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Chuva volta a assustar a Região Serrana

O Globo, Rio, p. 15
14 de Nov de 2012

Chuva volta a assustar a Região Serrana
Em Nova Friburgo, cerca de 20 casas são atingidas por deslizamentos. Cinco sirenes não funcionaram

RENATA LEITE
renata.leite@oglobo.com.br
TAÍS MENDES
tais@oglobo.com.br

O temporal que atingiu a Região Serrana desde a noite de segunda-feira deixou Nova Friburgo em alerta máximo durante todo o dia de ontem. A chuva alcançou 113 milímetros na cidade em 24 horas, o equivalente ao esperado para 20 dias no mês de novembro. Foram acionadas todas as 35 sirenes em 24 comunidades, e moradores de áreas de risco tiveram que deixar suas casas. Cinco sirenes não funcionaram e precisaram ser acionadas manualmente. A localidade de Três Irmãos, no distrito de Conselheiro Paulino, foi uma das mais atingidas. Dois deslizamentos de pedras destruíram cerca de 20 casas, segundo a Defesa Civil de Friburgo. Pelo menos duas pessoas ficaram feridas sem gravidade. Um homem desapareceu na cidade vizinha de Trajano de Moraes, que acabou inundada. Ele pode ter sido levado pelas águas.
RUAS ALAGADAS EM FRIBURGO
Morador de Nova Friburgo, o deputado federal Glauber Braga (PSB-RJ) classificou o deslizamento de pedras em Três Irmãos como uma tragédia anunciada. Ele disse que os riscos do local já eram conhecidos desde a enxurrada que devastou boa parte da Região Serrana em janeiro de 2011. O governo federal liberou R$ 38,3 milhões para o estado realizar intervenções na região em outubro do ano passado, mas as obras ainda não começaram:
- Fiz uma reunião com os moradores da comunidade em março, e todos estavam muito preocupados com a morosidade desse processo.
A Secretaria estadual de Obras alegou que a Caixa Econômica Federal não autorizou o governo do estado a fazer essa obra em caráter de emergência. Por isso, foi necessário realizar uma licitação, que ocorreu no último dia 5. A previsão é que as obras tenham início nos próximos dias.
A prefeitura de Nova Friburgo disponibilizou 101 pontos de apoio para as famílias. Ontem à tarde, cerca de 30 pessoas ainda estavam instaladas num desses locais, no bairro Floresta, no distrito de Conselheiro Paulino.
No Centro da cidade, ruas ficaram inundadas. Segundo a Defesa Civil do município, os alagamentos foram provocados pelas águas que desceram das encostas e não tiveram para onde extravasar, já que o Rio Bengalas estava no nível máximo.
O Instituto Estadual do Ambiente (Inea) também acionou a sirene do sistema de alerta de cheias em dois rios da região. Além do Bengalas, o Rio Grande permaneceu em alerta desde as 9h de ontem. Mas não houve registro de transbordamento.
A queda de uma barreira interditou parcialmente a Rodovia RJ-130, que liga Nova Friburgo a Teresópolis, na localidade do Campo do Coelho. Por causa da chuva, as obras em todo o trecho da RJ-116 (Itaboraí-Friburgo-Macuco) foram suspensas na manhã de ontem.
O vice-governador Luiz Fernando Pezão foi ontem ao Palácio do Planalto para uma reunião sobre prevenção a desastres naturais com a ministra-chefe da Casa Civil, Gleisi Hoffmann, e com o ministro das Cidades, Aguinaldo Ribeiro. Em função das fortes chuvas na Região Serrana, o encontro, que seria apenas para tratar de prevenção, acabou servindo também para conseguir apoio do governo federal no auxílio às famílias da região que já sofreram o impacto das chuvas ontem.
O secretário nacional de Defesa Civil, Humberto Viana, afirmou, ao fim do encontro, que seis especialistas em avaliação de desastres embarcariam para o Rio com a missão de avaliar a situação in loco. Os técnicos terão ainda a tarefa de dimensionar o número de famílias atingidas, que deverão receber cestas básicas através da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab).
No Rio, o principal transtorno foi causado pelo fechamento do Aeroporto Santos Dumont para pousos e decolagens, por mais de uma vez ao longo do dia. Já o Aeroporto Internacional Tom Jobim funcionou com auxílio de instrumentos.

EM 2011, MAIS DE 900 MORTOS

Quando a previsão aponta a possibilidade de chuvas no Estado do Rio, as atenções se voltam para a Região Serrana, que foi devastada em janeiro de 2011 por uma enxurrada que matou 918 pessoas, deixou cerca de 200 desaparecidos e mais de oito mil desabrigados. Esse foi o maior desastre natural do país, levando municípios, em especial Nova Friburgo, Teresópolis e Petrópolis, ao estado de calamidade pública.
Na época, especialistas chegaram a comparar os efeitos das chuvas, que soterraram bairros inteiros, com os de uma tsunami.
À enxurrada, seguiu-se uma onda de corrupção tão devastadora quanto as águas.
O desastre natural acabou no centro de uma investigação do Ministério Público Federal (MPF)que trouxe à tona um esquema envolvendo empresários e servidores para desviar recursos públicos da União.
Entre as denúncias do MPF após a tragédia, uma aponta o reajuste de propina. Em vez dos 10% habituais, a administração municipal de Teresópolis havia passado a cobrar até 50% depois da tragédia, segundo revelaram as investigações.
Um ano e dez meses depois da enxurrada, o MPF voltou a se manifestar em relação ao caso.
Dessa vez, o órgão instaurou um inquérito civil público visando a cobrar medidas do governo do estado na localização e identificação de pessoas ainda desaparecidas na Região Serrana.

O Globo, 14/11/2012, Rio, p. 15

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