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China busca desenvolvimento limpo

OESP, Economia, p. B11
06 de Mar de 2008

China busca desenvolvimento limpo
Governo anuncia mudança na política econômica, com restrições para indústrias poluentes e estimulo à inovação

Cláudia Trevisan

A China anunciou ontem que vai usar um arsenal de medidas econômicas para mudar seu padrão de desenvolvimento, com restrição de crédito e de investimentos a setores poluentes, grandes consumidores de energia e com excesso de capacidade de produção. Também dará estímulos para setores de alta tecnologia e inovação que favoreçam a conservação de recursos naturais.

Além de direcionar o crédito interno, o governo vai privilegiar o investimento estrangeiro direto (IED) em setores que pretende desenvolver e coibi-lo naqueles considerados nocivos. Também continuará a utilizar controles administrativos para determinar o fechamento de indústrias indesejadas.

"Nós devemos dar prioridade à qualidade, mais que à velocidade do desenvolvimento, e acelerar o aperfeiçoamento do padrão de desenvolvimento econômico", afirmou o primeiro-ministro Wen Jiabao, em discurso de duas horas e meia com o qual abriu a reunião anual do Congresso Nacional do Povo, o parlamento chinês.

Wen fez um balanço dos últimos cinco anos e traçou as metas para 2008. Segundo ele, o governo fechou no ano passado usinas térmicas poluentes com capacidade de 21,57 milhões de quilowatts (KW), 11.200 pequenas minas de carvão, usinas de fundição de ferro com capacidade de 46,59 milhões de toneladas por ano, plantas que fabricavam 87 milhões de toneladas por ano de cimento e siderúrgicas defasadas que geravam 37,47 milhões de toneladas de aço por ano - volume que supera a produção anual de todo o setor siderúrgico brasileiro.

A meta para 2008 é fechar usinas térmicas que produzem 13 milhões de KW, plantas de cimento com capacidade de 50 milhões de toneladas/ano, siderúrgicas que produzem 6 milhões de toneladas/ano de aço e fundições de ferro com capacidade de 14 milhões de toneladas/ano. São todos setores poluentes ou que consomem muita energia.

A China paga um alto preço ambiental pelo crescimento médio de 10,6% ao ano durante as últimas três décadas: 16 das 20 cidades mais poluídas do mundo estão no país, a maioria dos rios está contaminada, 30% do território têm chuva ácida e doenças relacionadas à poluição estão entre as principais causas de mortes.

O que o governo tenta fazer agora é limitar o crescimento de indústrias altamente poluentes e consumidoras de energia e desenvolver setores mais modernos, como o de serviços e alta tecnologia.

A política já teve efeito no direcionamento do IED, que no ano passado somou US$ 74,8 bilhões. Desse total, 47% foram destinados ao setor terciário, que inclui serviços como bancos, telecomunicações e comércio, áreas que o governo quer promover. Em 2003, esse percentual era de 25%. Naquele ano, 73% do IED foi destinado ao setor industrial.

O primeiro-ministro previu que o crescimento econômico neste ano será de 8%, mas as metas que ele apresentou nos últimos cinco anos sempre foram superadas. Em 2008, a expansão do PIB chinês deve ficar em torno de 10%.

A inflação está no topo das preocupações e a estimativa é que o ano feche em 4,8%, mesmo índice de 2007. Por enquanto, a inflação está bem acima da meta e foi de 7,1% no mês de janeiro. O aumento "energético" das importações será um dos instrumentos para controlar a alta de preços, por meio do aumento da oferta de bens à disposição dos chineses, que vêem sua moeda ganhar valor a cada dia em relação ao dólar.

Mas o governo pretende realizar uma mudança mais ampla na estrutura de comércio exterior, com estímulo às exportações de marcas genuinamente chinesas e de produtos que tenham propriedade intelectual desenvolvida no país. Nos últimos 30 anos, a China se transformou na "fábrica do mundo", em razão da transferência de linhas de montagem para o país ou da produção, por encomenda, de produtos que recebem marcas estrangeiras.

Agora a China quer ter suas próprias marcas de exportação e entrar no time de países que possuem número expressivo de invenções próprias. Para isso, o investimento em pesquisa e desenvolvimento deverá subir de 1,49% do PIB para 1,6% em 2008, cerca de US$ 60 bilhões.

O Partido Comunista continua preocupado com o risco de superaquecimento da economia e o crescimento descontrolado dos investimentos em ativos fixos. Em 2007, os investimentos tiveram alta de 24,8%, o que ainda é considerado preocupante. "A China experimentou, em anos recentes, crescimento superaquecido nos investimentos em ativos fixos, excessiva oferta de dinheiro e crédito e desequilíbrio no balanço de pagamentos", ressaltou Wen.

Diante do risco de descontrole, o governo manterá uma política monetária apertada e deverá reduzir a quantidade de dinheiro em circulação na economia por meio da emissão de títulos e do aumento do depósito compulsório, que é a quantidade de recursos que as instituições financeiras devem deixar imobilizada no banco central, o que impede a sua destinação para o crédito.

192 mil quilômetros de estradas em apenas 5 anos

Cláudia Trevisan

Os últimos cinco anos viram uma explosão de projetos de infra-estrutura na China. O programa de construção de estradas, por exemplo, elevou o país ao segundo lugar mundial em extensão de auto-estradas, atrás apenas dos Estados Unidos.

Só nos últimos cinco anos, foram construídos 192 mil quilômetros de rodovias, dos quais 28 mil quilômetros são de vias expressas, disse o primeiro-ministro, Wen Jiabao, no discurso de abertura do Congresso Nacional do Povo, que termina dia 18 de março.

A capacidade de geração de energia aumentou em 350 milhões de kW no período, o equivalente a toda a capacidade construída entre 1950 e 2002. Novas linhas de trem em operação somam 6.100 quilômetros e nada menos que 494 milhões de pessoas se tornaram usuárias de serviços de telecomunicações.

OESP, 06/03/2008, Economia, p. B11

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