OESP, Espaço Aberto, p. A2
Autor: NOVAES, Washington
12 de Set de 2008
Com a cabeça e os pés no chão
Washington Novaes
Que efeitos terá a médio prazo a decisão do governo norte-americano de injetar US$ 200 bilhões para evitar a insolvência de duas empresas de crédito hipotecário e "um colapso do sistema financeiro" (Estado, 8/9), já que elas são "garantidoras de US$ 5,2 trilhões, metade do mercado hipotecário americano"? O investidores, registrou este jornal, "temiam que qualquer colapso em uma das duas poderia criar uma catástrofe financeira global". E no Brasil, que conseqüências se podem esperar? Estamos, como dizem os otimistas, fora da onda problemática, pertencemos aos famigerados BRICs, as economias de "países emergentes", que estariam incólumes às ameaças de recessão que batem à porta dos países industrializados? Ou ainda haverá novos sustos? Quem garante que os riscos estão apenas no mercado de hipotecas? Marcelo Carvalho, economista-chefe do Morgan Stanley, disse a este jornal (5/9) que "o nicho de abundância global está perto do fim" e que "a perspectiva é pior para commodities" (já em queda, como no nosso caso), principalmente quando vemos o saldo da nossa balança comercial encolhendo, o balanço em conta corrente negativo, "a valorização do real chegando ao fim", por causa do desaquecimento econômico na Europa, no Japão, nos EUA, na Ásia, que não demoraria para se manifestar aqui.
Mas o que tem que ver esse cenário com o quadro triunfalista que se vem apresentando para o País, principalmente depois da descoberta de mais petróleo? Continuamos a alardear previsões de crescimento do produto interno bruto (PIB) na faixa de 4,5% a 5%, no mínimo. E um novo horizonte de fartura a partir de hipotéticas receitas com as exportações do novo petróleo - sem sequer se cogitar de futuras restrições a combustíveis fósseis, em função de mudanças do clima. E sem lembrar frase famosa de Robert Kennedy, mencionada pelo jornal The New York Times: "O PIB mede tudo, exceto o que faz a vida valer a pena."
Não faltariam números para nos agoniar. A economia de 15 países da zona do euro caiu 0,2% no segundo trimestre (primeira queda desde a união monetária de 1999); na Alemanha baixou 0,5%; na França e na Itália, 0,3%; as exportações européias baixaram 0,4% e o consumo, 0,2%. O desemprego nos EUA é o maior em cinco anos (6,1% em agosto) e a inflação, a mais alta em 20 anos - e tudo no momento em que esse país precisa criar 100 mil postos de trabalho por mês só para os que chegam pela primeira vez ao mercado. As bolsas no mundo caíram US$ 800 bilhões em agosto, US$ 6,4 trilhões em um ano, segundo a Standard & Poor's. E nos mercados "emergentes" as perdas foram maiores (19,4% no trimestre) que nos países industrializados (11,55%). A análise de Gail Foster, do Conference Board, é contundente: a economia dos EUA está estagnada; a da Europa, entrando em recessão; a economia australiana está "desacelerando"; a do Japão, em queda. E nos EUA "o período de expectativa pode durar até mais cinco anos".
Talvez fosse hora de pormos os pés no chão - e, ao mesmo tempo, a cabeça. Enxergarmos, todos, realisticamente, que nos beneficiamos nos últimos anos de um período favorável no cenário internacional. Que vários anos de inflação baixa produziram um cenário muito mais favorável para os setores de baixa renda, capazes de programar, a partir daí, compras a crédito e aumento do consumo geral; que a ampliação do Bolsa-Família deu ainda mais vigor a esse quadro, juntamente com o crédito consignado. Mas não saímos ainda da posição de um dos países com pior distribuição de renda no planeta. Com gravíssimas carências nas áreas de saúde; com um sistema educacional gravemente precário, incapaz sequer de formar a mão-de-obra de que precisa a economia (75% de analfabetos funcionais!), com sistemas de segurança incapazes sequer de manter o controle territorial em parte das metrópoles.
Mais realistas, poderíamos então sonhar, conceber uma estratégia que valorize o que temos de mais importante, uma situação excepcional em recursos e serviços naturais estratégicos, cada vez mais escassos no mundo - em lugar de vender cada vez mais e mais barato, quando não subsidiamos os compradores. Rever os modos de pensar o desenvolvimento, sem atribuir valor único ao crescimento das contas econômicas. Que sentido pode fazer isso quando vemos que durante anos deixamos de cumprir a legislação que obriga a baixar os níveis internos de emissão de poluentes de veículos, enquanto exportávamos o combustível de mais qualidade e agravávamos extraordinariamente os custos para o sistema público de saúde, com as doenças respiratórias? Que lógica pode justificar investirmos dezenas de bilhões de reais em novas usinas hidrelétricas e nucleares, quando as universidades dizem que podemos reduzir nosso consumo, sem prejuízo, economizando recursos para investir em educação e saúde? Ou a lógica de subsidiar (à custa de todo o País) a exportação de eletrointensivos, para beneficiar consumidores nos países industrializados?
A França e a Itália, com a participação de outros países, já têm uma comissão - liderada por Joseph Stiglitz e Amartya Sen, ambos Prêmios Nobel - encarregada de rever os padrões de análise do crescimento econômico e do desempenho social. Avaliar se o aumento do PIB é a forma mais adequada de indicar crescimento. Por que caminhos medir o bem-estar social, juntamente com a sustentabilidade econômica, social e ambiental. Como incluir nas contas nacionais o trabalho doméstico e o trabalho não-remunerado. Como considerar a desigualdade de renda e de gênero, o acesso a bens públicos, a defesa nacional e o sistema prisional. E, estranho que possa parecer, como avaliar o que fazem do seu tempo os cidadãos.
Quando chegaremos aí?
Washington Novaes é jornalista
E-mail: wlrnovaes@uol.com.br
OESP, 12/09/2008, Espaço Aberto, p. A2
As notícias aqui publicadas são pesquisadas diariamente em diferentes fontes e transcritas tal qual apresentadas em seu canal de origem. O Instituto Socioambiental não se responsabiliza pelas opiniões ou erros publicados nestes textos. Caso você encontre alguma inconsistência nas notícias, por favor, entre em contato diretamente com a fonte.