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Clima: 'mudanças abruptas e irreversíveis'

O Globo, Ciência, p. 41
17 de Nov de 2007

Clima: 'mudanças abruptas e irreversíveis'

Roberta Jansen

As mudanças climáticas atualmente em curso poderão trazer impactos "abruptos e irreversíveis", de acordo com um novo documento do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) da ONU a ser divulgado oficialmente hoje. O colapso da Antártica, grandes extinções, a desertificação da Amazônia e o resfriamento da Europa são algumas das alterações possíveis.

O texto é um resumo dos três relatórios climáticos já divulgados (sobre as causas, as conseqüências e as formas de mitigação do aumento das temperaturas) pelo painel este ano e tem por objetivo fornecer subsídios científicos aos governos para a adoção de políticas de combate ao aquecimento.

- Depois desse relatório, nenhum político poderá dizer que não ouviu falar das mudanças climáticas e não sabia o que fazer para detê-las - afirmou o diretor do programa de mudanças climáticas do WWF, Hans Verolme. - O documento é uma clara mensagem aos políticos. Os cientistas fizeram seu trabalho e mereceram o Nobel. A questão agora é saber o que os políticos farão a respeito.

O documento servirá de base para a próxima Convenção do Clima, o encontro internacional de ministros do meio ambiente a ser realizado em Bali, na Indonésia, a partir do próximo dia 3, em que serão negociadas as bases de um acordo climático mundial para suceder Kioto. A idéia é aprovar cortes de emissão de gases estufa bem mais ousados, capazes de deter, ao menos em parte, a elevação das temperaturas.

- O consenso no IPCC hoje é que é fundamental reduzir de 60% a 70% das emissões de gases-estufa para, ao longo do próximo século, estabilizar em 550 partes por milhão a concentração de CO2 na atmosfera e, com isso, limitar o aumento da temperatura média do planeta em dois graus Celsius - afirmou Paulo Artaxo, do Instituto de Física da USP, um dos membros do IPCC. - Essa idéia está sendo reforçada neste relatório de Valência.

Alterações são inequívocas, diz documento
O sumário, que será apresentado pelo secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, conclui que as mudanças climáticas são "inequívocas", que as emissões humanas são a sua principal causa e o que seus impactos podem ser reduzidos a um custo razoável. Alerta, sobretudo, para as alterações abrutas e irreversíveis de significativos sistemas climáticos do planeta.

Essas mudanças de um sistema climático para outro mais instável realmente podem acontecer - diz Artaxo.
Tais alterações costumam ser irreversíveis e abruptas.

Não quer dizer que ocorreriam do dia para a noite nem de um ano para o outro. Levaria um tempo, mas extremamente curto do ponto de vista da escala temporal climática, ou seja, de algumas décadas, em vez dos milênios que seriam necessários no ritmo normal.

O principal motor dessas mudanças radicais seria a alteração da circulação dos oceanos - responsável pela distribuição do calor dos trópicos para as regiões temperadas do planeta. O aquecimento diferenciado dos oceanos teria um impacto na circulação resultando, por exemplo, no intenso resfriamento da Europa.

- Mudanças na temperatura dos oceanos poderiam ter impactos significativos no Brasil, embora não saibamos exatamente quais sustenta Artaxo.

Para o cientista, é fundamental que o mundo se conscientize da importância de se reduzir as emissões para que tais cenários extremos não aconteçam.

Saiba mais sobre as previsões
A seguir, destaques da versão preliminar do relatório do IPCC sobre o impacto das mudanças climáticas nas diferentes regiões do mundo:

Regiões Árticas
Perda de 30% da cobertura de gelo sobre o Oceano Ártico até 2100
Redução das geleiras da Groenlândia
Redução de 35% do perma-frost (solo permanentemente congelado) no Hemisfério Norte até 2050
Destruição do habitat de aves e mamíferos migratórios. Perda de estoques pesqueiros

América do Norte
A elevação do nível do mar pode afetar severamente a infra-estrutura na Costa Leste dos Estados Unidos
Ondas de calor extremo em EUA e Canadá
Mais pragas agrícolas e incêndios florestais

América Latina
As geleiras dos Andes tropicais provavelmente desaparecerão em 15 anos. Com isso, será reduzida a oferta de água para consumo doméstico, agricultura e energia em Bolívia, Peru, Colômbia e Equador
Agravamento da seca em regiões hoje já semi-áridas do Brasil
Um aumento de 2 graus Celsius pode transformar em cerrado parte do leste da Amazônia
Aumento da freqüência de furacões no Caribe
Plantações de grãos em declínio a partir de 2020
O aquecimento do mar poderá matar recifes de Abrolhos

Países Insulares
A elevação do nível do mar pode erodir praias, destruir recifes de corais e manguezais. Isso pode reduzir em 80% o turismo, a principal fonte de renda da maioria dos países-ilha
A diminuição da chuva pode acabar com as reservas de água potável

Antártica
Redução das geleiras, banquisas e plataformas de gelo da Península Antártica.
Degelo de parte das geleiras do oeste da Antártica, fenômeno que pode aumentar o nível do mar

Europa
Aumento das ondas de calor
O número de rios superexplorados poderá subir dos atuais 19% para 35% em 2070
Expansão das colheitas em 2050, com crescimento de até 25% da produção nos países do norte do continente
Expansão das áreas cobertas por florestas no norte.
Mais incêndios florestais no sul
Desaparecimento das pequenas geleiras dos Alpes até 2050

Ásia
Mudanças no padrão de chuvas podem prejudicar a agricultura e aumentar o tamanho da população afetada pela fome
Se o ritmo de aquecimento for mantido, as geleiras do Himalaia (o Teto do Mundo) vão encolher dos atuais 500 mil quilômetros quadrados para 100 mil quilômetros quadrados em 2030.
Isso afetará a oferta de água para países como China e Índia e trará ainda maior risco de avalanches
Mais enchentes ao longo do século nos deltas de grandes rios, como Mekong e Vermelho
Queda das colheitas

África
Diminuição da área agrícola
Crescimento de a 5% a 8% das áreas áridas e semi-áridas até 2080
Mudanças radicais em ecossistemas seguidas de ondas de extinção

Austrália e Nova Zelândia
Muitos ecossistemas serão alterados, dentre eles a Grande Barreira de Coral
Redução de 10% a 25% do fluxo de grandes rios até 2050
Aumento dos incêndios florestais na Austrália

O Globo, 17/11/2007, Ciência, p. 41

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