O Globo, Economia, p. 30
Autor: MARTENS, Joots
19 de Nov de 2008
Chance para produção e consumo sustentáveis
Entrevista Joots Martens
Um momento único para que empresários e consumidores trabalhem juntos para pôr a economia de volta nos trilhos. Mas, desta vez, num caminho sustentável. É assim que o novo diretor geral da Consumer International (CI), Joots Martens, vê a crise financeira global. Com larga experiência em organizações nãogovernamentais - Martens, vem de oito anos na Oxfam Great Britain, entidade voltada ao combate à pobreza -, o executivo assumiu o cargo em 23 de outubro, com a missão de gerenciar a rede mundial de organizações ligadas à CI (220 entidades, em 115 países) e expandir a visibilidade delas através de campanhas globais. Em tempo de recessão, aos consumidores, recomenda cautela e engajamento.
Luciana Casemiro
O Globo: Em sua mensagem de chegada à Consumers International (CI), o senhor disse que nunca houve momento mais importante do que o atual para que se brigasse pelos direitos universais dos consumidores. O que mudou?
Joots Martens: desaceleração financeira afetará a todos nós: o acesso do consumidor ao crédito, fundo de pensões, gastos públicos e o preço dos produtos essenciais.
Tudo enfrentará um futuro turbulento e incerto. Tanto faz que você seja um consumidor na Europa ou na África subsaariana, a situação econômica global terá impacto na poupança, nos gastos e no acesso a produtos e serviços. Sobretudo consumidores vulneráveis e em desvantagem em todo mundo sofrerão desnecessariamente devido ao comportamento das corporações transnacionais combinado a uma regulação frouxa. Nesse sentido, os direitos dos consumidores são de crucial importância e devem estar no coração dos esforços para colocar a economia de volta aos trilhos.
A atual crise mundial pode acelerar uma mudança no comportamento de consumo?
Martens: A desaceleração oferece novas oportunidades para modelar a trajetória da economia mundial.
Isto pode ser visto como uma oportunidade única para promover a produção e o consumo sustentáveis com um meio eficiente de reformar nosso sistema financeiro e colocá-lo de volta aos trilhos, enquanto também tratamos urgentemente da vital questão da mudança do clima. Nesse sentido, indiscutivelmente, nunca houve melhor oportunidade para que empresários e consumidores atuem em um caminho sustentável.
A crise financeira mundial levou os governos a adotarem ações coordenadas. Essa nova postura aumenta a necessidade das entidades de consumidores terem estratégias globais?
Martens: Os negócios são multinacionais, os governos agem com multilateralidade, por isso também é vital que o movimento de consumo também trabalhe globalmente. A CI existe justamente para possibilitar que organizações de consumo nacionais façam isso. Muito do nosso trabalho envolve a promoção de causas comuns, como o fim das propagandas de junk food para crianças ou para que a indústria farmacêutica faça um marketing responsável. Como o trabalho dessas indústrias atravessa as fronteiras, isto somente pode se feito efetivamente numa escala global.
Há risco de que essa recessão torne ainda mais complicado o já precário financiamento das entidades que defendem o consumidor?
Martens: A CI e suas organizações membros nunca tomaram dinheiro das empresas, então o patrocínio corporativo não irá nos afetar. É nossa esperança que surjam outras fontes de recursos como órgãos multilaterais, governamentais e recursos de fundações que vejam a importância de uma defesa do consumidor fortalecida e bem pesquisada nesses tempos de volatilidade da economia global.
O abalo global do sistema financeiro mostrou a insustentabilidade desse e de outros mercados. É possível que os consumidores participem da reconstrução desses sistemas de forma a torná-los mais justos e sustentáveis?
Martens: Certamente. A voz do consumidor precisa estar no coração das decisões políticas. A CI e suas organizações membros têm consistentemente cobrado mais responsabilidade das corporações, regulações próprias, transparência e responsabilidade.
Temos chamado a atenção para que sejam feitos esforços nas políticas governamentais para a proteção do consumidor, da sustentabilidade e do acesso justo. Se esses princípios tivessem sido aplicados no nosso sistema financeiro não estaríamos nessa confusão agora.
Há quem diga que a crise mal começou. Que recomendações o senhor daria aos consumidores para que atravessem essa tempestade?
Martens: Os consumidores precisam agir responsavelmente e não ultrapassar os limites dos seus orçamentos.
Procurem pelas organizações nacionais de consumidores de seu país para obter orientações imparciais sobre produtos e serviços e entender seus direitos como consumidor.
Como o senhor vê o movimento consumerista brasileiro? Quais, na sua visão, são os maiores desafios que os consumidores brasileiros?
Martens: O movimento de consumidores no Brasil tem desempenhado um papel de liderança no desenvolvimento regional e internacional há muitos anos. A líder do Idec, Marilena Lazzarini, foi presidente da CI de 2003 a 2007. As organizações brasileiras têm se envolvido em várias campanhas e programas da CI, do lixo eletrônico à produção sustentável de café, até o nosso último estudo sobre o marketing de cereais para o café da manhã perniciosos para crianças. No Brasil, assim como em muitos países do Sul do planeta, a questão para a maioria dos consumidores ainda é o acesso aos serviços essenciais como água, eletricidade e assistência à saúde. Há também problemas reais como déficit de consumo, especialmente entre os pobres. A Consumers International está trabalhando com todos os seus membros para tratar esses tipos de questões, onde quer que aconteçam.
Para empresários, sustentabilidade na ordem do dia
Assim como os consumidores, líderes corporativos do mundo inteiro estão debatendo como transformar a crise global numa oportunidade real de mudança. E a nova trajetória segue em direção à sustentabilidade e à responsabilidade social. Pelo menos, esse foi o balanço do encontro promovido, em Nova York, pela Business for Social Responsability (BSR), no início deste mês, que reuniu 1.200 líderes empresariais e humanitários de 50 países.
A pergunta que norteou a discussão era exatamente se a responsabilidade social corporativa mantinha a mesma relevância nesse cenário. A resposta foi unânime: mais do que nunca.
Na avaliação dos empresários que participaram do evento, as práticas sustentáveis podem ser a chave para revigorar os negócios globais. A expectativa ainda é de que a posse do novo presidente americano eleito, Barack Obama, tenha um impacto positivo no avanço da agenda de responsabilidade social corporativa.
- A crise é uma oportunidade de o mundo se repensar. E isso já está acontecendo. Num primeiro momento podem aumentar os problemas sociais, talvez até ambientais. Ao mesmo tempo o conceito de sustentabilidade sairá muito mais forte. As grandes empresas como GAP, Levis, Natura, Vale já estão se estruturando para isso - diz Luís Roberto Pires Ferreira, vice-presidente de Responsabilidade Social do Grupo ABC, um dos patrocinadores do evento.
Criada em 1992, a BSR hoje é referência mundial na área, promovendo a colaboração entre empresas e setores.
O Globo, 19/11/2008, Economia, p. 30
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