas terras Mundurukus, Caiapós e Ianomâmis em três anos. "Não há um efeito de diminuição do desmatamento com o coronavírus, muito pelo contrário! O madeireiro ilegal, o grileiro, o garimpeiro não faz home office", diz.
Risco de apagar memória cultural À margem da lei, não há fiscalização. É impossível saber se os invasores estão contaminados, se usam equipamentos de proteção, muito menos se seguem as orientações de higienização. O pesquisador Antonio Oviedo, coordenador do programa de Monitoramento do ISA, acredita que o desmatamento abre caminho para a doença rumar a indígenas idosos e povos isolados pelo país. "Os idosos são os tesouros vivos da cultura dos povos indígenas. Imagina entrar em uma aldeia e esse vírus se espalhar. Como fica a continuidade da memória cultural de um povo que cultua seus idosos, se a doença matá-los", questiona Oviedo.
"Se a doença avançar em Terras Indígenas, eles poderão viver o que já viveram no passado, com uma grande faixa de população em óbito, um extermínio. Imagina uma doença que chega a grupos isolados, que são formados por 30, 10, seis e até duas pessoas, como os Piripikura. Se um passa o contágio para o outro, acabou a etnia", diz. Uma das saídas sugeridas pelo especialista é restrição do acesso às TIs até o fim pandemia. Os dados sobre as mortes de povos indígenas no Brasil são incertos. Oficialmente, a Sesai, órgão responsável pela saúde indígena, há 33 casos confirmados, 7 suspeitos e uma morte entre os Yanomami até sexta. Na região da Raposa-do-Sul, são 15 casos confirmados e uma morte. A listagem do governo leva em consideração apenas indígenas "aldeados", que vivem em aldeias dentro de terras demarcadas.
Caso a contaminação e morte aconteçam em uma ida a um centro urbano para tratamento, o caso pode não entrar nas estatísticas oficiais e gerar subnotificação. Já a Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab), contabiliza 71 mortes de indígenas por Covid-19 em todo o país. Meios para reduzir o desmatamento Para Carlos Sousa Jr., pesquisador do Imazon, uma das saídas é engrossar a fiscalização, mas usar imagens de satélite e cruzá-las com dados do cadastro de donos de terra para saber se as informações batem. O Cadastro Ambiental Rural (Car) é autodeclaratório. Então, é possível demonstrar mais, ou menos, o tamanho da terra. "É preciso identificar quais são os vetores para doença e quem está invadindo esses territórios indígenas", conclui.

https://www.uol.com.br/ecoa/ultimas-noticias/2020/05/25/como-desmatamen…

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