CB, Cidades, p.29
20 de Nov de 2004
Rejeitados pelos donos ao crescer, bichos são abandonados em parques e lagos e provocam desequilíbrio na natureza. Eles não podem ser vendidos como animais domésticos e contrabando é punido com cadeia
Comércio ilegal de tartarugas
Renato Alves
Do Correio
Dentro de um aquário, expostas em um pet shop ou feira livre, as tartaruguinhas atraem a meninada. Os pais geralmente cedem aos apelos dos filhos e acabam comprando o animal com o kit completo, que inclui o recinto, pedrinhas e ração. Mas a espécie não pode ser vendida no Brasil como animal doméstico. Mesmo as nacionais, oriundas do sul do país e conhecidas como tartaruga tigre dágua, precisam ter nota fiscal e certificado de origem.
O modismo entre as crianças, a falta de informação dos pais e a irresponsabilidade de traficantes de animais e comerciantes ainda causam danos ao meio ambiente, ao Jardim Zoológico de Brasília e ao Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama). As tartarugas, nacionais e importadas, hoje são uma espécie de praga. Tudo porque, depois que crescem, são rejeitadas pelos donos.
Muita gente prefere simplesmente largar o bicho no Lago Paranoá ou em parques públicos. O Zoológico de Brasília está lotado.
São mais de quinhentas, pelos cálculos de biólogos e tratadores.
O certo é entregá-las ao Ibama.
Mas, por desconhecimento ou medo, pouca gente faz isso. O melhor é não ter esses animais. Mas, se os tem, a pessoa pode entregá-los no Ibama que não sofrerá punição, explica a veterinária Lícia Lavor, do setor de Fauna do órgão.
Se for flagrado com uma tartaruga comprada ilegalmente, o criador ou comprador pode pegar até três anos de cadeia. O cerco aos contrabandistas aumentou este ano. No primeiro trimestre, o Ibama apreendeu e recebeu 29 tartaruguinhas. No segundo, 36. Já no terceiro, 89. No último trimestre visitamos todos os pet shops de Brasília, conta Lícia Lavor.
As entregas voluntárias são raras. Nesta semana, um pai arrependido levou ao Ibama/DF sete tartaruguinhas brasileiras, compradas de um vendedor não autorizado e sem nota fiscal. O destino delas, como o da maioria dos exemplares apreendidos e doados, foi o único criatório autorizado do país, que fica em Curitiba (PR).
Competição
A soltura, sem controle, de tartarugas na natureza ou em parques pode causar danos irreversíveis ao meio ambiente. Além de levar doença aos homens, elas disputam espaço e comida com as outras espécies do lugar, explica o biólogo Alexandre David Zeitune, do Ibama/DF. Os bichos criados no Zoológico sofrem com as tartaruguinhas deixadas irregularmente pelos visitantes. Como elas são mais resistentes, acabam matando as outras, explica a bióloga e veterinária Vanessa Oliveira, chefe do serviço de répteis e anfíbios do zôo. As tartarugas de orelhas vermelhas são naturais do estado do Mississipi, nos Estados Unidos. Quando filhotes medem menos de 5cm. O tamanho e a cor atraem as crianças. Muitos pais, no entanto, resolvem se desfazer do animal quando ele vira adulto e chega a 40cm. Em uma loja registrada, o filhote custa até R$ 100. Em feiras como a dos Importados, no SIA, compra-se por R$ 20, em média.
Não só as tartaruguinhas sofrem rejeição. Metade dos 1.059 animais levados para o Ibama/DF de janeiro a setembro deste ano foi doada por pessoas que não quiseram mais criar o bicho. São répteis, mamíferos e aves de todos os tamanhos. É comum apreendermos e recebermos araras- canindés, que não podem ser criadas em cativeiro, conta o biólogo Alexandre Zeitune. As araras, segundo Zeitune, geralmente chegam machucadas. O problema é que as pessoas não sabem tratar o animal. Presa e sem comer direito, a ave fica com os músculos atrofiados e perde as garras, diz Zeitune. Esta semana apareceu uma arara- canindé no Núcleo Bandeirante e que vive gritando Seu Zé. Os biólogos do Ibama acreditam que Zé era o homem que a criava em cativeiro.
Bicho vive até 30 anos
Origem: a espécie brasileira, chamada tigre dágua, é do Rio Grande do Sul. Também é encontrada no Uruguai e nordeste da Argentina. Já a americana é originária do estado do Mississipi.
Habitat: pântanos, lagos, riachos e rios da sua região de origem
Hábitos alimentares: come pequenos peixes, camarões e outros. Em cativeiro, é recomendável ração específica para quelônios ou peixes
Reprodução: desova entre um e 18 ovos por postura,após 60 a 120 dias de incubação
Tempo de vida: até 30 anos
Tamanho: nasce com 3cm e chega a 26cm na fase adulta
Cuidados
Ao comprar um filhote de tigre dágua nacional exija do lojista ou criador nota fiscal e certificado de origem
As tartarugas de água doce requerem muitos cuidados, como alimentação balanceada, banho de sol controlado, limpeza e troca constante da água do recinto
As tartaruguinhas crescem, e muito. Na fase adulta, elas precisam de mais alimentos e muito mais espaço do que um aquário ou aqueles recintos vendidos em pet-shops e feiras
A tartaruga de água doce pode transmitir salmonelose, doença que causa dores no estômago, enjôos, vômitos e diarréia
Não solte tartarugas em lagos, rios, riachos, represas e parques. Elas podem causar um grande impacto ambiental ao serem introduzidas na natureza sem os devidos cuidados
Se não tiver mais interesse em criar uma tartaruga, entre em contato com o Ibama
Denuncie ao Ibama a criação ilegal de qualquer animal, pelo telefone 0800-618080. A ligação é gratuita e não é preciso se identificar
CB, 20/11/2004, p. 29
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