OESP, Internacional, p. A10
Autor: RIESMAN, Abraham
18 de Fev de 2013
Clima favorece o extremismo
Mudança climática pode ser a melhor amiga da Al-Qaeda na África? Para alguns analistas de segurança, sim
Abraham Riesman
As tropas francesas planejam uma retirada rápida da África, mas a batalha do governo local contra insurgentes islamistas persiste. Enquanto a comunidade internacional ainda se pergunta o que aconteceu de errado no Mali, país visto como modelo para a região, especialistas em clima dizem que essa guerra civil já vinha fermentando e,mais importante, acreditam que a mudança climática poderá ser um fator cada vez mais importante das crises na região.
Temos observado muitos debates dentro do establishment da segurança global quanto a se o clima - sem falar na mudança climática- pode ter influência na eclosão de conflitos.
De um lado, analistas, como cientistas de Colúmbia e Princeton, afirmam que o El Niño contribuiu para um quinto das guerras civis entre 1950 e 2004.
De outro, encontramos estudiosos como Lionel Beehner, membro do Truman National Security Project, que publicou um importante artigo no ano passado refutando essas conexões, uma a uma.
Para distinguir a diferença, os observadores do clima preferem usar termos como "multiplicador de ameaças" em casos como o do Mali.
Neste país, "grande parte da agitação está profundamente arraigada", afirma o analista Caitlin Werrell. A guerra na Líbia, por exemplo, acarretou um grande fluxo de armas e militantes para o Mali e os separatistas tuaregues há muito tempo operam no norte do país.
Entretanto o norte ficou muito mais árido nos últimos anos, por causa da queima de madeira para combustível e das emissões de gases com efeito estufa na Índia e na China.
Grande parte do território do Mali ocupa uma faixa de terra conhecida como Sahel - zona de transição entre o deserto e a savana, de clima semiárido-, que foi devastada por uma seca severa nos meses anteriores ao golpe de Estado do ano passado. Em 2010, observadores do clima começaram a alertar para as instabilidades.
Francesco Femina, diretor fundador do Center for Climate and Security concorda com Werrell que não existe relação de causa e efeito direta neste caso. "Mas quando um governo tem muita dificuldade para fornecer os recursos básicos para sua população e quando as secas exacerbadas tornam a situação pior, então a resistência dos atores não estatais - como a Al-Qaeda do Magreb Islâmico - e também a simpatia por esses atores podem aumentar", ele afirma.
Neste momento muitos destes ingredientes também estão se juntando a algumas centenas de quilômetros da fronteira do Mali, no país mais povoado da África: a Nigéria.
"Se tivesse de investir dinheiro na região, creio que veremos situações ou mais violência e instabilidade na Nigéria", disse Nancy Brune, membro do Center for a New American Security.O governo nigeriano está numa luta cada vez mais séria com a milícia islamista BokoHaram,diz Nancy, para quem problemas relacionados ao clima - como o colapso da agricultura e a migração do campo para as cidades - contribuem enormemente para o conflito.
Mas os analistas têm alguma esperança no tocante a áreas sujeitas ao extremismo islâmico e à mudança climática. Francesco Femia, Caitlin Werrelle outros insistem que devem ser feitos investimentos, locais e internacionais, em projetos de "adaptação climática", como habitação para agricultores desalojados ou produção de energias alternativas no lugar da queima de madeira.
"Não significa que você vai resolver o problema da mudança climática ou que conseguirá a paz no mundo, mas é um fator importante", diz Werrell.
Abraham Riesman é jornalista e documentarista. Vive em Manhattan.
OESP, 18/02/2013, Internacional, p. A10
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