OESP, Metropole, p.C1
24 de Ago de 2005
Cetesb condena poços na zona sul
Empresa pede interdição no SP Market, quer análise da Fonte Petrópolis e alerta moradores para não beber água subterrânea
Natália ZontaColaboraram: Bárbara Souza e Rodrigo Cerqueira Cesar
A Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental (Cetesb) pediu a interdição de dois poços artesianos no Shopping SP Market, região de Interlagos, zona sul. Eles contêm clorados e metais pesados na água, substâncias que podem causar lesões no fígado e câncer. Por precaução, a empresa também pediu uma análise mais profunda da água da empresa Petrópolis Paulista Ltda., cuja fonte fica na região. A recomendação dos técnicos é de que a população de Interlagos e Santo Amaro não utilize água de poços subterrâneos sem antes pedir à Cetesb uma análise de qualidade.
Até as 18 horas de ontem a Vigilância Sanitária, a quem cabe fazer a interdição, não havia recebido o laudo sobre o SP Market, embora a Cetesb tenha decidido pedir o fechamento na semana passada. Em 2003, outro poço artesiano do SP Market já tinha sido lacrado definitivamente pela presença dos mesmos agentes. Os outros não foram lacrados na época por não registrarem a contaminação.
Também em 2003, a Cetesb informou que foram detectadas na água da Fonte Petrópolis quantidades muito baixas de cloreto de vinila e clorofórmio, substâncias cancerígenas. Mas a concentração estava dentro dos parâmetros de potabilidade e não impedia o consumo.
Toda a região de Jurubatuba, entre a Ponte do Socorro e a Avenida Interlagos, está sendo considerada prioritária pela Cetesb na fiscalização da água subterrânea. As investigações iniciais vão partir de um raio de 500 metros de um terreno da empresa Gillette, suposto foco da contaminação. Na área, que inclui o SP Market, já tinham sido interditados em junho outros sete poços.
"Não podemos mais tratar as contaminações como casos pontuais. É muito provável que o aqüífero da região esteja contaminado", disse o gerente da Divisão de Áreas Contaminadas da Cetesb, Alfredo Rocca. Segundo ele, depois das interdições de poços em junho, foi organizada uma ação integrada entre a Cetesb, o Departamento de Águas e Energia Elétrica (Daee) e Vigilância Sanitária para monitorar o local e mapear a contaminação.
A recomendação para evitar o uso da água de poços - para beber, tomar banho ou lavar quintais - é uma "medida de precaução", disse Rocca. "Ainda não sabemos até onde a mancha de poluição chegou. São vários os focos contaminantes, a região tem muitas fábricas desativadas. A contaminação pode ter acontecido há anos, quando não existiam normas ambientais", explicou.
Foram mapeados pelo menos 60 poços ilegais na região. Eles estão distribuídos entre residências e indústrias. "Nos próximos dias a Vigilância irá efetuar a lacração e a Cetesb fará análises", disse Rocca. O Daee suspendeu a autorização para perfuração de novos poços.
As indústrias que tiveram os poços lacrados em junho ficam atrás da Gillette. "Não imaginávamos que os poluentes migrassem para lá. Outro fator que dificultou as análises foi a diversidade de poluentes encontrados na área. Muitos não foram captados nos testes pedidos pela Vigilância, que não exigia a análise de 50 agentes prevista na lei", disse o gerente de Apoio Técnico da Cetesb, Vicente Aquino Neto. Segundo a Vigilância Sanitária, a análise e as exigências dos testes apresentados pelas indústrias são de responsabilidade da Cetesb.
O presidente da Sociedade de Amigos de Campo Grande, Mauro Nélson Ventura, morador do condomínio City Campo Grande, próximo do galpão da Gillette, disse que não foi procurado por nenhum órgão público para ser informado sobre a situação. "Nenhum morador foi procurado também. Como sou corretor, ouvi boatos sobre o caso há uma semana, antes de ser divulgado pela imprensa."
Ventura disse que o condomínio, de 500 casas, não tem poço artesiano. Tranqüilo, ele fazia ontem um churrasco com vizinhos.
A Cetesb ainda pretende ampliar os estudos em mais duas áreas da Grande São Paulo. Há indícios de contaminações mais acentuadas na divisa de São Paulo com o ABC e em Cotia.
Empresas negam que haja qualquer contaminação
Petrópolis Paulista e SP Market afirmam que água de seus postos está testada
A Petrópolis Paulista Ltda. enviou ontem à tarde ao Estado o resultado de uma análise do laboratório Ceimic Análises Ambientais Ltda., feita em maio, em que não aparecia nenhum agente químico em sua água. A Petrópolis Paulista declarou que, em 2003, a empresa foi alvo de uma denúncia infundada da presença dos componentes. "Depois de feitas análises, foi comprovada inexistência de clorados na água. Todo mês refazemos os testes e garantimos a sua alta qualidade", disse o diretor industrial e um dos proprietários da Petrópolis Paulista, Amilcar Lara.
"Por precaução, vamos pedir novas análises da Petrópolis e de outras fontes que estiverem na vizinhança", disse o gerente da Cetesb de Santo Amaro, Ronald Pereira Magalhães .
Segundo o shopping SP Market, há atualmente em suas dependências três poços artesianos outorgados pelo Daee. Em um deles, foram identificados clorados e metais em maio. O poço foi interditado pelo próprio shopping.
Os outros dois poços continuam usados por terem sido considerados aptos após a divulgação de laudos feitos por laboratórios particulares. A Assessoria de Imprensa do SP Market afirmou que toda a água desses poços passa por uma estação de tratamento onde é filtrada com carvão ativado, cloro e quartzo. Segundo o shopping, a Cetesb foi informada sobre todos os procedimentos.
A Gillette disse que vem agindo de acordo com as normas vigentes no Estado e não ultrapassou os prazos de entrega dos laudos pedidos desde 2001 e garante que já começou o processo de recuperação do terreno.
A Cetesb declarou que a informação fornecida pela Gillette de que a área contaminada já estava sendo recuperada deve ser qualificada. "Ainda não existe tecnologia que torne possível a recuperação de um aqüífero contaminado. A Gillette está fazendo um programa de contenção da mancha de poluentes", disse Vicente Aquino Neto, gerente de apoio técnico da Cetesb.
Em cinco dos sete poços interditados pela Vigilância Sanitária em junho em outras empresas, os agentes poluentes não apareceram em laudos feitos pelas próprias empresas. Para evitar que a contaminação seja mascarada, a Cetesb vai ceder seus laboratórios para que condomínios e casas que utilizam poços façam análises. Hoje, o laboratório da empresa tem capacidade para fazer de 10 a 15 exames diários.
A Cetesb recebeu em 2001 uma auto-denúncia da Gillette informando sobre contaminação do solo. Três anos antes, a empresa comprou o galpão da indústria Duracell. "Em 2001 recebemos a notificação, em seguida, exigimos novos testes nos arredores. Vimos o primeiro laudo em novembro de 2002. Os últimos resultados saíram em 2003", afirmou o diretor de controle de poluição ambiental da Cetesb, Otávio Okano. A partir dessa data, a Cetesb disse que começou a investigar toda a área de Jurubatuba.
Departamento federal diz que não há risco no consumo
Marisa Folgato
ANÁLISE: O chefe do 2.o Distrito do Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM), do Ministério de Minas e Energia, Enzo Luís Nico Junior, disse ontem que a qualidade da água Petrópolis vem sendo acompanhada pelo órgão. Segundo ele, responsável pelo Estado de São Paulo, os índices de clorados encontrados "estão bem abaixo dos considerados impróprios". O geólogo criticou a forma de análise feita pela Cetesb. "Os padrões são rompidos quando não se dá a contraprova ao minerador e ao órgão federal. Só aí teria uma base de análise", afirmou. O DNPM avalia e fiscaliza todo o processo de produção de água mineral. Ele analisa até, por meio de laudos, o comportamento químico, físico-químico e bacteriológico da água, a determinação de sua composição e a devida classificação de acordo com o Código de Águas Minerais. Conforme Nico, o DNPM tem apenas sete fiscais de campo para acompanhar todos os casos no Estado.
OESP, 24/08/2005, p. C1
As notícias aqui publicadas são pesquisadas diariamente em diferentes fontes e transcritas tal qual apresentadas em seu canal de origem. O Instituto Socioambiental não se responsabiliza pelas opiniões ou erros publicados nestes textos. Caso você encontre alguma inconsistência nas notícias, por favor, entre em contato diretamente com a fonte.