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Colonização agrícola do Norte produz novos empresários

OESP, Economia, p. B10
04 de Abr de 2004

Colonização agrícola do Norte produz novos empresários
Preço muito alto da terra no Nordeste estimula exploração da nova fronteira

FÁTIMA CARDOSO e JOÃO BAUMER

Depois de ocupar o Mato Grosso e o Oeste da Bahia, os agricultores do Sul e Sudeste rumam para o Norte. A terra mais barata e o escoamento da soja pelo porto de Itaqui, em São Luís, estimulam uma nova colonização agrícola no Pará, Tocantins, sul do Maranhão e sul do Piauí. Essa jornada em direção ao Norte significa, para muitos, a chance de se tornar um grande empresário rural.
A maioria dos produtores que agora se instalam nessas regiões já desbravou outras fronteiras agrícolas. A família Manganeli é um exemplo. Valtério Manganeli chegou com os dois filhos ao sul do Piauí em 1999. Treze anos antes, em 1986, o produtor tinha deixado sua terra natal, Santo Antonio das Missões, no Rio Grande do Sul, para se aventurar na região de Barreiras, na Bahia. Sem ter como crescer no Rio Grande do Sul, Manganeli foi para o oeste baiano em busca de terra mais barata. Instalou-se numa pequena área, sem luz e distante mais de 100 quilômetros da cidade mais próxima. Cresceu e chegou a uma área de 500 hectares plantados.
A região de Barreiras se desenvolveu e as terras subiram de preço. Os Manganeli resolveram então procurar uma nova fronteira para crescer ainda mais. Venderam seus 500 hectares e compraram uma área de 4.300 na Serra do Quilombo, no sul do Tocantins, entre Bom Jesus e Uruçuí.
A falta de infra-estrutura não desanima Valtério e seu filho Nelson. De novo, eles estão sem luz, e a cidade mais perto fica a 80 quilômetros. Mas eles apostam no potencial da soja nessa região, que recebeu forte estímulo com a construção da maior unidade de processamento de soja da Bunge na América Latina, em Uruçuí. A fábrica começou a funcionar no ano passado.
Os Manganeli e o Grupo Bunge foram atraídos para o Piauí pela extraordinária área de cerrado do Estado, com cerca de 3 milhões de hectares aptos para agricultura em grande escala e praticamente inexplorados. A área plantada com grãos e soja no Estado foi, este ano, de 162 mil hectares, segundo estimativa da Conab. Esse número significou um crescimento de 39,4% em relação à safra 2002/2003. E para o próximo ano deve aumentar ainda mais.
A visão do cerrado na Serra do Quilombo impressionou todos os participantes da equipe Nordeste do Rally da Safra, que de 14 a 27 de março viajou pelas regiões agrícolas da Bahia, Piauí, Maranhão, Pará e Tocantins. Ao mesmo tempo, a equipe Sul-Norte percorreu os pólos produtores do Rio Grande do Sul e leste do Mato Grosso. Os grupos de jornalistas e agrônomos percorreram 25.500 quilômetros, entre fevereiro e março. A expedição foi uma iniciativa da empresa de consultoria Agroconsult, com patrocínio da Bunge Fertilizantes, do Banco do Brasil, da KeplerWeber e da John Deere, além do apoio da Ford, Fundação Agrisus e Agência Estado.
Qualidade - Ao longo de mais de 25 mil quilômetros, os viajantes encontraram realidades regionais diferentes, mas um aspecto se repetiu: o perfil empresarial do produtor brasileiro. As crises dos anos 80, o fim do paternalismo do Estado e o desenvolvimento tecnológico forjaram um grupo de empresários rurais que aprendeu a se capitalizar e reinvestir na atividade, abrindo novas áreas mesmo em regiões sem infra-estrutura. E os altos preços da soja nos últimos anos também ajudaram.
O analista da Agroconsult Fábio Meneghin, um dos coordenadores do rally, destaca a qualidade tecnológica das lavouras nas Regiões Norte e Nordeste.
"As fazendas não deixam a desejar a nenhuma outra região produtora no Brasil. Em alguns casos, a adubação média é até maior do que em Estados como Mato Grosso e Goiás, o que tem permitido produtividade acima de 55 sacos por hectare para a soja."
O ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues, é um dos empresários que transferiram parte das suas atividades para o Norte. Ele investiu no cerrado do sul do Maranhão, na região de Balsas. Em 1994, Rodrigues e mais dois sócios venderam três fazendas em Minas Gerais e compraram áreas em São Raimundo das Mangabeiras, onde formaram a fazenda Serra Vermelha.
A fazenda passou a ser tocada pelos filhos dos sócios, que não tinham como crescer nas regiões onde seus pais começaram a atividade, São Paulo e Minas Gerais. A Serra Vermelha cresceu e tem 6.500 hectares de lavoura. A maior parte é soja, com 4.700 hectares, além de 350 hectares de arroz e o restante de milho. Rodrigues está animado com o resultado deste ano: "A produtividade vai ser muito boa, acho que vamos fechar com a média de 55 sacas de soja por hectare."
Para o ministro, a elevação do preço da terra no último ano vai pôr um freio no processo de expansão agrícola para regiões de fronteira: "Há uma euforia, e os empresários que não são aventureiros sabem que os preços estão irreais." Ele defende também um maior planejamento estratégico, com a interação entre o setor privado e os governos federal, estaduais e municipais para definir os chamados eixos de desenvolvimento. "Isso é fundamental para racionalizar os investimentos em infra-estrutura e permitir um desenvolvimento sustentável."

No Pará e em Tocantins, plantio substitui pecuária
Produtores do Sul migram atraídos pelo chamado corredor de exportação norte

Cada vez mais a soja, o arroz e o milho dividem a paisagem com a pecuária em Estados como o Pará e o Tocantins. No Pará, a área plantada com soja cresceu 110% da safra 2002/2003 para 2003/2004, embora ainda seja muito pequena - 32,6 mil hectares - se comparada à de Mato Grosso por exemplo, que produz em 5,126 milhões de hectares. No Tocantins, a área de soja é de 214,7 mil hectares, um aumento de 45% em relação a safra passada.
Os produtores que migram para essa região optam prioritariamente por comprar antigas fazendas de pecuária, com pasto degradado. O Rally encontrou vários desses casos no Sul do Pará e nas regiões de Pedro Afonso e Gurupi, no Tocantins. No sul do Pará, por exemplo, existem 12 milhões de cabeças de gado, na parte do Estado abaixo da cidade de Marabá. A criação é extensiva, com menos de 1 cabeça por hectare, o que deixa muita terra disponível para agricultura.
Mas o que mais atrai os produtores do Sul do Brasil é a proximidade da região com o chamado corredor de exportação norte, com ligações das ferrovias Norte-Sul e da Vale do Rio Doce para o Porto de Itaqui, em São Luís (MA).
Redenção é considerada uma novíssima fronteira da soja dentro do Pará. Mas a onda agrícola tem um limite: a legislação ambiental. Quem abre áreas na região amazônica precisa preservar 35% da cobertura nativa em caso de cerrado e 80% em caso de mata. A parte mais explorada na região é Santana do Araguaia, onde a área com soja supera 3 mil hectares.
O consultor e agrônomo Afif Al Jawabri, dono da revenda de insumos agropecuários GranJawabri e representante da Bunge Fertilizantes em Redenção, propõe o uso dos cerca de 3 milhões de hectares de pasto degradados do sul do Estado. "O ideal é que essa terra fosse usada para a agricultura", diz.
Para Leonir Rossetto, um dos agricultores de Redenção, é preciso fazer o zoneamento agroecológico da região. Com isso, afirma, seriam criadas áreas contínuas de preservação. "Mesmo com todos os gargalos, a agricultura vai acontecer por aqui, mais cedo ou mais tarde", conclui.
Al Jawabri conta que um grupo de produtores do Sul do País comprou 23 mil hectares no pólo de Redenção em 2003. Devem iniciar a produção na próxima safra. Ele estima que a área de agricultura na cidade vá dobrar em 2004/05.
(F.C.)

Tecnologia une a soja gaúcha à do Cerrado
Explosão da cultura ocorreu no Mato Grosso, com a tropicalização das plantas

A família Milanesi retrata bem a migração da sojicultura no Brasil, saindo das lavouras no Rio Grande do Sul e em direção ao Mato Grosso, que hoje tem a maior produção do País. A experiência brasileira com soja teve como berço as terras gaúchas, mas a explosão da cultura ocorreu no Centro-Oeste, com a tropicalização das plantas.
A atividade foi iniciada e é mantida por dois dos quatro irmãos Milanesi em Santo Ângelo, na região gaúcha das Missões. Dércio e Márcio cultivam 820 hectares com soja em uma área total de 1,2 mil hectares, têm estrutura para armazenar toda a produção e utilizam técnicas de manejo que atenuam os efeitos do tradicional verão seco no Rio Grande do Sul.
Eles se destacam por utilizarem plantio direto na palha e a rotação de culturas há 15 anos, medidas que conservam nutrientes e a umidade no solo.
Enquanto a maior parte dos vizinhos deles perdeu até metade da lavoura por causa da estiagem - a estimativa de quebra é de 10% da área. "Aprendemos que a soja plantada sobre o milho do verão anterior ganha 20% em produtividade.
O milho deixa boa palhada sobre o solo, preservando os nutrientes e a umidade, além de contribuir para combater pragas típicas da soja", diz Dércio.
A tradição dos pioneiros gaúchos acompanha a passos lentos a alta tecnologia aplicada no Cerrado, mas, no caso dos Milanesi, a transferência é mais eficiente. Dirceu e Dario Milanesi migraram há 20 anos para Primavera do Leste, e a experiência em Mato Grosso foi gradualmente adaptada para a lavoura de Santo Ângelo. Em duas fazendas, uma em Primavera e outra em Paranatinga, Dirceu e Dario cultivam 3,5 mil hectares com soja e mil hectares com algodão. Na safrinha, o plantio de milho ocupa mil hectares, igual área é semeada com sorgo e o restante com outras espécies forrageiras.
Tudo em rotação de culturas e com todo o plantio executado direto sobre a palha da colheita anterior.
Os Milanesi não enfrentaram clima adverso em Mato Grosso, mas demonstraram esforço incomum no combate à ferrugem asiática, outra vez influenciando os irmãos que ficaram no Sul. A ferrugem não afetou as plantações graças ao tratamento preventivo. Eles contrataram uma assessoria técnica exclusiva para o controle da ferrugem, com ronda contínua de lavouras e não menos de três aplicações preventivas de fungicida em toda a área plantada, em doses mínimas e seqüenciais. (J.B.)

Produção de grãos será menor neste ano

Projeção da Agroconsult é de que haverá queda de 2%, pela redução das safras de milho e trigo
A produção brasileira de grãos em 2003/04 deve cair quase 2%, para 121,953 milhões de toneladas. A projeção foi feita pela Agroconsult após o término do 'Rally da Safra'. A consultoria estima a safra de verão em 103,357 milhões de toneladas, com alta de 2,4% sobre 2002/03. A safra de outono/inverno foi estimada em 18,595 milhões de toneladas, com queda de 19,3%.
A produção total de grãos deve diminuir neste ano por causa de reduções nas safras de milho e de trigo. O sócio-diretor da Agroconsult, André Pessôa, ressalta que os números ainda podem ser revistos para baixo, pois algumas lavouras de soja do Rio Grande do Sul ainda não completaram seu ciclo, e as plantações de inverno ainda são uma incógnita sob o ponto de vista climático. Há ainda problemas com a doença da ferrugem na soja em Goiás e no Mato Grosso.
A colheita de soja deve somar 52,1 milhões de toneladas neste ano, segundo atualização da Agroconsult após o Rally. O número representa recuo de 13,9% sobre a previsão inicial da consultoria, de 60,5 milhões de toneladas. O Rio Grande do Sul registra a maior perda, com queda de 39,3% sobre o potencial produtivo à época do plantio, por causa da longa estiagem que afeta todo o Estado. Outros Estados também registram forte quebra provocada pela seca, como Mato Grosso do Sul (-20%) e Paraná (-15,8%). O principal Estado produtor de soja, Mato Grosso, perdeu 9,4% de suas lavouras com o excesso de chuvas em janeiro e fevereiro.
Os Estados do Nordeste, ao contrário do Sul e Centro-Oeste, ganharam em produtividade neste ano. Como nessas regiões o problema comum é a baixa umidade, o verão chuvoso ampliou o potencial produtivo das lavouras. O ganho de produtividade em relação à safra anterior é de 54,3% na Bahia, de 53,1% no Piauí, 44% no Maranhão e 74,3% no Tocantins. A produção total de milho no ano deve somar 42,244 milhões de toneladas, com revisão negativa de 4,4% depois da conclusão do Rally. (F.C. e J.B.)

OESP, 04/04/2004, Economia, p. B10

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