OESP, Negocios, p.B18
29 de Out de 2004
Ciclo de alta nos preços da terra começa a se esgotar
Queda na rentabilidade dos grãos projetada para 2005 deve interromper procura por áreas no cerrado
Renato Stancato
O ciclo de alta dos preços de terras no Brasil chegou ao fim. A avaliação é de analistas do agronegócio. Eles acreditam que a perda da rentabilidade da produção de grãos projetada para 2005 deve interromper a corrida por terras nas regiões produtoras do Cerrado.
Pesquisa da FNP Agroinformativos mostra que o preço das terras no Brasil subiu 113% de novembro/dezembro de 2001 a julho/ agosto de 2004. O levantamento, que avalia o comportamento de 133 regiões produtoras do Brasil, mostra que as terras do Centro-Oeste, com valorização de 164%, lideraram a alta. "A alta dessa região foi provocada pela forte lucratividade da soja", diz o diretor técnico da FNP, José Vicente Ferraz.
O mesmo levantamento da FNP, entretanto, mostra que essa alta já perdia o fôlego no período de julho/agosto de 2003 a julho/ agosto de 2004. "Se observarmos esse período, notamos que a valorização de terras do Centro-Oeste ficou em 31 %, enquanto a alta foi de 58% no Sul e de 37% no Norte", diz.
Algumas regiões voltadas para a produção de soja já figuram entre aquelas de maior desvalorização naquele período. Aripuanã, município que produz soja no meio-norte do Mato Grosso, registrou uma queda de 46% na cotação do hectare. As "terras de mata com fácil acesso", geralmente compradas por agricultores para desmatamento e plantio de grãos, recuaram de R$ 300 por hectare para R$ 162 por hectare no período. "Foi a terceira maior queda do período", diz Ferraz. "Aripuanã só perdeu para regiões do Nordeste em que houve projetos de irrigação que fracassaram."
A região de Passo Fundo, grande pólo produtor do Rio Grande do Sul, também teve queda significativa: o hectare de terra de soja com alta produtividade recuou 25%, passando de R$ 12.697 por hectare para R$ 9.584/hectare.
Ferraz observa que a queda dos preços de terras destinadas à soja está se generalizando apenas nos últimos meses. Isso ocorre porque essas terras não são cotadas em reais, mas em sacas de soja por hectare. "Como o preço da soja recuou nos últimos meses, o preço das terras recuou na mesma proporção." O diretor técnico da FNP observa que esse mesmo movimento é observado no mercado de arrendamento de terra. "Independentemente do que se vai plantar, o contrato de arrendamento no Centro-Oeste é feito em sacas de soja por hectare", explica. Para Ferraz , apesar da perda monetária, o locador da terra não tem condições de reajustar o contrato.
Segundo Ferraz, o preço das terras de soja deve começar a cair também em sacas do produto por hectare em 2005. "A se confirmar um cenário de baixa rentabilidade na colheita, alguns produtores poderão pôr à venda parte de suas terras", diz. Ele destaca, entretanto, que essa tendência de queda só deve ocorrer em terras voltadas para a produção de grãos e algodão, commodities que estão em ciclo de baixa. `Regiões voltadas para a cana-de-açúcar, pecuária e reflorestamento têm cenário positivo."
A professora Inês Lopes, da Fundação Getúlio Vargas, não acredita que o preço das terras caia nos pólos produtores de grãos. "O preço dos arrendamentos pode até cair, mas acho que o mercado de terras deve resistir." Segundo Inês, a perda de rentabilidade da soja é conjuntural. "Olhando para o longo prazo, porém, os agricultores sabem que o cenário é posivo", diz.
Ela lembra que a soja é utilizada para alimentar animais.
"Enquanto o consumo de carne continuar crescendo no mundo, o mercado para a soja continuará se expandindo." Por causa disso, a professora não acredita que o produtor queira liquidar seus ativos. "Um aumento de oferta de terras só ocorre mesmo quando o cenário de longo prazo é negativo. É mais provável que os preços da terras fiquem estáveis agora.'
Arrendamento assegura produção em Uberaba
Raquel Massote
Os preços das propriedades rurais na região na região de Uberaba, no Triângulo Mineiro, subiram demais, segundo José Humberto Guimarães, coordenador nacional da Bolsa de Arrendamento de Terras. "Atualmente há muita oferta e pouca compra, porque os valores das propriedades não condizem com a realidade.
Por causa da queda de demanda, as propriedades, que chegaram a ser adquiridas por R$ 12 mil o hectare, hoje são ofertadas por R$ 5 mil o hectare e não há compradores", diz ele. Aquelas que estão com pastos degradados são cotadas a R$ 2,5 mil o hectare e as localizadas próxima a rodovias, R$ 3 mil o hectare.
Crescimento
A Bolsa de Arrendamento, entidade instalada há 22 anos em Uberaba, acredita que o sistema de arrendamento vai continuar crescendo mesmo com a queda de preços de grãos. A expectativa é de crescimento em torno de 5% na próxima safra, mesmo índice de aumento esperado na área plantada de grãos, nos municípios de abrangência da bolsa. Mas o custo do arrendamento deverá cair.
No ano passado, a bolsa intermediou acordos para o plantio de 4 mil hectares de novas lavouras. O município, segundo o coordenador, tem 450 mil hectares de áreas agricultáveis, dos quais 150 mil hectares ocupados por lavouras de grãos (100 mil hectare de soja e 40 mil hectares de milho). Deste total, 75% das propriedades são arrendadas.
De acordo com Guimarães, ainda não se verifica tendência de os produtores migrarem da soja para outras culturas. Ele aponta que o grão é a atividade mais atrativa para os proprietários de terras, principalmente os pecuaristas, que vêem na parceria a possibilidade de recuperação de pastagens e a cobertura de parte dos custos com a pecuária.
Lucas do Rio Verde passa por período de ressaca
Lucas do Rio Verde, no meio-norte do Mato Grosso, vive um período de ressaca após a forte alta das terras na safra passada. Entre o fim de 2003 e os primeiros meses de 2004, dispararam os preços de terras e do arrendamento, segundo Helmute Lawisch, presidente do Sindicato Rural do município. "Houve uma grande procura de terra para plantio de soja e de algodão, e os preços ficaram completamente fora da realidade", afirma.
Historicamente, o preço do arrendamento de terra já pronta para cultivo em Lucas do Rio Verde é de 6 sacas de soja por hectare. "Mas, no ano passado, houve contratos de 10 sacas e até 12 sacas por hectare", diz. No segundo semestre deste ano, Lawisch diz que os preços já estão voltando ao normal. "Já saíram contratos de arrendamento a 8 sacas por hectare e a 7 sacas por hectare", conta. "Esperemos que o preço volte para 6 sacas por hectare."
O preço das terras na região também teve uma forte valorização na safra passada, segundo o agricultor. "O hectare de uma terra já aberta e 80% utilizável próxima da estrada chegou a ser negociada a R$ 400 em um negócio do início do ano." Segundo Lawisch, o preço para uma terra desse tipo seria de R$ 250 por hectare em anos anteriores.
Balanço das commodities
Período do 22 a 28 de outubro
Soja Os preços da soja seguem pressionados pela supersafra norte-americana. O ritmo de comercialização é lento tanto para o produto da safra remanescente quanto nas vendas futuras para o próximo ano
Trigo Os preços continuam em queda, apesar dos mecanismos de apoio à comercialização lançados pelo governo. Com o avanço da colheita, a indústria resiste em pagar os preços pedidos, de R$ 380/t no PR e de R$ 360/t no RS
Café A escassez de grãos de qualidade nesta safra e a gradual redução dos estoques sustentam ganhos no mercado de café. O contrato de dezembro na Bolsa de Nova York subiu 2,85% nos últimos sete dias, fechando ontem a 77,70 cents
Boi A redução das escalas de abate dos frigoríficos, em função do feriado da próxima semana e da menor oferta de animais confinados, dão sustentação aos preços do boi gordo. A tendência é de alta
Cacau A cotação do cacau subiu nas bolsas de Nova York e Londres por conta da ameaça dos produtores da Costa do Marfim de realizar um novo bloqueio nos portos do país na terça-feira. Querem um aumento no preço mínimo pago pelos exportadores
Milho As cotações do milho mantiveram-se estáveis. Os grandes consumidores do cereal estão fora de mercado, consumindo seus estoques. Como a oferta diminuiu, praticamente não há negócios
OESP, 29/10/2004, p. B18
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