OESP, Especial, p. H5-H7
28 de Set de 2011
Cidades geram apenas 2,5% do lixo do planeta
Segundo especialista, para cada saco de lixo produzido em nossas casas, outros 60 já foram fabricados antes
Karina Ninni
Responsáveis pela produção anual de cerca de 4 bilhões de toneladas de lixo no mundo, as cidades representam apenas 2,5% do total de resíduos gerados no planeta - que atualmente estão em torno de 30 bilhões de toneladas/ano. A maioria é produzida pela pecuária, agricultura e mineração.
"Para cada saco de lixo produzido em nossas casas, há outros 60 que já foram gerados antes", estima o sociólogo Maurício Waldman, doutor em geografia e autor do livro Lixo - Cenários e Desafios (Ed. Cortez, 2010), indicado ao Prêmio Jabuti neste ano na categoria Ciências Naturais.
Apesar de constituírem a menor parte do lixo produzido no mundo, os resíduos sólidos urbanos ainda são um problema sério em países como o Brasil. "Nós mandamos para a compostagem apenas 2% do lixo orgânico urbano e reciclamos 13% da parte seca", diz Waldman.
Para efeito de comparação, a Índia, outro emergente, faz compostagem de 65% de seu lixo orgânico. "Agora se fala em políticas para lidar com o metano, gás gerado nos aterros. Mas temos de evitar que ele seja gerado, mandando o mínimo possível para o aterro."
O Brasil, que abriga 3% da população mundial, gera 5,5% do lixo do planeta. "Em parte porque o País está exportando commodities como minério, grãos, carne, etc. A mineração é responsável por 38% do lixo gerado no mundo e a pecuária e agricultura, juntas, por 58%", diz Waldman.
Reciclagem. Os números sobre reciclagem também deixam a desejar, e especialistas vêm se dedicando a quantificar o prejuízo de um sistema de coleta e de reaproveitamento falho.
O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) calculou as perdas em R$ 8 bilhões/ano. Mas o professor Sabetai Calderoni, autor do livro Os Bilhões Perdidos no Lixo (Ed. Humanitas, 1999), estima que os prejuízos somem US$ 10 bilhões ao ano. "Daria para fornecer cestas básicas mensais para todas as famílias pobres do País e ajudá-las a pagar a prestação de uma casa popular."
Ele diz ainda que as centrais de reciclagem têm vantagens sobre os aterros. "Elas ocupam uma área mil vezes menor que um aterro e a vida útil não acaba nunca. Além disso, o aterro tem de ser monitorado por anos após ser desativado", explica Calderoni, que é presidente do Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Sustentável e participou da elaboração da Política Nacional dos Resíduos Sólidos (PNRS).
Lei do lixo. Um elo particularmente complicado da cadeia de reciclagem é o catador, que geralmente vive em situação de risco. Promulgada em 2010, a PNRS tenta trazê-lo para a legalidade e inseri-lo formalmente na cadeia.
"É uma política amplamente discutida, sólida e que tem tudo para dar certo", diz.
"As cooperativas não têm dinheiro para esperar um mês para receber pelo resíduo. E os aparistas, intermediários, estão quebrando, porque agora, na legalidade, pagam imposto", diz o presidente da Associação Brasileira dos Recicladores de Embalagens PET, Edson Freitas.
Waldman destaca a importância dos catadores na cadeia de reciclagem. "Eles coletam 90% do material que retorna para a cadeia produtiva. Sem os catadores, teríamos mais 7 milhões de toneladas ao ano de lixo seco sendo desperdiçado no País."
Dos mais de 5 mil municípios brasileiros, apenas 142 mantêm convênios com catadores.
Novas tecnologias ajudam a reaproveitar resíduos
Apesar das dificuldades de lidar com os resíduos no Brasil, novas tecnologias de tratamento apontam caminhos para o seu reaproveitamento. Muitas vezes elas são polêmicas, como a queima direta de resíduos para a geração de energia, conhecida como WTE (Waste to Energy).
"É preciso julgar essas tecnologias comparativamente. Muita gente fala contra a queima direta, mas hoje as tecnologias de filtragem da fumaça da queima são muito eficientes. A fumaça vai para a atmosfera em padrões melhores do que aqueles resultantes da queima de combustível fóssil", diz Paulo Tupinambá, presidente da Haztec, uma das maiores operadoras de centrais de tratamento de resíduos do País.
A empresa tem projetos de duas plantas de WTE no Brasil. "A tecnologia mais usada no mundo é a chamada 'mass burning', em que se queima tudo junto", exlica Tupinembá.
"Queimar PET é o fim da picada. É uma sucata cara", opina o sociólogo Maurício Waldman.
Mas também há um sistema em que o lixo é dividido em orgânico molhado, orgânico seco, metálicos e não metálicos. Somente o orgânico seco - principalmente plástico, papelão e papel - vai para a queima.
A Haztec já gera energia a partir do biogás, uma outra tecnologia, no aterro desativado de São João, em São Paulo. "O biogás emitido vai para um motor que queima o metano e gera energia", explica Tupinambá. O CO2 do biogás vai para a atmosfera.
O aproveitamento do biogás é aplicável a aterros de cidades com mais de 300 mil habitantes. "Uma alternativa para os municípios são os aterros regionais, que recebam resíduos de várias cidades", diz Tupinambá.
A Haztec fornecerá para a Petrobrás todo o metano do aterro de Nova Gramacho, no Rio, por 20 anos. "Estamos desenvolvendo um sistema pioneiro de separação do metano do CO2 para vender só o metano."/ K.N.
Retrato
Entre 2008 e 2009, a população brasileira cresceu 1%. No mesmo período, a produção de lixo aumentou em velocidade ainda maior: 6,6%.
Em 2009, os aterros sanitários eram o destino de apenas 54,9% dos resíduos sólidos domiciliares produzidos no Brasil.
Um PC gera, em média, 63 quilos de lixo, sendo 22 de materiais tóxicos.
Cerca de 12% do metano brasileiro é gerado por lixões. O consumo de metais ao redor do mundo cresceu cerca de sete vezes entre 1950 e 2008.
Consumo global cresce mais que a população
De acordo com a última versão do relatório O Estado do Mundo, publicado no ano passado pelo The Worldwatch Institute com versão brasileira confeccionada e divulgada pelo Instituto Akatu pelo Consumo Consciente, nos últimos 50 anos o consumo cresceu seis vezes, ao mesmo tempo em que a população cresceu apenas 2,2 vezes. Em outras palavras: o consumo por pessoa cresceu três vezes.
Segundo o relatório, em 2006, pessoas no mundo todo gastaram US$ 30,5 trilhões em bens e serviços (em dólares de 2008). Em 1996, esse número foi de US$ 23,9 trilhões e em 1960 a humanidade consumiu o equivalente a US$ 4,9 trilhões. Só em 2008, pessoas no mundo todo compraram 68 milhões de veículos, 85 milhões de geladeiras, 297 milhões de computadores e 1,2 bilhão de celulares.
Atualmente, a ONU estima um passivo de equipamentos eletrônicos de 480 mil toneladas de computadores, 8,6 mil toneladas de celulares e 1,1 milhão de toneladas de aparelhos de TV.
Desperdício. A velocidade com que os produtos duráveis ficam obsoletos vem aumentando. E o desperdício aumentou também. Um bom exemplo são os aparelhos celulares. Em 2007, as pesquisas indicavam que o brasileiro trocava de celular, em média, a cada dois anos. Hoje, troca a cada 1 ano e 4 meses.
O resultado de tanto desperdício é que o uso dos recursos naturais está ultrapassando a capacidade que o planeta tem de provê-los. Entre 1950 e 2005, por exemplo, a produção de metais cresceu 6 vezes, a de petróleo, 8, e o consumo de gás natural, 14 vezes. No século 20, a produção de carvão aumentou 6 vezes e a de cobre, 25 vezes. Entre 1960 e 2000, a produção de plástico aumentou 41 vezes.
"Um automóvel hoje emprega o dobro do cobre que utilizava há dez anos", afirma o sociólogo Maurício Waldman. "Não tem como a reciclagem dar conta se continuamos produzindo resíduos nessas proporções."
Hoje, são extraídas 60 bilhões de toneladas de recursos anualmente - cerca de 50% a mais do que há apenas 30 anos. O europeu médio usa 43 quilos de recursos diariamente, e o americano médio, 88 quilos. Atualmente, o mundo extrai o equivalente a 112 edifícios Empire State da Terra a cada dia.
"Os EUA são um mercado altamente gerador de lixo e, com a entrada dos produtos asiáticos, a próprias fábricas estão virando sucata", afirma Adriano Assi, diretor executivo da EcoBrasil.
Mais ricos. O relatório O Estado do Mundo mostra que os 16% mais ricos do mundo são responsáveis por cerca de 78% do consumo mundial. O que quer dizer que os 84% restantes são responsáveis por apenas 22% do consumo do planeta. / K.N.
OESP, 28/09/2011, Especial, p. H5-H7
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