CB, Opiniao, p.9
Autor: ROLLEMBERG, Rodrigo
26 de Jan de 2004
Centro-Oeste: os desafios do desenvolvimento regional
RODRIGO ROLLEMBERG
Presidente do PSB-DF e membro da Executiva Nacional do PSB
O governo federal deverá enviar projeto de lei ao Congresso Nacional criando a Agência de Desenvolvimento do Centro-Oeste, ou nova Sudeco, como alguns preferem chamar. A idéia tem apoio da classe política e do empresariado, embora haja divergência sobre que instrumentos o órgão deve priorizar para fortalecer o desenvolvimento.
0 debate é bom e deve ser realizado avaliando os efeitos positivos e negativos do modelo de crescimento econômico adotado na região até o momento.
O Centro-Oeste se apresenta como a região mais dinâmica do Brasil, com participação crescente na composição do PIB nacional e papel relevante nos resultados' positivos da balança comercial brasileira' em função do agronegócio.
Grande parte dos méritos desse desempenho deve-se à Embrapa, especialmente à Embrapa Cerrados, que, com pesquisadores de altíssimo nível, conseguiu desenvolver técnicas de correção e adubação do solo, bem como variedades de grãos altamente adaptadas aos cerrados.
Mas, se por um lado temos o que comemorar, não podemos deixar de alertar sobre os aspectos negativos desse modelo agrícola, que carrega altíssimos custos ambientais e sociais. 0 grande desperdício de água, devido à utilização demasiada de pivôs centrais, e a poluição oriunda da utilização indiscriminada de fertilizantes e defensivos agrícolas são exemplos de fatores que promovem a degradação veloz da região.
Entretanto, os efeitos mais perversos do atual modelo de desenvolvimento encontram-se no plano social. Muitas das tecnologias desenvolvidas pela Embrapa para os cerrados acabam sendo apropriadas pelo grande produtor. A viabilidade econômica do cultivo das commodities requer grandes áreas e mecanização intensa, o que torna as novas tecnologias inacessíveis para pequenos produtores.
Além disso, o alto preço dos grãos no mercado internacional, principalmente da soja, supervalorizou o preço da terra, expulsando os pequenos produtores de suas propriedades. Esses fatores contribuem para que o Centro-Oeste seja hoje, ao mesmo tempo, a região de maior crescimento econômico e de maior concentração de renda.
Em cenário de escassez, deve-se priorizar o investimento de recursos públicos em educação, saúde e infra-estrutura: tecnologia, comunicação, energia e transportes. 0 governo federal deve, portanto, utilizar os instrumentos de que dispõe para estimular o desenvolvimento sustentável beneficiando o conjunto da população e da região e distribuindo renda.
A Sudeco pode ter papel importante nessa tarefa. Acredito que investir em ciência e tecnologia e fazer com que conhecimento, processos e produtos tecnológicos cheguem até os pequenos produtores rurais, industriais e empresários seja a forma mais segura de, a médio prazo, atingir esses objetivos.
Uma política de ciência, tecnologia e inovação para a região deve estar baseada em três objetivos principais: a sustentabilidade, a diversidade e a inclusão social. É preciso investir em pesquisas para garantir o uso racional de água, a produção de formas alternativas de energia e a prática da agricultura e da pecuária orgânicas que garantam sustentabilidade à região. Também é importante promover novos arranjos produtivos que diversifiquem a produção local, diminuindo a dependência econômica da região em relação aos preços dos grãos no mercado internacional.
A inclusão social, além de ser um dever ético que tem a sociedade com os excluídos, é uma necessidade política e econômica. 0 desenvolvimento de tecnologias e inovações assimiláveis pelos pequenos agricultores, pela economia familiar, e a formulação de novos modelos de organização fundiária e produtiva poderão contribuir para diminuir o fosso que hoje isola grande parcela da população. Nesse cenário, a extensão rural e a extensão promovida pelas universidades são atividades imprescindíveis.
É fundamental, também, que o novo órgão tenha um compromisso claro com as pequenas e microempresas e com o turismo, uma das grandes vocações da região. Não são desafios pequenos. Mas já temos instituições como a Embrapa, universidades e centros de pesquisa, que reúnem um capital humano valioso e grande conhecimento acumulado. Com a Sudeco atuando como grande agência articuladora de todas essas forças, o Centro-Oeste poderá se tornar a região mais dinâmica dó país em desenvolvimento social e ambiental.
CB, 26/01/2004, p.9
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