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Clima frustrante

O Globo, Opinião, p. 6
19 de Dez de 2009

Clima frustrante

A Conferência da ONU sobre o Clima confirmou os maiores temores da comunidade internacional.

Após 12 dias de exaustivas negociações, 193 países não conseguiram um acordo com força de lei para obrigá-los a cumprir metas de corte de gases-estufa que permita deter as mudanças climáticas e o aquecimento global. Ficaram numa espécie de carta de intenções.

No encontro, tido como a maior chance para um consenso sobre como combater as ameaças ao futuro da Terra, prevaleceram as dificuldades que se desenhavam antes da COP-15. As chances de um acordo firme continuaram a esbarrar em divergências entre países ricos e em desenvolvimento sobre os custos do combate ao aquecimento global, na pouca disposição dos EUA de adotarem metas mais ambiciosas, na recusa da China em aceitar mecanismos internacionais de verificação e em problemas de como financiar as mudanças na economia de nações mais pobres.

No último minuto, e para salvar a face, a Casa Branca anunciou como "significativo" um entendimento envolvendo EUA, China, Índia, Brasil e África do Sul. O próprio governo americano admitiu que o documento "não é suficiente para combater a ameaça das mudanças climáticas, embora seja um importante passo adiante". O instrumento, acertado em reunião entre os presidentes Obama, Lula e líderes dos outros três países, levanta questões para as quais ainda não há respostas. Nele não estaria presente a União Europeia, uma das partes mais importantes nas discussões sobre clima e que, horas antes, anunciara que não exerceria sua opção de aumentar de 20% para 30% (sobre 1990) o corte de suas emissões, o que prometera fazer caso um acordo amplo e com força de lei fosse obtido em Copenhague. Não há garantias de que o compromisso, negociado entre apenas cinco países, receberá o endosso das demais cerca de 190 nações que participaram da COP-15.

O caráter limitado do arremedo de acordo torna improvável que se obtenha um instrumento vinculante até o fim de 2010.

O entendimento, entretanto, impediu que Copenhague fosse um fracasso completo. Obama disse ser ele "um primeiro passo". O presidente da França, Nicolas Sarkozy, anunciou que a Alemanha preparará negociações que permitam avançar na reunião climática da ONU em 2010, no México. Se há algum acordo vinculante na COP-15, é o de que ainda há muito trabalho pela frente.

A busca por um acordo em torno do clima fica parecida com as infindáveis rodadas, como a de Doha, instituídas no âmbito da OMC com vista a liberar o comércio mundial.

O Globo, 19/12/2009, Opinião, p. 6

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