JB, Opiniao, p.A10
05 de Jun de 2005
Civilização em risco
O Dia Mundial do Meio Ambiente coincide com a preocupante constatação de que mesmo os mais notáveis esforços não foram suficientes para sugerir um futuro mais vistoso. Neste terreno, infelizmente, tem prevalecido uma incômoda conjugação de avanços e recuos. Afinal, espalhou-se a consciência ambiental entre amplas camadas das sociedades. Desenvolveu-se tecnologia capaz de racionalizar a ação fiscalizadora sobre a fauna e a flora. Disseminou-se, entre muitas empresas, a importância do meio ambiente como premissa de atitudes socialmente responsáveis. Os especialistas concluem, no entanto, que muitas das metas estabelecidas pelos principais líderes mundiais está longe de transformar-se em realidade.
A inquietação revelada há mais de 30 anos na famosa Conferência de Estocolmo, na Suécia, prossegue por meio de sinais ameaçadores dirigidos ao frágil planeta. ''Até a segunda metade do século 21'', afirmavam os cientistas, ''por meio de incontroláveis cataclismos, falta de alimentos, falta de recursos não renováveis, envenenamento da terra, da água e do ar'', o mundo se transformaria numa terra arrasada caso se mantivesse o passo firme da utilização predatória dos recursos naturais, da poluição ambiental e da produção de bens industriais sem responsabilidades ecológicas. O apocalipse pode não estar tão perto, mas há indicadores confiáveis de que o mundo não está bem. As evidências sugerem que é preciso encontrar um caminho menos oneroso do ponto de vista econômico-ambiental e mais sustentável do ponto de vista ecológico.
A preservação ambiental constitui uma saudável exigência da sustentabilidade das eventuais conquistas do progresso e da modernidade. Nenhuma civilização se manterá com o avanço criminoso sobre as florestas, por exemplo. Os ganhos econômicos se esgotarão caso persista a insensatez. A destruição florestal afeta fortemente a disponibilidade de água. Se tal modelo funcionou há cinco séculos, quando significava o caminho mais fácil e barato para o crescimento das cidades e para a busca de bem-estar das populações, hoje se tornou um padrão perverso de degradação, fomentador da concentração da riqueza nas mãos de poucos e combustível para a escassez de muitos. O problema é especialmente preocupante no Brasil.
A floresta amazônica encolheu em 12 meses, entre agosto de 2003 e agosto de 2004, 6% a mais do que no ano anterior. Foram mais de 26 mil quilômetros quadrados desmatados - uma cifra espantosa que passou a ocupar o segundo maior índice da história. A estes números acrescente-se a implicação direta de altos funcionários do Ibama em uma quadrilha cujas ações se espalham por pelo menos seis estados, conforme divulgado esta semana. Numa gestão balizada pela profusão de promessas e pelo avanço da legislação ambiental, tais evidências se revelam desalentadoras. Pôr um fim à infiltração da bandidagem ambiental no aparato estatal, identificar os agentes do desmatamento e interferir de modo mais eficaz na defesa das florestas e da biodiversidade representam alguns dos monumentais desafios a enfrentar. Como afirma hoje a capa do JB Ecológico, o Brasil e o mundo ainda enxergam um equilíbrio distante.
JB, 05/06/2005, p. A10
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