OESP, Metrópole, p. A14
16 de Jan de 2015
Combinação de seca e calor extremo agrava ainda mais crise do Cantareira
Dados oficiais mostram que nos primeiros 15 dias do ano o sistema recebeu 35% menos água do que a média de janeiro passado, enquanto as temperaturas máximas na capital batem recordes; Região Sudeste ainda sofre com bloqueio atmosférico.
Fabio Leite
Apontada pelo governo Geraldo Alckmin (PSDB) como a causa da crise hídrica paulista no início de 2014, a combinação de seca severa nos mananciais e calor extremo na capital está ainda mais crítica em 2015. Dados oficiais mostram que nos primeiros 15 dias do ano o Sistema Cantareira recebeu 35% menos água do que a média de janeiro passado, enquanto as temperaturas máximas na cidade estão batendo o recorde registrado no mesmo período do ano anterior.
Até ontem, segundo boletim divulgado pela Agência Nacional de Águas (ANA), o Cantareira recebeu, em média, apenas 9,2 mil litros por segundo, ante 14,3 mil litros registrados em janeiro de 2014, quando a crise de estiagem do manancial foi declarada pela Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp). A vazão representa apenas 14,7% da média histórica para o mês de janeiro, que é de 62,8 mil litros por segundo. Os dados são relatados desde 1930.
No mesmo período, a média das temperaturas máximas diárias registradas na cidade de São Paulo, onde mais de 5 milhões de pessoas ainda consomem água do Cantareira, foi de 32,5 oC, conforme a medição oficial feita pelo Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), na zona norte. Em janeiro de 2014, a média foi de 31,9 oC, recorde até então. A média histórica para o mês é de 27,7 oC, segundo registros feitos desde 1952 pelo órgão.
Bloqueio. Para a meteorologista Patrícia Madeira, da empresa Climatempo, a Região Sudeste sofre novamente com um bloqueio atmosférico que impede a chegada das frentes úmidas da Amazônia e frias do Sul, que contribuem para a formação de nuvens e chuvas na região nesta época do ano. Além de São Paulo, Rio, Minas e Espírito Santo vivem dias secos e quentes. A diferença, diz ela, é que a atual zona de alta pressão é mais fraca do que a de 2014, que castigou a população por cerca de 50 dias, até meados de fevereiro.
"No ano passado, nada passava (pelo bloqueio). Neste ano, a frente fria vai passar, mas vai passar muito fraquinha. A sensação das pessoas pode ser até de semelhança, mas as condições não são exatamente iguais. Até março, esse bloqueio vai voltar várias vezes, mas não com tanta força como no ano passado", afirma.
O resultado desse cenário, contudo, é desanimador diante da gravidade da crise hídrica paulista. "Janeiro já está fechado. Chuva menor do que o normal, concentrada nos dez últimos dias do mês. A previsão climática é de que fevereiro vai ter também chuva abaixo da média, com até seis dias seguidos sem chuva por causa desse bloqueio. A maior concentração de chuvas deve ser em março mesmo", completa Patrícia.
No início do ano passado, a Sabesp disse que foi a falta de chuvas no Cantareira, associada ao aumento do consumo de água pela população na capital por causa do calor recorde que resultou na crise. À época, contudo, a empresa ainda retirava cerca de 30 mil litros por segundo do Cantareira para atender 8,8 milhões de pessoas na Grande São Paulo. Hoje, a companhia tira do manancial metade do volume para atender cerca de 6,5 milhões de pessoas.
Tamanha redução só foi possível porque a população reduziu o consumo em 4,8 mil litros por segundo, mas, principalmente, por causa da redução da pressão da água na rede, que levou a uma economia de 8 mil litros por segundo, conforme a empresa. A medida, chamada de "restrição hídrica" ou "racionamento não sistêmico" pela Sabesp, tem provocado falta d'água em todas as regiões da capital e será intensificada pela companhia neste verão.
Segundo o diretor metropolitano da Sabesp, Paulo Massato, com o aumento do consumo por causa do calor, é possível que regiões mais altas da cidade sejam ainda mais afetadas pela medida agora. Mas a empresa promete evitar longos cortes no abastecimento.
Haddad quer multa para quem lavar calçada
O prefeito de São Paulo, Fernando Haddad (PT), disse ontem que vai encaminhar à Câmara Municipal em fevereiro, após o recesso parlamentar, um projeto de lei que estabelece multa para quem for flagrado desperdiçando água - lavando carro ou calçada com mangueira, por exemplo. Detalhes da proposta, contudo, como o valor da multa, não foram divulgados.
Segundo Haddad, o projeto foi criado com base em uma recomendação feita pelo governo Geraldo Alckmin (PSDB) a todos os prefeitos da Grande São Paulo para que elaborassem leis municipais para coibir o desperdício. "Isso é uma lei que o governador recomendou para os prefeitos. Nós estamos esperando a Câmara voltar (do recesso) para encaminhar a proposta do governo do Estado, que prevê multa em alguns casos", disse o petista, após a cerimônia de posse do novo secretário de Educação, Gabriel Chalita.
Por lei, apenas as administrações municipais podem multar esse tipo de conduta, com base na aprovação de uma legislação específica. A Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) pode apenas sobretaxar o consumo de água de seus clientes - como é o caso da multa que está em vigor desde o dia 8.
A medida, que prevê sobretaxa de até 100% na tarifa de água para quem gastar acima da média anterior à crise (fevereiro de 2013 a janeiro de 2014), chegou a ser suspensa por uma liminar da Justiça no dia 13, mas voltou a valer nesta quinta após decisão favorável do presidente do Tribunal de Justiça, José Renato Nalini.
Segundo a Sabesp, apesar da suspensão da medida por 24 horas, o cálculo de consumo para aplicação da tarifa adicional continua tendo como base o dia 8. A Associação Brasileira de Consumidores (Proteste), autora da ação, vai recorrer.
Alckmin diz que foi 'mal interpretado' sobre racionamento
Um dia depois de admitir pela primeira vez a existência de racionamento de água em São Paulo, o governador Geraldo Alckmin (PSDB) disse ontem ter sido "mal interpretado" e que a multa implementada pela Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) tem como objetivo evitar cortes de abastecimento na Grande São Paulo.
"O que é o racionamento? É você fechar o registro", disse Alckmin em coletiva no Palácio dos Bandeirantes, sede do governo, na zona sul da capital paulista. "A tarifa contingenciada que foi aprovada visa exatamente a evitar o racionamento."
Alckmin listou uma série de medidas adotadas pelo governo durante a crise, mas não citou a redução da pressão da água na rede, a mais eficiente para a Sabesp, mas que provoca cortes no abastecimento em todas as regiões. "Estamos procurando por meio de campanhas, de bônus, da utilização das reservas técnicas, da integração dos sistemas ultrapassar essa dificuldade da crise da seca", disse. "Estamos evitando o racionamento."
Anteontem, o tucano disse que o "racionamento já existe" em São Paulo porque a Agência Nacional de Águas (ANA), do governo federal, e o Departamento de Águas e Energia Elétrica (DAEE), do seu governo, determinaram que a Sabesp retirasse menos água do Cantareira. Para ele, essa restrição é o racionamento que a lei exige para sobretaxar o consumo de água.
OESP, 16/01/2015, Metrópole, p. A14
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