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Ciência ajuda a alimentar o mundo

O Globo, Planeta Terra, p. 10-11
Autor: MUTEIA, Hélder
07 de Fev de 2012

Ciência ajuda a alimentar o mundo

RENATO GRANDELLE

Entrevista com Hélder Muteia

Representante no Brasil da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), o moçambicano Hélder Muteia destaca a enormidade do desafio que temos pela frente para alimentar a crescente população mundial - seremos 9 bilhões em 2050 - de forma sustentável e num mundo cada vez mais quente. Em 2009, um em cada 6 habitantes do planeta estava desnutrido. E entre 2010 e 2011, a produção mundial de cereais caiu 1,1%. Para o especialista, somente a ciência e a tecnologia poderão ajudar o mundo a estar à altura do desafio. "O Brasil tem um papel fundamental nisso, pois possui muito conhecimento na área agrícola e pode contribuir para o desenvolvimento sustentável".

O GLOBO: Em 2009, atingimos um triste recorde mundial, com 1,023 bilhão de pessoas desnutridas. Este índice deveu-se a fenômenos como a seca na Rússia. Com a projeção de que eventos climáticos extremos vão se tornar cada vez mais comuns, podemos esperar novos recordes de desnutrição num futuro próximo?
HÉLDER MUTEIA: Os desastres climáticos sem dúvida representam um risco enorme aos esforços de combate à fome mundial, a exemplo da terrível seca que atingiu a região do Chifre da África em 2011, a pior dos últimos 60 anos. Mas eles são apenas parte do problema, há outros fatores, como o aumento e a volatilidade dos preços dos alimentos, que causam prejuízos aos pequenos agricultores, os mais atingidos pela fome. Afinal, 75% das pessoas que passam fome no mundo estão no campo. Nossa esperança é que a fome diminua no mundo. Até 2015 esperamos ter menos do que 400 milhões passando fome. Mas para isso, o mundo precisa estar preparado para produzir alimentos de maneira sustentável. Acima de tudo, precisamos de uma nova plataforma institucional internacional, de novos atores com vontade política para combater a fome. Só recentemente, por exemplo, o G-20 incluiu o tema do combate à fome na agenda de discussões. Voltando aos desastres naturais, temos de nos preparar melhor para enfrentá-los e reduzir seus efeitos. Em um país de forte instabilidade social, um evento climático extremo tem um efeito devastador, como se observa em nações do continente africano. Isso gera aumento dos conflitos armados, o que dificulta muito o trabalho de ajuda humanitária nas regiões atingidas. Em áreas agrícolas, é preciso que haja um conjunto de ações que fortaleça o sistema produtivo no campo (acesso à terra, água, mercado e tecnologia ao pequeno produtor) e o uso de mecanismos de prevenção, como o mapeamento e a identificação do histórico de áreas atingidas.

O GLOBO: A produção de alimentos cresce hoje num ritmo que acompanha o crescimento da população?
MUTEIA: Nós temos muitos desafios. Como mencionei, a alta volatilidade de preços tem prejudicado muito nossos esforços. Apenas entre 2010 e 2011, ela empurrou cerca de 70 milhões de pessoas para a pobreza extrema, tornando-as ainda mais vulneráveis à fome. Também temos o desafio demográfico: em 2050 seremos 9 bilhões e a produção de alimentos deve crescer em 70%. Porém, entre 2010 e 2011, a produção mundial de cereais caiu 1,1% e o consumo aumentou em 1,9%. Isso afetou negativamente os estoques mundiais. Mas nós acreditamos numa recuperação sólida. Não só do ponto de vista da produção, mas também do acesso real aos alimentos pelas pessoas mais vulneráveis. O fortalecimento da produção e do consumo em âmbito local é uma peça-chave nesse mecanismo. Por meio dele, é possível combater a fome e dinamizar a economia ao mesmo tempo.

O GLOBO: Qual será, nas próximas décadas, o papel do Brasil na produção de alimentos? O crescimento de nossa produção, como é feita hoje, representa um risco ao meio ambiente, levando em consideração a expansão das fronteiras da agropecuárias para áreas de florestas?
MUTEIA: O Brasil é um país que aposta na agricultura. Essa aposta deve vir acompanhada de três elementos essenciais: sustentabilidade econômica, social e ambiental. A ciência já demonstrou que a base de recursos que nos alimenta tem os seus limites. O ambiente é feito de múltiplos sistemas que se sustentam em cadeia. Os solos, o fluxo das águas, a temperatura, as florestas, a fauna... Eles formam uma cadeia de sustentação. Qualquer desequilíbrio nessa equação pode comprometer a vida no planeta. A agricultura mal concebida e mal implementada acarreta riscos: desmatamento, emissão de gases-estufa, uso excessivo de agroquímicos e degradação de solos. A ciência deve nos ajudar a encontrar os melhores caminhos para uma vida mais sustentável em todos os níveis. E o Brasil tem um papel fundamental nisso, pois possui muito conhecimento na área agrícola. A ciência vai contribuir para o desenvolvimento sustentável. Ela é parte essencial da solução para a questão ambiental.

O GLOBO: O governo brasileiro investe em produtos transgênicos, fixação biológica de milho e cana-de-açúcar e nanotecnologia na agricultura. Como o senhor analisa a aplicação dessas tecnologias em alimentos?
MUTEIA: As instituições científicas têm a responsabilidade de encontrar as respostas tecnológicas e propor as soluções para aumentar a produção com sustentabilidade. Há regras mundiais e nacionais que orientam esse exercício. Nós apoiamos toda pesquisa que promova os objetivos de combater a fome, dentro da legalidade e de princípios éticos.

O GLOBO: Os transgênicos, como existem hoje, já são mal vistos por parte da população. No futuro, quando se difundirem ainda mais, podem provocar uma reação ainda maior?
MUTEIA: A engenharia genética é hoje prática comum dos institutos de pesquisa. Muito do que produzimos e consumimos hoje é resultado de pesquisa em biotecnologia. Sabemos que o assunto causa polêmica. Se essa polêmica vai prevalecer ou não, dependerá muito da capacidade da ciência provar a existência ou não de riscos em determinado setor, dependerá dos passos que a tecnologia poderá dar. E dependerá também da imagem que o público formar desses alimentos. Essa percepção é subjetiva, mas orienta o mercado. O importante é garantir que os alimentos transgênicos sejam devidamente rotulados. Estamos num mundo democrático, em que a livre escolha prevalece. O mesmo acontece com a questão relacionada à agricultura orgânica.

O GLOBO: Em outros países, investe-se em soluções ainda mais polêmicas, como carne produzida em laboratórios, ou na alimentação com insetos. A FAO tem uma posição em relação a estes projetos?
MUTEIA: Devemos respeitar três elementos essenciais: o científico, o cultural e o social. A ciência nos dá respostas sobre o valor nutritivo, riscos e limites. Por meio dela, sabemos como uma boa dieta deve ter equilíbrio entre valores energéticos, proteicos, vitamínicos e minerais. Sabemos os potenciais riscos e excessos, os níveis de toxicidade... A cultura nos orienta para aquilo que é aceitável em determinadas regiões. As serpentes são fontes proteicas em alguns lugares. A carne de porco e seus derivados são comuns em outras culturas. Já os insetos são consumidos com voracidade por muitos povos. Em certas partes da Ásia a proteína animal não é consumida. Somos seres sociais. As sociedades são guiadas por seus princípios. E a alimentação, como um direito, deve ser exercida com dignidade. A exploração de novas fronteiras alimentares não pode ultrapassar as fronteiras da nossa dignidade.

O Globo, 07/02/2012, Planeta Terra, p. 10-11

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