O Globo, Ciência, p. 39
05 de Dez de 2007
Cerco às florestas
Países pressionam para que combate ao desmatamento integre acordos climáticos
Gilberto Scofield Jr.
Enviado especial Bali
À medida que as discussões sobre o aquecimento do planeta avançam na construção de uma agenda de compromissos que, a partir de 2012, possa substituir o Protocolo de Kioto, cresce a pressão de países desenvolvidos e das ONGs para que a questão do desmatamento florestal seja incluída, de alguma maneira, no cálculo das novas metas a serem cumpridas.
Só para se ter uma idéia da importância do tema para o Brasil, dono da maior floresta tropical do mundo, dados do Ministério do Meio Ambiente (MMA) mostram que seria necessário cerca de US$ 1 bilhão por ano para zerar o desmatamento ilegal na Amazônia a médio prazo. O orçamento do Ministério do Meio Ambiente, sem contar pessoal, foi de R$ 466 milhões este ano e, para 2008, a previsão é de R$ 668 milhões.
Brasil é contra metas de redução
O secretário-executivo da 13ª Conferência da Convenção de Mudança Climática das Nações Unidas, Yvo de Boer, citou o desmatamento das florestas como um dos três pontos a serem incluídos na agenda pós-Kioto que se espera aprovar em 2009:
- O novo regime deve contemplar a criação de um fundo que ajude os países emergentes a se adaptar às mudanças climáticas, um pacto para transferência de tecnologia e a inclusão do desmatamento como causador de aquecimento, com propostas de redução e recompensas.
Membros das delegações japonesa, européia e americana ponderam diariamente que, se cerca de 20% dos gases de efeito estufa emitidos anualmente advêm de queimadas, então o combate ao desmatamento precisa entrar no esforço global para controlar o aquecimento. Mas o discurso dos representantes brasileiros está afinado: não são aceitas metas de redução de desmatamento.
- O que se discute hoje é o aquecimento provocado pela queima de combustíveis fósseis, uma prática dos países ricos ao longo da História.
O que estes países querem é, de certa forma, desviar a atenção sobre suas responsabilidades - afirmou o embaixador extraordinário de Mudanças Climáticas, Sérgio Serra.
Esta posição inflexível está cada vez mais isolada diante de um grupo de países com grandes florestas - como Indonésia, Gana, Filipinas ou Papua Nova Guiné - que vê com bons olhos a criação de um mecanismo que transforme floresta preservada em créditos a serem comprados por países poluidores. Por trás da questão climática, no entanto, se impõe a soberania dos estados.
O Globo, 05/12/2007, Ciência, p. 39
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