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Com usina em Sorocaba, País fechará elo da reciclagem de eletrônicos

OESP, Vida, p. A18-A19
28 de Out de 2012

Com usina em Sorocaba, País fechará elo da reciclagem de eletrônicos
Atualmente, o processamento dos metais é feito no exterior; Brasil produz anualmente quase 100 mil toneladas de lixo eletrônico

BRUNO DEIRO

No primeiro semestre de 2013, a cidade de Sorocaba, em São Paulo, deve receber a primeira usina do País a realizar o último elo da reciclagem de eletroeletrônicos - o processamento dos metais, que atualmente é feito no exterior.
Além de abrir caminho para a exploração da chamada mineração urbana, o projeto Sinctronics promete facilitar a reinserção na cadeia de consumo das quase 100 mil toneladas de lixo eletrônico anuais produzidos no País.
Atualmente, quase todo o metal presente nesses resíduos é descartado incorretamente com os aparelhos ou acaba exportado para países como Bélgica, Grã-Bretanha e Alemanha, que dispõem de tecnologia avançada para fazer o processamento.
"O Sinctronics será o primeiro ecossistema integrado de soluções sustentáveis para o mercado eletroeletrônico no Brasil, atendendo a uma cadeia produtiva de ponta a ponta", diz Kami Saidi, diretor de operações e líder do Programa Integrado de Sustentabilidade da HP, cliente e parceira do projeto. A parte tecnológica fica a cargo da Flextronics, gigante de Cingapura do ramo de eletrônicos que possui fábrica em Manaus.
Segundo Saidi, inicialmente será possível fazer a reciclagem de 250 toneladas por mês de plástico - que representa 45% dos aparelhos celulares, um dos eletrônicos mais abundantes (quase 250 milhões de unidades no País) e de vida útil mais reduzida (22 meses, em média).
A novidade, no entanto, será mesmo a extração dos metais, cujo potencial não é revelado. De olho no alto valor dos minérios, as empresas envolvidas esperam lucrar com o lixo eletrônico. Estima-se que para cada tonelada seja possível extrair entre 200g e 300g de ouro (veja infográfico). Outros metais menos nobres, como o cobre, o bronze, o alumínio e o ferro, retornariam à cadeia produtiva.
"Em Sorocaba será possível reciclar todos os tipos e quaisquer marcas de eletrônicos", diz Saidi. "O produto que será mais reciclado dependerá da demanda de devolução do mercado."
Além da Flextronics, a Cimelia, outra empresa com sede em Cingapura, cogita fazer a extração de metais em território brasileiro. Atualmente, ela exporta até 400 toneladas de lixo eletrônico por mês para serem processadas no país asiático.
Estímulo. Empresas e entidades ligadas ao setor de eletrônicos esperam que iniciativas como essa tragam incrementos a toda a cadeia de reciclagem de eletrônicos, cujo maior problema é a falta de um ciclo constante - segundo dados divulgados pelo Ministério do Meio Ambiente, cerca de 500 milhões de aparelhos sem uso no País estão guardados em residências.
A necessidade de exportar as partes metálicas para outros países apenas dificulta o processo. "Está faltando no País o fechamento do ciclo, pois ainda é muito caro para as empresas reciclarem", afirma Roberto Lucena, dono da Eco-Cel, especializada na coleta de celulares usados e encaminhamento para destinação adequada.
Com 400 urnas espalhadas em locais de grande circulação, como shoppings, farmácias e academias da cidade de São Paulo, a empresa de Lucena faz a coleta a cada 30 ou 35 dias e recolhe até 3 mil aparelhos por mês.
A Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe), que há um ano lançou na capital um projeto permanente com oito pontos de descarte de lixo eletrônico, afirma que é preciso multiplicar esses locais.
"Há poucos pontos de descarte, e eles não abrangem toda a cidade. Ninguém fica rodando a cidade com lixo no porta-malas em busca de um local", diz o diretor executivo da Abrelpe, Carlos Silva Filho. Segundo ele, a entidade planejar ampliar para 30 os pontos de descarte até o fim de 2013.

Acordo setorial de logística reversa será discutido
Apenas eletrônicos e lâmpadas não definiram atribuições dentro da cadeia de reciclagem; debate deve ser aberto em novembro

O acordo setorial de logística reversa para os eletroeletrônicos deve ser colocado à disposição para consulta pública na primeira quinzena de novembro. Entre os seis tipos de resíduos sólidos com obrigatoriedade legal de implementar esse tipo de ação, apenas os eletrônicos e as lâmpadas ainda não definiram atribuições dentro da cadeia de reciclagem.
Relator do grupo temático sobre eletroeletrônicos, que inclui governo, indústrias, municípios, ONGs e catadores, André Luís Saraiva afirma que faltam apenas alguns detalhes para que o setor estabeleça o modelo de responsabilidade compartilhada proposto pela Política Nacional de Resíduos Sólidos.
"Já estão definidos alguns pontos principais, como a obrigação do consumidor de fazer entrega no ponto de compra e dos distribuidores e varejistas de repassarem aos fabricantes e fornecedores", afirma Saraiva, que é diretor de responsabilidade socioambiental da Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee).
Ação integrada. De acordo com a advogada Ana Luci Grizzi, especialista em Direito Ambiental, o desafio é equilibrar todas as partes envolvidas na implementação da logística reversa no País. "Por conta própria, os fabricantes, de forma geral, tomaram a frente nesse processo e já fazem isso há alguns anos. No caso do celular, ainda há pouquíssimas empresas que fazem o gerenciamento da logística, por exemplo, para dar continuidade ao processo após o recolhimento nas urnas", afirma Grizzi. "Não dá para falar de reciclagem de eletrônicos como uma coisa só, é uma negociação que envolve fabricantes, importadores, distribuidores e varejistas."
Segundo ela, a questão ficou estagnada no País por muitos anos por conta da deficiência na legislação. "Havia algumas leis estaduais e municipais muito antigas, que tinham como base parcerias e eram pouco consistentes", afirma a advogada.
Ela lembra que um ano antes do surgimento da Política Nacional de Resíduos Sólidos, lançada em 2010, São Paulo chegou a esboçar uma regulamentação para o setor, em uma lei que nunca saiu no papel. "Eram poucos artigos, que não especificavam responsabilidades", explica.
De acordo com Grizzi, uma ameaça ao bom funcionamento da rede de logística reversa para eletrônicos é falta de órgãos de vigilância para que o lixo eletrônico produzido tenha a destinação correta dentro da cadeia de reciclagem. "Atualmente, não existe essa fiscalização efetiva do descarte. Os órgãos de meio ambiente que vão fiscalizar serão os mesmos que não conseguem dar conta nem mesmo da parte industrial de produção", afirma ela. / BRUNO DEIRO

Plano define logística reversa

Anunciada em 2010, a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS) é resultado de duas décadas de discussões e tem como principais metas o fechamento dos lixões até 2014 e o uso de aterros sanitários apenas para 10% dos resíduos gerados no País, orientadas por planos municipais.

Por meio de acordos setoriais, termos de compromisso e regulamentação específica, o plano estabelece a responsabilidade compartilhada de fabricantes, importadores, distribuidores e comerciantes. Seis cadeias de produtos têm a obrigação de implementar logística reversa, de forma independente do serviço público: agrotóxicos, pilhas e baterias, pneus, óleos lubrificantes, lâmpadas e eletroeletrônicos.

OESP, 28/10/2012, Vida, p. A18-A19

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