O Globo, Opiniao, p.6
03 de Fev de 2004
Ciência livre
O substitutivo do ex-líder do governo, Aldo Rebelo, agora ministro da Articulação Política, ao projeto que cria a política de biossegurança do país tem recebido de setores do próprio governo críticas tanto acerbas quanto indevidas. A questão central é que o projeto original enviado ao Congresso previa que a palavra final sobre pesquisas com organismos transgênicos caberia aos ministérios da Saúde, do Meio Ambiente e da Agricultura; e o substitutivo transfere o poder de decisão à Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio).
É isso que o ministro Miguel Rossetto, do Desenvolvimento Agrário, e Marina Silva, do Meio Ambiente, rejeitam, por julgar que deve caber aos ministérios a competência não só para liberar ou não a comercialização de organismos geneticamente modificados, mas também de autorizar pesquisa científica.
É difícil entender por que se poderia imaginar que uma questão eminentemente técnica deva ficar subordinada a políticos. A explicação talvez esteja numa visão distorcida, ainda que politicamente correta e bastante difundida, que considera os transgênicos inteiramente nocivos ao meio ambiente, à saúde e a tudo o mais, e se recusa a reconhecer neles quaisquer aspectos positivos.
Cercear o plantio e a comercialização de transgênicos já é pôr em risco o avanço notável alcançado nos últimos anos pela agricultura brasileira, principalmente no que se refere à soja. Criar empecilhos à atividade dos cientistas, quando em grande parte esse progresso foi resultado justamente da pesquisa científica veja-se o trabalho desenvolvido pela Embrapa seria um duro golpe à capacidade dos produtos agrícolas nacionais de manterem sua competitividade nos mercados internacionais.
A liberação e a fiscalização do plantio de culturas transgênicas têm merecido uma discussão complexa; mas no que se refere à pesquisa, não há o que discutir. A imposição de controles externos à busca do conhecimento é sempre inadmissível, e deve ser classificada de destrutiva quando esse trabalho tem se mostrado economicamente tão positivo para o país.
O Globo, 03/02/2004, p. 6
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