O Globo, Ciência, p. 22
02 de Abr de 2007
Cenário sombrio
Novo relatório sobre clima da ONU prevê fim rápido de fontes de água
Vivian Oswald
É sombrio o cenário traçado pelo novo relatório da ONU sobre mudanças climáticas, cuja versão preliminar teve partes reveladas ontem. O documento sobre o impacto do aquecimento global nas diferentes regiões do mundo será discutido esta semana em Bruxelas pelos mais de dois mil cientistas e representantes de governos de 120 países que integram o Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês) da ONU.
O relatório adverte que se nada for feito para conter o atual ritmo de aquecimento global, as geleiras dos Andes tropicais desaparecerão em 15 anos. Nem a mais alta cadeia de montanhas da Terra escapará: o Himalaia pode perder um quinto de suas geleiras até 2030.
Nos dois casos, a conseqüência será drástica redução da oferta de água para muito países.
De acordo com dados obtidos pelo GLOBO, os cenários traçados pelos especialistas mostram que o aumento da temperatura até o fim do século pode ter conseqüências dramáticas para a população mundial, sobretudo no Hemisfério Sul.
A África deve ser o continente mais afetado. Milhões de pessoas seriam prejudicadas por doenças provocadas por ondas de calor, falta d'água e aumento da propagação de transmissores de infecções, como dengue e malária. Também espera-se um número maior de casos de desnutrição, doenças cardiovasculares e comprometimento no desenvolvimento de crianças.
Países ricos serão beneficiados
O relatório é o segundo apresentado este ano pelo IPCC e terá a versão final divulgada na sexta-feira.Ele é dedicado em sua maior parte ao Hemisfério Norte. Não há muitas análises sobre a América Latina. O texto pouco fala do Brasil. De acordo com especialistas, isto se deve ao reduzido número de pesquisas publicadas em revistas científicas e revisadas sobre a região. Mesmo assim, as projeções incluídas no documento não são boas.
O IPCC considera provável nos próximos anos a extinção de diversas espécies em florestas tropicais.
Podem vir a se tornar áridas as áreas semi-áridas do Nordeste do Brasil e do México. A elevação do nível do mar pode inundar partes baixas de Guiana, El Salvador e a região do Rio da Prata, na Argentina. O aumento da temperatura do mar também deve ter impacto sobre os recifes de coral da América do Sul, o que incluiria Abrolhos, no Brasil. A agropecuária pode sofrer com uma diminuição da produtividade dos grãos e do gado. No entanto, acredita-se que a produtividade da soja nas zonas temperadas será maior. A agricultura dos países ricos do Hemisfério Norte deve ser beneficiada.
Segundo representantes brasileiros, há um dado preocupante que não chegou a entrar no documento que será discutido esta semana. Estimativas feitas a pedido do próprio IPCC para o terceiro relatório indicam uma redução significativa das chuvas na região Centro-Oeste do Brasil entre 2090 e 2099.
Essa redução significativa dos índices pluviométricos pode ter impacto sobre a geração de energia do país, que depende em grande parte das hidrelétricas. Segundo técnicos, este cenário não descarta a possibilidade de apagões no país no futuro.
Os dados do relatório devem ser negociados pelos governos presentes à reunião para a elaboração do documento final. De acordo com negociadores brasileiros, os governos devem propor mudanças no texto. A idéia é tentar tirar qualquer viés político das pesquisas. Um das críticas ao documento é que apenas 10% dos autores são de países em desenvolvimento, sendo que metade vem de China, Índia e Brasil.
O Globo, 02/04/2007, Ciência, p. 22
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