O Globo, O País, p. 3
03 de Jan de 2012
"Coiotes" na fronteira do Brasil
PF investiga ação de traficantes de pessoas na onda de imigração ilegal no Norte do país
Chico Otavio
chico@oglobo.com.br
O governo brasileiro pediu ajuda à polícia peruana para enfrentar as quadrilhas que exploram o tráfico de pessoas na fronteira Norte do país. O ministro interino da Justiça, Luiz Paulo Barreto, alertou que, além de haitianos, grupos menores de muçulmanos, incluindo afegãos, já entraram no Brasil pelo mesmo esquema, operado pelos "coiotes" mexicanos, conhecidos no país por introduzir ilegalmente brasileiros e outros imigrantes pela fronteira dos Estados Unidos.
Barreto explicou que a atuação dessas quadrilhas na fronteira brasileira foi rastreada pelo serviço de inteligência da Polícia Federal e confirmada pelos próprios imigrantes:
- Os mexicanos oferecem a passagem ainda no Haiti. Pelo que apuramos, cobram de US$2 mil a US$5 mil aos interessados.
Ao contrário dos haitianos, que estão recebendo vistos humanitários, o governo age com rigor contra o tráfico de muçulmanos. Nos últimos dias, cerca de 100 deles, entre paquistaneses, indonésios e afegãos, foram deportados. Luiz Paulo Barreto disse que, para tentar burlar a polícia de fronteira, eles alegaram que pretendiam trabalhar com o abate halal, obrigação imposta a frigoríficos brasileiros que exportam carne para países árabes.
- Os frigoríficos, de fato, chegaram a contratar trabalhadores especializados no abate halal, mas não os grupos que chegaram recentemente. Eles queriam apenas um pretexto para entrar - disse Barreto, que é representante do Ministério da Justiça no Comitê Nacional para os Refugiados (Conare).
Em poucos dias, 550 haitianos entraram
Dos últimos três dias de 2011 até ontem, cerca de 550 haitianos entraram ilegalmente no Brasil por Brasileia, no Acre. A prefeitura do município estimava ontem em 1.250 a quantidade de imigrantes daquele país na cidade. As autoridades de Brasileia temem que a situação da cidade fique caótica. O processo, iniciado depois do terremoto de janeiro de 2010 no Haiti, intensificou-se nos últimos meses, estimulado pelo crescimento econômico do Brasil e pelas oportunidades que o país oferece. A aposta no Brasil também teria atraído os "coiotes".
- Desde o jogo da seleção brasileira em Porto Príncipe, os haitianos passaram a prestar a atenção no Brasil. Uma das notícias que ouviram foi sobre a usina de Belo Monte, que iria contratar 25 mil trabalhadores de uma só vez - disse Barreto.
A rota desses imigrantes ilegais começa pelo ar. Uma companhia aérea, segundo Barreto, opera voos regulares entre Porto Príncipe e Quito, no Equador, com escala em Santo Domingo, na República Dominicana. De Quito, os haitianos seguem pelo Peru, de carro, ônibus ou caminhão, até Tabatinga, no Amazonas, e Brasileia, no Acre, disse o ministro:
- O Equador tem uma tradição de cidadania global. Não exige visto de nenhum país do mundo. Sabendo disso, os haitianos entram na América do Sul por Quito.
Embaixada do Peru confirma pedido
Logo que a presença dos coiotes foi identificada, o governo brasileiro pediu ajuda ao Peru para enfrentar o problema. O porta-voz da Embaixada peruana em Brasília, Raul Menezes, confirmou pelo menos duas reuniões entre os ministérios das Relações Exteriores dos dois países para discutir o assunto. Mas disse que não estava autorizado a revelar os detalhes dos encontros.
O governo brasileiro, afirma Barreto, não reconhece nos haitianos o status de refugiados políticos, por inexistir comprovação de eventuais perseguições sofridas por eles. Porém, optou por mantê-los com vistos humanitários:
- A imigração é meramente econômica. Eles não foram expulsos, mas o Brasil não quer incentivar uma diáspora no Haiti. Entende que o país tem de ser reconstruído pelos próprios haitianos.
Até agora, o Brasil já concedeu dois mil vistos deste tipo a haitianos. Outros dois mil estariam em fase de regularização, concentrados basicamente no Acre e no Amazonas. Peru e Argentina também aparecem como destino final do tráfico de pessoas para a América do Sul.
Dados colhidos pelo Ministério da Justiça revelam que, desde 2008, chegaram ao Brasil cerca de 470 mil imigrantes, que somaram-se a 1 milhão que já viviam aqui. Dos cerca de 4 milhões de brasileiros que viviam no exterior, 1 milhão retornou ao país no mesmo período.
- A crise mundial, somada ao crescimento econômico do país, favoreceu o fenômeno. Os estrangeiros, muitos deles mão de obra especializada, vêm a reboque do desenvolvimento industrial.
A mão de obra que chega de fora, avalia o ministro, é sazonal, associada ao investimento estrangeiro em determinados setores na economia, como o petróleo e gás, responsável pela entrada no Brasil de trabalhadores qualificados das Filip.
Acre no limite
Estado não tem como lidar com haitianos que não param de chegar e pede socorro à União
Cleide Carvalho
cleide.carvalho@sp.oglobo.com.br
SÃO PAULO. O Acre gastou R$1,042 milhão de janeiro a 20 de dezembro de 2011 para sustentar os haitianos que entram ilegalmente no Brasil pela fronteira com Peru e Bolívia. O valor representa 65% de todo o orçamento anual da Secretaria de Justiça e Direitos Humanos do estado, sem contar os gastos com saúde e os recursos aplicados pelas prefeituras dos dois municípios mais atingidos pela onda de imigração, Brasileia e Epitaciolândia. Anteontem, mais um grupo de 47 haitianos chegou a Brasileia, onde fica o posto da Polícia Federal mais próximo da fronteira.
- O caos está instalado em Brasileia. São 15 mil habitantes na área urbana do município, e os haitianos representam 10% deste total. A cidade não tem condições de absorver essa gente e não temos capacitação suficiente para atendimento. Chegamos ao limite, o estado está exaurido e precisa de ajuda do governo federal - diz o secretário Nilson Mourão.
Segundo Mourão, a onda migratória de haitianos para o Brasil, iniciada em dezembro de 2010, transformou-se numa rota organizada, e as pessoas são trazidas por agenciadores que atuam no Haiti. Por isso, acrescenta, cabe ao governo federal - que tem dado visto humanitário de permanência no Brasil por dois anos, com direito a trabalho com carteira assinada - ajudar a resolver a situação.
Mourão afirma que a única ajuda do governo federal até agora foi doar 14 toneladas de alimentos, que o governo do Acre tem de ir buscar em Rondônia, onde fica o posto da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab).
- Precisamos de recursos e da presença do governo federal no estado - afirma o secretário.
Apenas nos três últimos dias de 2011, 550 haitianos chegaram à cidade. Diariamente, a Polícia Federal concede vistos humanitários e os haitianos seguem para São Paulo, Porto Velho e Manaus. De acordo com Nilson Mourão, o destino dos haitianos é decidido ainda no Haiti. Inicialmente, chegavam apenas homens. Agora, passaram a chegar famílias inteiras. Pelo menos 30 crianças estão em Brasileia. Centenas de haitianos que chegaram desde a última sexta-feira estão dormindo no coreto da praça da cidade.
- A Defesa Civil do Acre tem outros problemas para cuidar. Já começou o período de cheia do Rio Juruá e estamos começando a registrar enchentes. Não temos pessoas capacitadas em número suficiente para atender os imigrantes - afirma Mourão.
Ainda de acordo com o secretário, imigrantes de outras nacionalidades não preocupam o Acre e não configuram uma onda migratória organizada, como os haitianos. Segundo ele, não passaram de 50 os imigrantes que entraram pela fronteira do Acre originários de países como Paquistão, Nigéria, Libéria, África do Sul, Tanzânia e Zimbábue, que chegam sozinhos ou em grupos pequenos, de cinco a seis pessoas.
O Brasil lidera a Força de Paz da Organização das Nações Unidas (ONU) no Haiti e, de acordo com Mourão, o governo federal poderia fechar um acordo de cooperação para treinamento de haitianos para reconstrução de seu próprio país.
- O governo federal, por meio do Ministério das Relações Exteriores, tem de buscar soluções para esta onda de imigração. O Acre é uma das rotas. A outra é Tabatinga, no Amazonas. Temos notícias de mil haitianos em Tabatinga e dois mil que já estão trabalhando em Manaus - diz Mourão.
Pelo Acre, já entraram 2.500 haitianos desde janeiro de 2011. Nesta terça-feira, Brasileia contabilizava 1.250 deles, à espera de vistos humanitários. Quando conseguem o visto e tiram CPF e carteira de trabalho, eles seguem para outros estados.
- Somos uma parada provisória. Eles não ficam aqui no Acre - afirma o secretário.
De acordo com Damião de Melo, funcionário da secretaria que cuida dos haitianos, 38 haitianos foram recrutados para trabalhar numa fábrica de piscinas em Chapecó, Santa Catarina, e muitos parentes estão sendo trazidos. Uma construtora do Mato Grosso também deverá mandar representante ao Acre para contratar haitianos para trabalhar na construção civil.
Em Brasileia, os haitianos recebem três refeições por dia - café da manhã, almoço e jantar. Ontem, foi servido feijão, arroz e frango frito.
- Nunca vi gostar tanto de frango - diz Melo.
Os haitianos rejeitam verduras e carne de porco.
- Hoje servimos beterraba, cenoura e tomate, mas eles jogam fora. Tenho tentado convencê-los a comer algum legume ou verdura, mas eles tiram do marmitex.
Segundo Melo, cerca de 350 haitianos se juntaram e alugaram casas na região, para permanecerem até a obtenção do visto, que pode levar 40 dias. Faltam funcionários no posto da Polícia Federal para analisar tantos pedidos.
O Globo, 03/01/2012, O País, p. 3
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