OESP, Vida, p. A17
18 de Jan de 2012
Cidade amazônica abriga castanheiro
Fazenda tem mais de 1 milhão de árvores da espécie, com corte proibido desde 1994
FERNANDA YONEYA , ENVIADA ESPECIAL , ITACOATIARA (AM)
A paisagem no pequeno município de Itacoatiara, a cerca de 200 quilômetros de Manaus, impressiona: numa área de 4 mil hectares, um castanhal com mais de 1 milhão de árvores plantadas. Os exemplares do imponente castanheiro-do-pará - alguns têm 60 metros de altura - fazem parte de um projeto pioneiro de cultivo da Bertholletia excelsa no País, iniciado há quase 30 anos.
O castanhal pertence à Fazenda Aruanã, que, além de investir no cultivo, pesquisa material genético, produz mudas e processa a amêndoa, de forma a garantir a rastreabilidade do produto, do campo à embalagem final. A ideia de cultivá-la foi do agrônomo Sérgio Vergueiro, que fez os primeiros plantios na região há 30 anos.
A ida de Vergueiro à Amazônia tinha como objetivo a criação de gado, mas a área degradada da fazenda o fez investir na árvore-símbolo da região. "Naquela época, não havia nenhum tipo de informação sobre cultivo de castanheiro-do-pará", lembra o engenheiro agrônomo Gabriel Teixeira de Paula Neto, diretor técnico da fazenda.
Ao todo, a Aruanã possui 1,38 milhão de castanheiros. Desse total, 380 mil árvores são destinadas à produção de castanha orgânica - foi a primeira certificação de castanha orgânica do Instituto de Tecnologia do Paraná (Tecpar) -; o restante tem como finalidade a reposição florestal. Rústica e de crescimento lento, a espécie leva cerca de 15 anos para se tornar adulta, com produção regular de frutos a partir dos 12.
Na região, a coleta dos ouriços, como são chamados os frutos da árvore, é feita de dezembro a maio. "Em maio, para de chover e os castanheiros entram na entressafra", diz o engenheiro florestal Roberval Monteiro Bezerra de Lima, pesquisador da Embrapa Amazônia Ocidental, em Manaus.
A Aruanã colheu a terceira safra no ano passado. Em 2010, a produção foi de 6 mil latas de castanhas (cada lata contém 60 unidades) e, em 2011, de um total de 50 mil árvores, foram produzidas 10 mil latas. Os primeiros plantios da Aruanã começaram em 1981. De lá até a produção da primeira lata, passaram-se 29 anos.
Processamento. Depois da coleta do ouriço no campo, ele é lavado e registrado, com informações sobre origem e data da coleta. Um castanheiro silvestre, explorada para fins extrativistas, dá pelo menos 4 mil ouriços e cada um pode conter até 20 castanhas. De lá, os ouriços são levados a um paiol suspenso, onde ficam depositados.
O processo de retirada da castanha do ouriço exige força e extrema habilidade. Munidos de um terçado, funcionários encaixam o ouriço numa base de madeira e cortam a "tampa", como quem abre um coco verde para retirar a água. Cada funcionário abre até mil ouriços por dia. Tamanha é a precisão que dois ou três golpes são suficientes.
Ainda com casca, as castanhas são pré-selecionadas e vão para uma secagem prévia num cilindro rotativo. Depois, vem a classificação por tamanho. Passam então por outra secagem e vão para o descascamento manual. Finalmente, são submetidas a uma terceira secagem.
Trabalho minucioso e delicado, a retirada da película que envolve cada amêndoa é feita só por mulheres. Instaladas em ambiente climatizado, com ar condicionado, e munidas de uma pequena faca, dez habilidosas mulheres descascam, por dia, de 400 a 500 castanhas. "Ficar no ar condicionado é mais confortável, mas o trabalho é artesanal e exige muita atenção", dizem as funcionárias Roseane Viana Moura e Iolene de Souza Pereira.
Viveiro da Aruanã produz 70 mil mudas
ITACOATIARA (AM)
Na Amazônia, é comum ver imensos castanheiros isolados, resultado da proibição legal do corte da árvore, determinada em 1994. Segundo o Ibama, não há número estimado de castanheiros no Brasil, mas mais de 90% das castanhas vendidas vêm de sistemas de extrativismo. "O Acre possui a melhor infraestrutura de extração, coleta e processamento", diz o agrônomo Gabriel Teixeira de Paula Neto. Amapá, Pará, Roraima e Rondônia também têm produção.
O viveiro da Aruanã produz 70 mil mudas de castanheiros; no jardim clonal ficam as matrizes, consideradas as melhores árvores. São 6,4 mil castanheiros que servem de base genética para novos plantios. Ao longo dos anos, a Aruanã aperfeiçoou a enxertia do castanheiro, método de propagação pelo qual a planta enxertada será semelhante à planta matriz. Hoje, há cerca de 300 mil árvores enxertadas.
Técnica. A técnica da enxertia do castanheiro foi aprimorada graças a pesquisadores como Carlos Hans Müller, da Embrapa Amazônia Oriental, e Charles Clement, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa). Hoje, porém, quem domina a técnica e a difunde nas comunidades rurais da região é o administrador da Aruanã, Raimundo Nonato Paes Chaves. Com a experiência de milhares de enxertos realizados e conhecedor como poucos do castanhal da fazenda, Nonato até elaborou uma cartilha. "A cartilha serve de guia para produtores das comunidades rurais", diz.
Em 2010, 801 famílias, de 62 comunidades, plantaram mais de 350 mil árvores, entre castanha e palmito pupunha. "A ideia é promover o desenvolvimento sustentável da região por meio do plantio em parceria com comunidades rurais", diz a sócia-gerente da Econut, marca da castanha produzida na Aruanã, Ana Luiza Vergueiro. / F.Y.
OESP, 18/01/2012, Vida, p. A17
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