O Globo, Razão Social, p. 14
06 de Jul de 2010
Clima depende de cooperação
Seminário em Bonn, na Alemanha, discute responsabilidade de países ricos e emergentes para frear mudanças climáticas
Camila Nobrega
camila.nobrega@oglobo.com.br
Enviada especial a Bonn, Alemanha
Se os líderes mundiais não reunirem esforços para acelerar progressos em seus países, ninguém cumprirá as oito Metas de Desenvolvimento do Milênio (MDMs) até 2015, prazo estabelecido pelos 191 estados membros das Nações Unidas em 2000. Durante o fórum "A Mídia e as Mudanças Climáticas", realizado entre os dias 21 e 23 de junho, em Bonn, na Alemanha, o delegado africano da campanha, Charles Abugre, deu o alerta e classificou como irresponsável a atitude dos países desenvolvidos de priorizarem socorros a empresas durante a crise econômica, em detrimento dos financiamentos prometidos a nações em desenvolvimento. Segundo ele, é quase impossível cumprir as metas dentro do pouco tempo que resta, e esse fracasso evidencia as prioridades das negociações mundiais: - Estamos atrasados. Salvaram empresas depois da crise econômica, mas a África, por exemplo, enfrentou muitas dificuldades pela redução dos recursos enviados. Quando assinaram as MDMs, os países desenvolvidos prometeram destinar 0,56% de seus Produtos Internos Brutos (PIBs) às nações em desenvolvimento para ajudar no cumprimento das metas, como redução da pobreza e da fome e ampliação no acesso à educação, mas falharam nessa promessa. Já os países em desenvolvimento falharam na captação de recursos internos para o mesmo objetivo. Teremos imensos problemas, pois as mudanças climáticas só tendem a agravar o quadro. Não há como resolver os problemas ambientais, sem levar as questões sociais em conta, e vice-versa - disse Abugre, um dos principais participantes do fórum, que foi realizado pela estatal de comunicação alemã Deutsche Welle em parceria com a ONU.
Abugre deu ainda exemplos práticos de como as alterações no clima mundial já têm dificultado o cumprimento das metas. No caso de moradias frágeis, ele aponta algo que os brasileiros têm visto bastante: os desabamentos e inundações. Na área da educação, a preocupação maior é com os refugiados do clima e em relação à fome o maior agravante pode ser o aumento da disputa pela produção de alimentos, apenas para citar alguns casos. Por outro lado, o delegado africano das MDMs apontou o Brasil como exemplo de redução da pobreza e ampliação no acesso à educação, embora ainda tenha grandes dificuldades de cumprir as metas até 2015.
A conferência realizada em Bonn teve como eixo das discussões a dificuldade de se orquestrar uma ação conjunta entre países desenvolvidos e em desenvolvimento para frear as alterações no clima e criar um mundo mais sustentável.
Após a COP-15, realizada em dezembro passado e comumente mencionada como "o fracasso de Copenhague", os líderes apostam na próxima Conferência das Partes, que será realizada em Cancún, no México, em novembro. Segundo o ex-secretário executivo das Nações Unidas Yvo de Boer, que se despediu do cargo no dia 1 de julho, é necessário que se inicie uma era de cooperação externa, o que ele espera que aconteça a partir de Cancún: - Cancún tem o potencial de completar o acordo que a COP-15 não fechou.
E acredito que a resposta sobre um novo modelo de crescimento tem que vir dos países em desenvolvimento, cujos índices de expansão econômica são altos. Sabemos que os países ricos são responsáveis por 80% dos gases que estão presentes na atmosfera, e eles têm essa responsabilidade histórica, mas o comportamento dos emergentes será essencial, porque não podemos ter ritmos de crescimento desmedidos - disse De Boer durante o Fórum, acrescentando um conselho: - Mesmo que a COP-15 não tenha trazido todas as respostas, e a COP de Cancún também não traga, é importante direcionar políticas locais para o combate às mudanças climáticas.
Durante os três dias de evento, o Brasil foi citado mais de 30 vezes, por especialistas e delegados do clima de diferentes países. Nossos índices elevados de desmatamento e a preocupação mundial com a Amazônia foram exemplos.
Um conferencista alemão que assistia a uma das palestras chegou a afirmar que talvez fosse melhor manter todos os brasileiros concentrados nas cidades grandes, longe da Amazônia, que, por ele, seria integralmente conservada de pé a partir de agora, deixando de lado inclusive projetos de desenvolvimento sustentável. Foi aplaudido. Além disso, houve críticas à exploração do petróleo na camada do pré-sal, que será iniciada pela Petrobras na Bacia de Santos.
Mas a resposta veio de forma muito contundente, no momento da fala do embaixador brasileiro na Alemanha, Everton Vieira Vargas, um dos primeiros negociadores do clima no país: - Em países como o Brasil, a Índia e a África do Sul, por exemplo, considerados chave, como podemos frear, se ainda temos altos índices de pobreza, analfabetismo e mortalidade por doenças? Se, para vocês, é uma infelicidade termos encontrado o pré-sal, para nós foi algo muito bom. Claro que agora temos que cobrar da Petrobras e do governo altos investimentos em desenvolvimento social e na transição para uma economia de baixo carbono e nunca negamos nossa responsabilidade. Mas não existe possibilidade de deixarmos o petróleo lá, e todos sabem disso. A própria Alemanha, por exemplo, vai exportar tecnologia para a exploração do pré-sal. Devemos fechar um acordo global, mas respeitando as necessidades locais. A pequena margem de negociação dos delegados é o que mais tem dificultado um acordo entre as nações - rebateu.
De fato, é mais fácil falar de freio no desenvolvimento para os países do hemisfério norte, até porque muitos já estão mesmo apresentando taxas reduzidas de crescimento devido à crise econômica. Além disso, por lá o desenvolvimento já chegou faz tempo e a própria cidade de Bonn é exemplo disso.
Todos os jornalistas e outros participantes vindos de países do hemisfério sul - como Chile, Colômbia, Tanzânia, Gana, Egito, África do Sul, entre outros - ficaram surpresos com a organização e a infraestrutura de transportes da cidade. Ônibus, bicicletas e trens estão por todos os lados e fazem o uso de carros quase desnecessário.
Soma-se a isso a elevada qualidade de vida em uma cidade onde o acesso à educação chega a todos e não há pobreza extrema, ou sequer pobreza que se possa registrar a olho nu.
No entanto, independentemente da responsabilidade de cada um, o planeta é um só, como lembrou o empresário especializado em sustentabilidade Ignacio Campino, que participou de uma mesa sobre a cobertura da mídia das mudanças climáticas e da responsabilidade social. Campino afirmou que é preciso definir a responsabilidade de cada um no âmbito global, mas disse que isso não pode se tornar um obstáculo no desenvolvimento de projetos, tanto por governos, como pelo setor privado: - Nós não saímos da crise e as empresas que não pensarem na sua pegada ecológica e na social vão chegar ao fundo do poço. A COP-15 não deu os parâmetros que as empresas esperavam, mas estão errados aqueles que suspenderam ou reduziram novos projetos por conta disso. O setor privado precisa liderar o processo de transição, disso não tenho dúvida.
Não vamos abandonar o petróleo de um dia para o outro, mas a inovação é imprescindível. Precisamos ter um novo modelo de cálculos na hora de iniciar projetos. Além do custo econômico, o custo ambiental precisa entrar como uma variável nas planilhas de todas as empresas, de forma transparente.
E o papel da mídia para difundir essas ideias é fundamental. Não adianta só falar de catástrofes, é preciso dar saídas plausíveis.
Afinal de contas, os investimentos em sustentabilidade, no mínimo, nos levarão a um mundo melhor. Essa foi, talvez, a conclusão mais simples e esclarecedora da conferência, e foi com ela que seu autor, Félix Finkbeiner, um menino de apenas 9 anos, calou o plenário com mais de 500 pessoas por cerca de 20 minutos.
Assim como a canadense Severn Suzuki durante a Rio 92, realizada no Rio, ele fez um apelo bastante contundente aos líderes presentes: - Se seguirmos os cientistas que nos apontam os riscos das mudanças climáticas, o pior que pode acontecer é criarmos um mundo muito melhor e mais justo. Mas se seguirmos aqueles que vocês chamam de céticos e descobrirmos que eles estavam errados, não haverá mais tempo. O mundo de que vocês estão falando é o mundo no qual eu vou viver quase toda a minha vida. Com uma centena de crianças, plantei mais de mil árvores. E vocês, o que fizeram até agora? - provocou o menino, criador do programa "Plante uma árvore", que já conta com centenas de crianças ao redor do mundo (www.plant-for-the-planet.org).
O Globo, 06/07/2010, Razão Social, p. 14
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