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Cerrado e Amazônia: rumo a paisagens regenerativas

OESP - https://www.estadao.com.br/
Autor: GROSSI, Marina; BEHAR, Marcelo; UNNIKRISHNAN
04 de Dez de 2025

Cerrado e Amazônia: rumo a paisagens regenerativas
Brasil foi escolhido para ter o primeiro projeto piloto de aceleração da Agenda de Ação para Paisagens Regenerativas

04/12/2025

Marina Grossi
Economista, presidente do Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (Cebds)

Marcelo Behar
Conselheiro sênior do CEBDS e WBCSD (Conselho Empresarial Mundial para o Desenvolvimento Sustentável) e enviado especial da presidência da COP-30 para a bioeconomia

Shalini Unnikrishnan
Sócia do Boston Consulting Group e copresidente da Agenda de Ação da COP-28 para paisagens regenerativas.

Inovador, o conceito de paisagens regenerativas propõe a adoção de práticas com foco na recuperação dos ecossistemas, a partir da restauração da saúde do solo, da água e das espécies cultivadas e nativas, criando ambientes mais resilientes para as pessoas e a natureza. Ele vai além da conservação em si, buscando integrar múltiplas propriedades rurais e comunidades em uma mesma região, diferentes setores e interesses para que o uso do solo funcione como um sistema autorrenovável capaz de sustentar a biodiversidade, restaurar processos naturais e melhorar a qualidade de vida, mesmo recebendo atividades antrópicas que poderiam atuar como estressores ambientais, tais como a agricultura e a urbanização.

Esse tema ganhou os holofotes na COP-28, em Dubai, em 2023, quando foi lançada a Agenda de Ação para Paisagens Regenerativas (AARL, na sigla em inglês), um movimento que busca catalisar investimentos em agricultura regenerativa e uso sustentável da terra, em cadeias ligadas a mais de 90 commodities agrícolas em mais de 110 países. A ambição da iniciativa é facilitar a transição para práticas agrícolas regenerativas até 2030, agregando esforços do setor privado para melhorar a saúde do solo, aumentar a resiliência climática dos sistemas de produção agrícola e melhorar os meios de subsistência de milhões de agricultores.

Por abrigar a mais rica biodiversidade global e assumir uma posição de liderança mundial na produção agrícola e em setores ligados ao uso da terra, o Brasil foi escolhido para ser o primeiro piloto de aceleração da AARL, com foco no Cerrado e na Amazônia. Para viabilizar a iniciativa, o País conta com o LAB (Acelerador de Paisagens Regenerativas Brasil, na sigla em inglês), um programa que reúne governo, empresas e sociedade civil para impulsionar a adoção de práticas de agricultura regenerativa a partir de três pilares-chave: financiamento, métricas de performance e políticas públicas. O objetivo é claro: catalisar a transição para paisagens regenerativas a partir de mecanismos de blended finance. Segundo estudos do Boston Consulting Group (BCG), alcançar o potencial regenerativo do Cerrado e da Amazônia exigirá cerca de US$55 bilhões e US$62 bilhões em investimentos, respectivamente.

Além do BCG, que desenvolveu estudos para amparar o LAB, a iniciativa é liderada pelo World Business Council for Sustainable Development (WBCSD) e pelo Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS), e tem como um dos principais parceiros o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA). Assim, a união de expertises será fundamental para compor um mosaico de paisagens que conciliam produção, conservação e restauração a partir de uma ótica regenerativa.

Iniciar o projeto no Cerrado e na Amazônia é estratégico, pois ambas as regiões combinam urgência socioambiental com grande potencial econômico e climático. O Cerrado, com quase 200 milhões de hectares, é a savana mais biodiversa do planeta e um importante polo agropecuário, tornando-se um território-chave para acelerar modelos de uso do solo mais sustentáveis. Com quase metade de sua vegetação nativa já convertida e expansão agrícola crescente, há oportunidade de direcionar o crescimento para áreas já abertas, conciliando produtividade, conservação e regeneração, enquanto se aumenta a resiliência frente às mudanças climáticas.

Na Amazônia, o Pará, que abriga 30% do bioma e sediou a COP-30, concentra 24 milhões de hectares convertidos e até 8,8 milhões de hectares com potencial para sistemas regenerativos, representando uma oportunidade de investimento de até US$21 bilhões até 2040. O sucesso nesta região demonstrará que desenvolvimento e conservação podem caminhar juntos.

Em 2025, o LAB nasce ancorado nos mais de US$100 milhões em investimentos individuais já realizados por seus membros corporativos e financeiros em paisagens regenerativas, demonstrando que o setor privado vem implementando seus compromissos públicos de sustentabilidade mesmo diante de barreiras estruturais. Nesse primeiro ciclo, o LAB atuou como um hub de alinhamento multissetorial, identificando oportunidades e entraves ligados a políticas públicas, finanças e métricas. O Plano de Ação recém-lançado detalha esse trabalho, apresentando as condições necessárias para avançar na agenda de regeneração em larga escala no Brasil.

Já em 2026, o LAB evoluirá para uma plataforma de ação voltada ao co-investimento, dedicada a implementar recomendações dentro de paisagens específicas. Seu papel será catalisar os investimentos coletivos de seus membros corporativos, em colaboração com o setor financeiro, o poder público e a sociedade civil, ao mesmo tempo em que busca destravar barreiras identificadas em 2025.

Com a ambição de mobilizar US$5 bilhões de investimento até 2030, o LAB projeta o Brasil como um modelo global de transformação regenerativa, conforme demonstrado no nosso Plano de Ação. Trata-se de um verdadeiro mutirão pela regeneração das paisagens brasileiras, que encontrou na COP-30 a oportunidade histórica de mostrar ao mundo que desenvolvimento econômico, conservação ambiental e inclusão social podem caminhar de mãos dadas.

A verdadeira questão não é se a transição para paisagens regenerativas vai acontecer, mas sim em que velocidade o Brasil assumirá a liderança global que sua biodiversidade e o setor produtivo demandam. O momento de somar esforços é agora, para construir um legado de prosperidade e equilíbrio para as futuras gerações.

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