VOLTAR

Como como o camu-camu?

OESP, Paladar, p. 6
19 de Mai de 2011

Como como o camu-camu?
Mari-mari, camu-camu, biribá, uxi... Não parecem nomes para se dizer à mesa, como pêssego e maçã. Mas são. Trata-se de puro bugre, nomes de frutas selvagens das funduras amazônicas. Conheça essas nativas saborosas

Olívia Fraga / Belém do Pará

Ela vem toda de preto, óculos de grau, meia-calça cor da pele e sandália de dedo. Carmelita dos Passos Rocha, 62 anos, empertigou-se para conversar com a reportagem do Paladar, braço esquerdo apoiado nos caixotes de frutas de sua banca no Ver-o-Peso, em Belém, como quem quer demonstrar poder e ciência sobre aquele reino colorido e perfumado.
D. Carmelita é a única vendedora que vende frutas nativas no mercado o ano inteiro. Antigamente as pessoas iam ao Ver-o-Peso para conhecer maçã, pera, mamão. "Havia muitas Carmelitas. Hoje, o próprio belenense visita o mercado para conhecer as frutas do seu lugar", diz o professor José Edmar Urano de Carvalho, pesquisador da Embrapa-Amazônia Oriental.
Antes de ter a barraca na área externa do mercado de peixe, ela trabalhou em indústria de algodão e bateu castanha-do-pará numa fábrica pequena, perto do bairro dos Jurunas, onde mora até hoje. Pequenina e magrinha, machucou-se com o instrumental da profissão nas duas ocasiões. Foi com o dinheiro das duas indenizações que comprou a banca do Ver-o-Peso, 42 anos atrás, sonhando fazer dinheiro com a venda de bananas. "Todo mundo só queria comer banana e maçã. Ninguém pedia as frutas da terra porque não dava muito trabalho conseguir. Era ir para dentro do mato e 'caçar'", conta d. Carmelita. Para ela, na época o Ver-o-Peso tinha muito mais charme.
Por quase 20 anos, sustentou os cinco filhos comercializando bananas e maçãs. Até que um paraense perguntou se ela trazia cupuaçu e tucumã. No dia seguinte, lá estava ela com as frutas. A partir daí, a maçã desapareceu rapidinho da banca; a banana, não. Mas ela não vende só da nanica. Tem pelo menos outros quatro tipos. Fora bacaba, açaí, ingá-chinela, bacuri-pari, cajuru, taperebá. A mercadoria chega da Ilha das Onças, do Papagaio, Barcarena, do brejo do Guajará; e as polpas são feitas pela irmã.
E essa porção de frutos escuros, semelhantes a pedras, pouco atraentes, tem saída? "Sim, tem quem queira. É patauá, buriti seco, para enfeitar, curar dor de dente, dor de cabeça, ou pra extrair essência para ficar perfumosa."
* A REPÓRTER VIAJOU A CONVITE DO FESTIVAL VER-O-PESO DA COZINHA PARAENSE

'O belenense já não conhece suas frutas'
Em livro recém-lançado, o jornalista e fotógrafo Silvestre Silva documenta frutas da Amazônia, do cupuaçu ao ingá-chinela

Olívia Fraga / Belém do Pará

O jornalista e fotógrafo Silvestre Silva herdou o papel que coube aos missionários e aventureiros nos séculos passados. Sua aventura amazônica começou há 30 anos e, desde então, ele não consegue ficar longe da floresta. O interesse nos livros de botânica brasileira, caçados em sebos e livrarias, inspirou mais uma de suas obras: Frutas da Amazônia Brasileira. Recém-lançado pela Metalivros, traz excelente documentação histórica e fotográfica sobre uma centena de frutas registradas pelas lentes do autor. Em São Paulo, Silva conversou com o Paladar:

Qual foi sua grande descoberta na Amazônia?
Acho que foi o açaí, na década de 80. Escrevi sobre ele em meu primeiro livro, em 1991. Estar no mercado Ver-o-Peso para ver a chegada e a venda da fruta é muito emocionante, porque a gente se sente um forasteiro, um estrangeiro. A língua é outra, o valor de compra não é em quilo, é em vaso, em saca. E ainda fico feliz em saber que, apesar de o mundo ter descoberto o açaí, ele não sumiu por completo. Por enquanto.

Qual é o risco para as frutas da região?

O extrativismo está ameaçado pela indústria madeireira e o poder público não protege as árvores. Mas me preocupo também com a morte da cultura indígena. O cidadão de Belém já não sabe o que são suas frutas. Ninguém quer entrar na floresta para descobrir nada, a geração que nasce nas cidades olha para fora, não para dentro. Filho de mateiro quer ganhar dinheiro, não vai estudar a floresta. Receio que aconteça com o açaí, o buriti e o bacuri o que ocorreu com o caju no Nordeste, a mangaba, que dominava a periferia de Recife. Hoje nada disso existe mais.

Como começou a se interessar pelas frutas amazônicas?

Sempre gostei de ler. E o Brasil tem um descaso absurdo com livros. Mas um dia me peguei relendo Euclides da Cunha, Guimarães Rosa, Gilberto Freyre. Eles falam de plantas e frutas de que ninguém mais ouve falar. Minhas idas à Amazônia foram por curiosidade. Imagine minha surpresa ao descobrir um cemitério de sementes de tucumã em Manaus - a população sabe que dá para aproveitar a semente, mas não tem tecnologia e a descarta.

Depois do freezer, a Amazônia não é mais a mesma

Opinião: Pedro Martinelli*

A produção de frutas do mato na Amazônia nunca teve escala para consumo em comércio regular. As bancas do mercado são abastecidas pelos caboclos que vêm do interior com produtos para trocar, por isso já foi mais fácil ver frutas expostas com sacos de cimento em casas de materiais de construção. Mas agora as frutas sumiram. O pobre turista vai penar se quiser ver o fruto do taperebá do suco que está tomando.
Depois do freezer, a Amazônia não é mais a mesma. As frutas agora são a polpa congelada e empacotada. O cupuaçu, que é fruta grande e pesada, muitas vezes é quebrado dentro do mato, perto da árvore de onde caiu; e a polpa é retirada precariamente, colocada em latas impróprias e transportada debaixo do sol.
O nosso deslumbramento, o nosso olhar sobre a Amazônia encurta o horizonte, atrapalha e não deixa melhorar a qualidade de vida e dos produtos que hoje poderiam ter um tratamento mais de acordo com as normas de higiene. Toda vez que aterrissamos na Amazônia, o olho fica abobado e é incapaz de ver que o homem que está batendo açaí trabalha sobre o esgoto. E, não sei por que, não conseguimos ser críticos e continuamos falando das araras, das frutas e dos índios, como se lá ainda fosse o paraíso. Os eternos clichês exóticos que tanto adoramos. O viajante quando aterrissa não se dá conta de que o que sobrou das frutas "exóticas" foram as placas com os nomes dos sorvetes nas sorveterias e mais nada.
Um passeio para entender a Amazônia real que eu recomendo há mais de 30 anos é ir ao porto da Palha, a cinco minutos do Hilton Hotel, em Belém. O sujeito vai ver dezenas de "batedores" de açaí, que são minúsculos comércios estabelecidos em palafitas em cima do esgoto. Preste atenção nas travessas que saem da avenida e, como sugestão, lembre-se da palavra sustentabilidade, que você ouve diariamente.
Nossos chefs poderiam dar uma bela mão, mas só pensam em técnica e produto.
Gente, geografia e história, nas contas deles, não fazem parte da gastronomia. São desinformados e dificilmente tiram os pés de suas praças para conhecer a realidade brasileira. É mais confortável e produtivo rodar a baiana como uma Carmen Miranda e seu tabuleiro de frutas exóticas nos centros da moda gastronômica mundo afora que conhecer a fundo a roça brasileira.
* É FOTÓGRAFO E VIAJA À AMAZÔNIA HÁ 40 ANOS

Em São Paulo, cupuaçu 'amazônico' é da Bahia

Olívia Fraga

Encontrar fruta amazônica em São Paulo é raro. Vez ou outra as mais resistentes, como cupuaçu, chegam à Ceagesp e ao Mercado Municipal. Mas a entrega é esporádica e depende do interesse das cooperativas em enviar para cá algo que pode ser vendido mais caro fora do País.
Por muitos anos, Valdemar Makoto Aoki, o seu Makoto, vendedor da Ceagesp, era o único elo entre o cozinheiro do Sudeste e as frutas da Amazônia. Mas ele mesmo admite que algumas não vêm do Norte. O cupuaçu, por exemplo, é trazido da Bahia, hoje o maior estado produtor da fruta.
Restaurantes de comida brasileira como Maní, Brasil a Gosto e Dois têm comprado polpa de algumas frutas, além de pupunha e tucumã in natura, da cozinheira belenense Antonia Padvaiskas. Ela vive em São Paulo e desde outubro recebe polpas e frutas amazônicas da Cofrutas, cooperativa agrícola em Abaetetuba, no Pará.
À exceção do açaí, cuja polpa já é industrializada, as demais (bacuri, taperebá, murici) são processadas por pequenos produtores e cooperativas e trazidas à capital. A oferta é bissexta. Hoje a Taperebá Sorvetes tem apenas açaí, taperebá e cupuaçu. A Bacuri Sucos não recebeu polpa de bacuri no verão e está há quase um ano sem vender suco da fruta.
Fato é que o Sudeste só conhece do fruto amazônico a polpa. Salvo raras exceções, os cozinheiros não gostam da polpa das cooperativas. "Testamos e desistimos, porque a melhor não tinha regularidade e as comuns geralmente não têm qualidade", diz Mara Salles, chef do Tordesilhas.
"A logística para trazê-las é problemática, pelo preço do frete e o estado em que chegam", diz Felipe Ribenboim, chef do Dois, lembrando que a macadâmia plantada em Manaus, altamente perecível, chega bem aqui. Por que não a fruta amazônica?.

OESP, 19-25/05/2011, Paladar, p. 6

http://www.estadao.com.br/noticias/suplementos+paladar,como-como-o-camu…
http://www.estadao.com.br/noticias/suplementos+paladar,o-belenense-ja-n…
http://www.estadao.com.br/noticias/suplementos+paladar,depois-do-freeze…
http://www.estadao.com.br/noticias/suplementos,em-sao-paulo-cupuacu-ama…

As notícias aqui publicadas são pesquisadas diariamente em diferentes fontes e transcritas tal qual apresentadas em seu canal de origem. O Instituto Socioambiental não se responsabiliza pelas opiniões ou erros publicados nestes textos. Caso você encontre alguma inconsistência nas notícias, por favor, entre em contato diretamente com a fonte.