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A ciência da biodiversidade

O Globo, Revista O Globo, p. 18-23
19 de mar de 2006

A ciência da biodiversidade
Oceanos são a última e mais desafiadora fronteira para conhecer a vida na terra. Cientistas descobrem cada vez mais espécies, inclusive no Brasil

Por Ana Lucia Azevedo

AFRONTEIRA DA BIODIVERSIDADE É AZUL. ATRÁS DAS ondas, mais do que em qualquer outro lugar do planeta, está o maior número de seres vivos a descobrir. Os mares parecem guardar a resposta sobre a origem da vida e uma potencial revolução para o desenvolvimento de medicamentos, cosméticos e materiais para comunicações. Prova do mundo escondido na água é a identificação recente de lulas colossais com mais de dez metros, de polvos que brilham no escuro e de demônios-do-mar transparentes. No Brasil, será oficialmente anunciada em breve a identificação de mais uma espécie de baleia em nosso litoral. Cientistas descobriram no Rio uma nova espécie de arraia que vive nas trevas. E um inventário recém-concluído mostrará que Abrolhos têm a maior diversidade marinha de todo o Atlântico Sul.
Conhecemos menos de 5% das criaturas marinhas. Das planícies abissais - o verdadeiro fundo do mar, que ocupa a maior parte da superfície da Terra - vimos menos de 1%. Sabemos mais sobre a superfície da Lua e de Marte do que do fundo mar. Os oceanos são hoje o grande desafio para a conservação e o conhecimento da biodiversidade e um dos principais temas da 8ª Conferência das Partes da Convenção de Biodiversidade (COP8), que começa amanhã em Curitiba e é o mais importante evento sobre o tema no Brasil, desde a Rio-92.
Uma das descobertas mais surpreendentes é o acréscimo de mais uma espécie à lista de baleias que ocorrem no litoral brasileiro. Com a baleia-bicuda-de-True encontrada em São Sebastião, São Paulo, sobe para 43 o número de espécies de baleias registradas na costa do Brasil.
- Essa descoberta mostra que os oceanos são nossa última fronteira. Desconhecemos até o que existe na costa. O registro de mais uma espécie é um dos mais importantes dos últimos anos e muda o conhecimento sobre nossa fauna - afirma um dos autores da descoberta, Salvatore Siciliano, pesquisador da Escola Nacional de Saúde Pública/Fiocruz e coordenador do Grupo de Estudos de Mamíferos Marinhos da Região dos Lagos. Siciliano fez a identificação da baleia, que encalhou e morreu na praia, em colaboração com integrantes do Instituto Terra e Mar de São Sebastião.
A baleia-bicuda-de-True chega a ter seis metros de comprimento e não se imaginava que pudesse chegar ao litoral brasileiro. Seu registro sairá em breve na revista científica "Global Marine Environment". Encontrar registros novos de animais tão grandes quanto baleias impressiona, mas não surpreende os cientistas. Nos últimos anos, descobriram-se não só novos registros mas novas espécies de peixes e invertebrados marinhos - como estrelas-do-mar, corais, lulas e crustáceos.
Oficialmente, por exemplo, há 1.300 espécies de peixes marinhos no Brasil. Mas os especialistas sabem que esse número é muitas vezes maior.
- Faltam equipamentos para explorar todo o potencial de nossa costa. O litoral brasileiro é pouco conhecido e extremamente diversificado - destaca Paulo Costa, da UNI-Rio e um dos coordenadores do Programa de Levantamento Potencial Sustentável de Recursos Vivos da Zona Econômica Exclusiva (Revizee), que desde 1995 realiza um inventário das espécies marinhas do Brasil.
O Revizee tinha como objetivo levantar os recursos pesqueiros, mas os pesquisadores acabaram por se deparar com uma diversidade geral muito superior à esperada. Em relação à pesca, porém, há más notícias. Diversidade não é sinônimo de abundância. Há muitas espécies, mas as populações, em geral, não são grandes.
- A maior parte dos estoques pesqueiros está esgotada e sem capacidade de aumento. A pesca tem que ser explorada com extremo cuidado - diz Costa.

AMAIS AMBICIOSA EMPREITADA PARA CONHECER A biodiversidade dos oceanos é o Censo da Vida Marinha, que reúne 1.700 cientistas de 75 países e deve estar concluído em 2010. Sua meta é nada menos que inventariar toda a vida no mar, inclusive os microorganismos, grupo que representa a maior biomassa da Terra. Hoje são conhecidas 230 mil espécies marinhas, um número infinitamente menor do que o real.
- O ser humano viu antes a Lua do que o fundo do mar, a vasta planície abissal, a mais de três mil metros de profundidade. Hoje sabemos que essa planície, antes considerada estéril, está cheia de vida. Criaturas de formas jamais imaginadas, que podem nos ensinar muito inclusive sobre a origem dos seres vivos - diz Lúcia de Siqueira Campos, professora do Departamento de Zoologia do Instituto de Biologia da UFRJ e uma das cientistas integrantes do censo no Brasil.
Ela estuda alguns dos ambientes mais hostis da Terra: fumarolas quentes de origem vulcânica e as chamadas fontes frias, formadas pela liberação de gases e depósitos de minerais que as tornam extremamente ácidas e sem oxigênio. As fumarolas podem atingir temperaturas de até 400 graus Celsius e algumas de tão quentes chegam a brilhar devido ao calor. Ainda assim, abrigam comunidades de organismos integradas por vermes de até dois metros que parecem flores, moluscos e outros animais que vivem associados como caranguejos e estrelas das profundezas. A energia para a sobrevivência dessas comunidades é produzida por bactérias que utilizam gases, sais e ácidos emitidos pelas fumarolas. As fontes frias, que se imaginava estéreis, também são o lar de outras tantas criaturas igualmente dependentes de microorganismos. Essas comunidades sobrevivem na mais completa escuridão, a muitas centenas de metros de profundidade - no mar a luz do Sol não penetra mais do que 200 metros.
- Essas criaturas podem nos ensinar muito sobre a evolução da vida na Terra e até mesmo como formas de vida poderiam surgir no espaço. É por isso que a Nasa está interessada no trabalho do censo - explica Lúcia.
Segundo ela, sabe-se muito pouco sobre essas fontes frias e quentes no mundo. No Brasil o conhecimento é quase zero, mas há indícios de que as frias existem nas bacias de Campos, Santos e na boca do Amazonas. As quentes podem ocorrer no remoto Arquipélago de São Pedro e São Paulo.
A representante do censo no Brasil, Erminda Ribeiro Couto, da Universidade Estadual de Santa Cruz, em Ilhéus (Bahia), destaca que o mar além das ondas é uma incógnita em quase todo o Brasil.
- Há tanto a descobrir. As maiores criaturas do planeta, lulas e grandes baleias, vivem no mar, inspiraram lendas de monstros marinhos e ainda sabemos quase nada sobre elas. A vida nos oceanos é mais variada do que a da terra firme. Para se ter uma idéia, numa coleta simples de camarões feita em Ilhéus encontramos duas espécies novas para o Brasil - observa Erminda.

REMÉDIOS E COSMÉTICOS DO FUNDO DO MAR
UMA PEQUENA ARRAIA ESCURA, EM FORMA DE CORAÇÃO, É A MAIS nova integrante da lista de peixes brasileiros. Ela foi coletada entre os estados do Rio de Janeiro e Espírito Santo, a cerca de 900 metros de profundidade. Como muitas espécies marinhas recém-identificadas, esta também é uma habitante das trevas. A arraia batizada como Malacoraja obscura foi identificada pelos pesquisadores Ulisses Gomes, da Uerj, Marcelo de Carvalho, da USP, e Otto Gadig, da Unesp.
- Esse grupo ainda é pouco estudado. Podemos descobrir mais tubarões e arraias - salienta Leite.
A descoberta de novas espécies também anima Guilherme Dutra, diretor do Programa Marinho da ONG Conservação Internacional. O grupo da CI estuda os recifes de corais de Abrolhos, na Bahia, onde há a maior diversidade marinha de todo o Atlântico Sul. A região reúne condições ideais de temperatura, profundidade e correntes marinhas e se transformou num oásis para centenas de espécies. Os corais-cérebro do gênero Mussismilia - que só existem no Brasil - são os principais construtores de cogumelos de 50 metros de diâmetro e 25 metros de altura. Só uma parcela reduzida dos Abrolhos, que se estendem por 56 mil quilômetros quadrados, foi estudada. Mas um levantamento feito pela CI e universidades brasileiras revelou a existência de pelo menos 1.300 espécies de peixes, crustáceos, corais, algas, poliquetas e moluscos. Outros grupos de animais ainda não foram investigados.
- Precisamos aprender a proteger essa fauna. Uma das ameaças é a exploração de petróleo. Se ela ocorrer, as conseqüências serão devastadoras - alerta Dutra.
O mar oferece outros tipos de riqueza. Estudos feitos no exterior revelaram numerosas substâncias extraídas de animais marinhos e com aplicação comercial. A mais famosa delas é a espongosina, que como indica o nome é originária de esponjas. Ela tem poderosa ação antiviral. Só a Instituição Oceanográfica Harbor Branch, na Flórida, já patenteou substâncias de cem espécies. A mais bem-sucedida delas se chama discodermolida, também veio de esponjas e é anticancerígena. Há uma esponja cuja estrutura inspirou fibras óticas que transmitem informação com mais eficiência. Outros compostos recém-descobertos de bactérias serão transformados em cremes protetores contra raios ultravioleta. Micróbios de fumarolas vulcânicas podem reduzir os custos de produção de etanol (álcool). Vermes que devoram ossos de baleias produzem um composto com ação detergente. Já o coral-bambu é visto como um substituto em potencial para próteses ósseas.

A CONFERÊNCIA
ENCONTRAR SOLUÇÕES PARA preservar e usar de forma sustentável a biodiversidade da Terra está longe de ser uma meta fácil. Mas é justamente para discutir essa questão que começa amanhã em Curitiba a 8ª Conferência das Partes da Convenção de Diversidade Biológica (COP8), organizada pelo Programa de Meio Ambiente das Nações Unidas com o apoio do governo brasileiro. São esperados representantes de 187 países e mais de cinco mil participantes.
A COP8 vai até o dia 31 e é o mais importante evento internacional sobre biodiversidade realizado no Brasil desde a Rio-92. Entre seus objetivos está encontrar formas de distribuir de forma justa os lucros obtidos com o uso dos recursos vivos. Outra meta é garantir os direitos dos povos tradicionais sobre o conhecimento a respeito de plantas e animais.
Para o Brasil, o país com maior biodiversidade do mundo, a conferência tem interesse especial. O Brasil abriga um quinto das espécies conhecidas da Terra. Porém, esse número pode ser muito maior, já que sequer existem inventários precisos sobre a maioria dos principais grupos de plantas, animais, fungos e microorganismos. O desconhecimento sobre o potencial de florestas, oceanos, Cerrado e Pantanal é imenso. O país sofre com degradação das áreas naturais e biopirataria, mas poderia lucrar muito com práticas sustentáveis de exploração e com regras internacionais sobre o acesso a espécies nativas.
Além das sessões plenárias oficiais, acontecerão na COP8 mais de 250 eventos paralelos promovidos por universidades, centros de estudo, ONGs e organizações oficiais brasileiras e estrangeiras.

O Globo, Revista O Globo, 19/03/2006, p. 18-23

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