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Cenário preocupante

Veja SP, Crise Hídrica, p. 40-46
29 de out de 2014

Cenário preocupante
O resultado das medidas de emergência e as obras para enfrentar uma das maiores estiagens da história e evitar o racionamento na capital

Mauricio Xavier

Na semana passada, o nível de água do Sistema Cantareira, que abastece um terço dos habitantes da região metropolitana de São Paulo, atingiu 3% mesmo com o uso do chamado volume morto. Mantendo-se o ritmo atual de queda, os 30 bilhões de litros restantes secariam até o mês que vem. Com o tanque quase vazio, a Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) realizou obras nos reservatórios para acessar uma segunda cota do líquido que repousa no fundo das represas, abaixo do túnel que leva água à capital (veja mais detalhes no infográfico acima). O formato do resgate ainda está sendo discutido com a Agência Nacional das Águas (ANA), que quer dividi-lo em parcelas. Mesmo que a autorização seja concedida nos termos propostos pela companhia estadual, representaria no máximo 105 bilhões de litros, o suficiente para elevar o nível a apenas 10% da capacidade total, mas sem conseguir mudar o cenário crítico.
Apesar do agravamento da crise, do crescimento de queixas da população e do aumento do volume de críticas (uma Comissão Parlamentar de Inquérito sobre o assunto foi instaurada recentemente na Câmara dos Vereadores), o governador Geraldo Alckmin continua repetindo o discurso da campanha de sua reeleição ao Palácio dos Bandeirantes. Segundo ele, não há torneira seca em nenhum dos 364 municípios atendidos pela Sabesp (incluindo a capital e a região metropolitana). E as medidas adotadas em sua gestão, combinadas às obras em curso, vão garantir o fornecimento nos próximos meses, até a situação ser aliviada de vez pela volta do período de chuvas.
É certo que o problema chegou a esse ponto devido a uma excepcionalidade. A atual seca é a maior registrada nos últimos 84 anos. Mas os especialistas e estudiosos do assunto são quase unânimes em afirmar que a inoperância do poder público na área durante as últimas décadas, sobretudo nas questões de planejamento e de investimentos em infraestrutura, deixou o estado despreparado demais para enfrentar um evento extremo. "As ações só foram aceleradas quando chegou a crise", entende a arquiteta Marussia Whately, coordenadora do Programa Mananciais do Instituto Socioambiental.
A seguir, um balanço das políticas de emergência adotadas nos últimos meses, o detalhamento das medidas em curso e o que está planejado para o futuro para tentar resolver de vez essa questão.
A POLÍTICA DA EMERGÊNCIA
Em fevereiro, a Sabesp anunciou um bônus de 30% no valor da conta para o cliente da capital que conseguisse reduzir o consumo mensal de água em 20%. Cerca de 80% dos moradores da região metropolitana diminuíram o gasto e metade deles atingiu a meta. Em abril, o programa foi expandido para os 31 municípios da região metropolitana. A política resultou em gastos extras de mais de 100 milhões de reais até a metade do ano. A conta deve aumentar ainda mais. Na semana passada, foram anunciadas novas faixas de premiação, entre 10% e 20% de economia, com bônus equivalentes. Apesar do crescimento de queixas da população com relação a cortes de fornecimento, o governo diz que não há racionamento por aqui. De acordo com Dilma Pena, presidente da Sabesp, existe um "contingenciamento do recurso".
Desde o começo do ano, a empresa reduz a pressão nos canos no período noturno na região metropolitana. O objetivo seria diminuir o desperdício com vazamentos. Na média, a pressão caiu de 40 metros de coluna d'água para 10 metros. "Com isso, melhoramos a gestão do sistema, o que resultou em uma economia de 2 400 litros por segundo nos últimos meses", contabiliza o superintendente da Sabesp, Marco Antonio Lopez Barros. A título de comparação, o Sistema Cantareira está entregando 19 000 litros por segundo (antes da crise, o volume era de 33 000). Como a água passou a chegar com menos força a pontos altos (acima de 10 metros de altura da caixa-d'água do bairro, por exemplo), pode haver parada momentânea no abastecimento, segundo a Sabesp. Viria daí o aumento das queixas, que se tornaram rotineiras nos últimos meses. "Recebemos cerca de 1 000 reclamações por dia, mas essa já era a média antes do início da crise. Não houve mudança", garante Barros.
Segundo a companhia, a pressão foi reduzida de forma igualitária pelas regiões, apenas evitando a proximidade de serviços públicos como hospitais e delegacias. A diminuição da dependência do Cantareira foi outra ação crucial. O principal sistema do estado era responsável pelo abastecimento de mais da metade da região metropolitana. Em seis meses, sua participação por aqui caiu de 47% para 33% e, até o fim do ano, esse índice vai baixar mais 2,5%. Para isso, outros sistemas, como o Guarapiranga, cujo reservatório está com nível de 42%, passaram a assumir a entrega em áreas do Cantareira.
OBRAS EM CURSO
O retrato do cenário desolador do Cantareira foi capturado recentemente pela auxiliar administrativa Ingrid Venturini. Em abril, ela havia sido fotografada sentada ao lado do filho Breno, de 3 anos, em um deque diante de uma ainda volumosa Represa do Atibainha, em Nazaré Paulista, a 64 quilômetros da capital. Em outubro, ao voltar ao local, Ingrid deparou com um grande areão no lugar da água. Resolveu fazer um registro na mesma pose e postou no Facebook. A imagem teve mais de 9 000 compartilhamentos. "Foi um baque. Enquanto a gente vê água saindo da torneira, não tem noção do problema", diz.
Para aumentar a oferta do líquido na rede operada pela Sabesp, obras emergenciais estão sendo inauguradas para estancar o problema. Há um mês, terminou o trabalho de ampliação na estação de tratamento do Rio Grande, ao custo de 27 milhões de reais. Isso proporcionou um acréscimo de 500 litros por segundo ao total de 60 000 captados atualmente pela Sabesp nos sete sistemas - Cantareira, Alto Tietê, Guarapiranga, Alto e Baixo Cotia, Rio Grande e Rio Claro. E, a partir desta semana, após aporte de 50 milhões de reais, a Guarapiranga vai entregar mais 1 000 litros por segundo.
Ambas as medidas seriam adotadas em 2016, mas foram antecipadas para ajudar no esforço da crise. Outras duas intervenções nestes mesmos dois sistemas ocorrerão ao longo do ano que vem. Com a instalação de equipamentos de filtragem de maior eficiência, será possível retirar mais 2 000 litros por segundo de Guarapiranga e Rio Grande, metade em cada uma. Essa última ainda passará por uma repaginação até o fim de 2016, com uma nova estação de captação e outras melhorias que a farão ser capaz de disponibilizar mais 1 200 litros por segundo.
INVESTIMENTOS FUTUROS
A principal obra no horizonte será inaugurada em outubro de 2017. Com um custo de 2 bilhões de reais, o São Lourenço se tornará o oitavo sistema de abastecimento da região metropolitana.A previsão é captar 4 700 litros de água por segundo no reservatório Cachoeira do França, em Ibiúna, a 70 quilômetros da capital, tratá-los em uma estação em Vargem Grande Paulista e trazê-los a São Paulo por meio de 83 quilômetros de adutoras. No entanto, terá capacidade para produzir até 6 000 litros por segundo, o que representa um terço do que é entregue hoje pelo Cantareira.
O empreendimento, uma parceria público-privada, está sendo tocado pelas construtoras Andrade Gutierrez e Camargo Corrêa. No plano do governo ainda está prevista a integração da Represa do Atibainha, do Cantareira, com a Represa de Jaguari, do Rio Paraíba do Sul. Isso seria executado somente em 2020, mas o projeto deve sair mais cedo da gaveta pela gravidade do momento. Se no próximo verão a chuva ficar dentro da média histórica, a Sabesp prevê que o Cantareira voltará a 50% de seu volume útil em abril. Ainda que isso não ocorra, a captação de uma terceira cota do volume morto ou mesmo a adoção de racionamento, por enquanto, estão fora de questão. "Estamos controlando o nível e, se preciso, usaremos as mesmas estratégias já adotadas, mas com mais intensidade", diz Barros.
Para especialistas, é temerário confiar na recuperação dos reservatórios apostando em São Pedro. "É preciso esperar novembro para ver como a estação chuvosa se estabelece", alerta o professor de climatologia e meteorologia Tércio Ambrizzi, da USP. "Em 2013, as chuvas de outubro estavam acima da média, e ninguém conseguiu prever a atual seca." Segundo alguns técnicos, mesmo se o plano da Sabesp tiver sucesso a curto prazo, falta ainda a implantação de um projeto que não se resuma ao aumento de oferta de água.
A Califórnia, nos Estados Unidos, é um exemplo bastante citado. O estado enfrenta o quarto ano seguido de seca e pôs em prática um amplo conjunto de medidas que inclui distribuição gratuita de medidores individuais de água para condomínios, tratamento de esgoto para abastecimento de lençóis freáticos e multa por desperdício do recurso. "As ações da Sabesp não serão suficientes a médio prazo, com o provável aumento do consumo em 15% nos próximos dez anos", diz o especialista de água da ONG The Nature Conservacy, Samuel Barrêto. "O modelo inteiro precisa ser revisto."

A cidade tem sede
Parte dos paulistanos já sofre com escassez e muitos adotam estratégias tentando se preparar para o pior cenário

Adriana Farias e Júlia Gouveia

No Jardim Aeroporto, o engenheiro Richard Olandim está estocando garrafas de água há mais de um mês. Na Pompeia, a advogada Maria Antonietta Silva reservou um quartinho para armazenar os galões que compra diariamente."Já fiquei dois dias inteiros com a torneira seca em casa", explica. Na Casa Verde, após cortes contínuos no abastecimento, o Condomínio Residencial Porto Seguro decidiu em assembleia fazer quatro poços artesianos para atender seus 3 500 moradores. Esses são apenas alguns exemplos de como a crise hídrica passou a afetar a vida das pessoas da metrópole. Embora a Sabesp ainda negue ter adotado por aqui o racionamento, algumas pessoas sofrem com a escassez de água. Quem ainda não sentiu o problema na pele começa a se mobilizar em meio à sucessão de notícias preocupantes a respeito do fim das reservas do Sistema Cantareira.
Na semana passada, uma pesquisa do Datafolha a respeito do assunto indicou como a situação é preocupante. Segundo ela, cerca de 60% dos 804 entrevistados relataram ter sofrido cortes no fornecimento nos últimos trinta dias. O levantamento perguntou também se as pessoas pretendiam estocar água em casa daqui para a frente. Quase 70% delas responderam afirmativamente.
Com a campanha Tô sem Água, o Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec) recebeu desde junho 668 reclamações do gênero. Com base nos dados coletados, foi possível mapear as regiões mais prejudicadas - as zonas Oeste e Norte lideram o ranking. A qualidade da água também tem sido alvo de queixas. Para 59% das pessoas, o líquido fornecido apresenta algum tipo de comprometimento."Quando a água vem, o gosto é ruim", reclama Richard Olandim. Segundo a Sabesp, a reclamação não procede. "O túnel que capta e envia água para a bacia dos rios Piracicaba, Capivari e Jundiaí fica na altura do volume morto. É usado há anos e nunca causou problema algum", diz o superintendente da companhia, Marco Antonio Lopez Barros.
A corrida pelo líquido já começa a refletir nas prateleiras dos supermercados. Grandes redes como Carrefour, Pão de Açúcar e Walmart registraram alta de até 50% na procura nos últimos meses, principalmente por embalagens maiores (de 5 a 10 litros). Por enquanto, a Associação Brasileira da Indústria de Águas Minerais (Abinam) descarta o risco de faltar o produto. "Estamos preparados para atender até três vezes a demanda atual", afirma o presidente, Carlos Alberto Lancia. As empresas de caminhões-pipa não trabalham com a mesma folga. "Os estoques estão se esgotando", alerta a gerente do SR Transportes, Rita Furquim. De acordo com ela, houve um aumento de 300% no número de pedidos somente na semana passada, quando as temperaturas bateram recorde na capital. Na Flash Água, que tem recebido uma média de trinta ligações por dia (antes eram dez), os clientes estão em fila de espera. "Não damos conta de atender todo mundo", diz o dono, Mario Gouveia.
Sem nenhum tipo de aviso prévio das interrupções no fornecimento, muitos estabelecimentos acabam sendo pegos de surpresa. Foi o caso da lanchonete St. Louis, no Jardim Paulista, em duas ocasiões recentes. "Tivemos de comprar na hora seis galões de 20 litros para poder dar descarga nos banheiros", conta o dono, Luiz Cintra. Na segunda vez, ele tomou uma medida radical: substituiu copos e pratos por versões descartáveis para não gastar água ao lavar a louça. "Acendeu a luz da preocupação", diz o empresário, que triplicou o estoque de produtos do gênero.
Os colégios também entraram em estado de alerta. Em Interlagos, o A.Einstein cortou o banho dos cerca de 500 estudantes que ficam no local em tempo integral. "Foi drástico, mas a economia compensa", afirma a diretora, Roberta Valverde. Ela ainda fez outras adaptações: instalou temporizador nas torneiras, trocou os vasos sanitários por modelos mais econômicos e até os bebedouros tiveram seu fluxo reduzido. Segundo levantamento da prefeitura, neste mês 34 escolas da rede pública registraram desabastecimento e tiveram de recorrer a caminhões-pipa ou galões de água. Na Mooca, a Emei Almirante Tamandaré chegou a dispensar os alunos por falta de água no último dia 14.
Lavar o carro é um hábito em baixa. "O movimento por aqui caiu 30%", reclama Sandra Orlando, proprietária do lava-rápido Express, na Vila Romana. Segundo Horácio Bonoldi, dono do Multilimp, na Pompeia, os clientes que costumavam aparecer semanalmente agora vêm apenas uma vez por mês. As lavagens a seco, com o uso de produtos químicos dissolvidos em 400 mililitros de água, são outra saída, mas chegam a custar mais de 50 reais, o dobro do método convencional.
Nos condomínios, o tema do momento são as discussões para economizar a todo custo. No Porto Seguro, da Casa Verde, que compreende um complexo com onze prédios, os síndicos fizeram recentemente uma série de ações com esse objetivo. Elas envolveram a instalação de redutores de água nas torneiras das áreas comuns, vistoria de todos os 836 apartamentos à procura de possíveis vazamentos e fechamento de uma das duchas da piscina. Em uma das torres, a conta mensal caiu de 10 600 reais para 4 500 reais. "Se as coisas piorarem, pensamos até em fechar a piscina", diz a administradora do local, Marilu Bento. O condomínio estuda agora tirar do papel um projeto antigo: a abertura de poços artesianos.
Esse recurso tem sido uma opção cada vez mais frequente. "Alguns locais contam com tantas perfurações do tipo que já começa a escassear a água no subsolo", espanta-se o vice-diretor do Centro de Pesquisas de Águas Subterrâneas da USP, Ricardo Hirata, citando o bairro da Barra Funda e as regiões de Guarulhos e do ABC como exemplos.
Poupar água não depende necessariamente de grandes obras. Uma alternativa prática e rápida é a instalação de restritores de vazão nas torneiras. Esses acessórios reduzem em até 50% o consumo e saem por menos de 10 reais. No caso de vasos sanitários com caixa acoplada, por exemplo, é possível trocar apenas a válvula da descarga por um modelo com duplo acionamento. Com preço em torno de 150 reais, o sistema libera apenas 3 litros para dejetos líquidos e 6 litros para sólidos, a metade das versões convencionais. "É importante mudar os velhos hábitos, porque ficar sem água é muito mais doloroso", lembra Dalberto Adulis, consultor do Instituto Akatu, ONG dedicada ao consumo consciente.

Grande sertão paulista
A seca afeta 6 milhões de pessoas, causa doenças, prejuízo\de 200 milhões de reais e saques

Ana Carolina Soares

Ruas sujas e empoeiradas, banhos diários de caneca, prejuízo no comércio, surto de doenças e ânimos inflamados. Eis a rotina de aproximadamente 6 milhões de moradores do grupo de 37 municípios no interior mais afetados pela seca. As prefeituras de Tambaú e Cordeirópolis decretaram estado de calamidade pública, que caracteriza desastres de grande porte responsáveis por esgotar os recursos da administração local. Artur Nogueira, Casa Branca e Valinhos estão em situação de emergência, um estágio mais brando diante de uma fatalidade. Na prática, funciona como um aviso de alerta à população. Em Itu, outra cidade bastante atingida, ocorrem cenas dignas dos filmes apocalípticos de Hollywood sobre o esgotamento de recursos naturais. No local, os caminhões-pipa passaram a receber escolta da polícia depois da ocorrência de assaltos.
Localizada no nordeste paulista e distante 270 quilômetros da capital, Tambaú é uma das cidades que mais sofrem com a estiagem. Seus 23 500 moradores enfrentam um surto de dengue e virose porque muita gente, na afobação, tem estocado água de qualquer jeito. Em abril, começou o racionamento. No início,o fornecimento ocorria dia sim, dia não. Há três meses, a política ficou mais severa. Agora, as torneiras permanecem vazias durante 48 horas e são abastecidas por dezessete. Segundo a Associação Industrial e Comercial de Tambaú, a cidade acumula um prejuízo de mais de 4 milhões de reais. "Falta água para produzir cerâmica, o principal item da economia do nosso município. As empresas acabam demitindo funcionários, e isso gera recessão", diz Marcos Stocco, presidente da entidade. A cidade tem 65 fábricas nesse setor e, segundo dados do sindicato dos trabalhadores da categoria no local, cerca de 25% dos 4 000 empregados foram demitidos neste ano.
A região é abastecida por duas represas. Uma delas secou completamente em julho e a outra só não tem o mesmo destino porque diariamente caminhões-pipa enchem o local com água do Rio Macuco, manobra custeada com parte da ajuda de 2 milhões de reais recebida do governo do estado. Mas, para resolver o transtorno de vez, as autoridades estimam um investimento de 15 milhões de reais para reformar o encanamento de Tambaú, datado de 1930 e administrado pelo Departamento Municipal de Água e Esgoto (Demaet), que teve poucos investimentos ao longo das últimas décadas. "O problema não começou agora, mas a população não entende. Sou xingado nas ruas, furaramos pneus do meu carro e houve manifestação na frente da minha casa", reclama o prefeito Roni Donizetti Astorfo. A exemplo de seus conterrâneos, ele garante ter mudado a rotina para economizar. "Desde agosto, só me lavo de caneca e reutilizo a água do banho para dar descarga", conta. "Também faço a barba dia sim, dia não."
Além dessas medidas práticas, Astorfo,que vem de uma família bastante religiosa, apela para outras forças. Tem andado com um tercinho enrolado no pulso esquerdo e pede orações à população. O segundo nome do prefeito foi escolhido por seus pais para homenagear o padre Donizetti (1882-1961), padroeiro da cidade, que está com um processo de beatificação no Vaticano. "Só Deus mesmo para ajudar a gente", desabafa Maria Eni Tezzei da Silva, aposentada de 71 anos,moradora da Vila Padre Donizetti, um dos bairros mais prejudicados. O local chega a ficar uma semana sem água. Desde julho, Eni lidera uma novena para chamar a atenção de São Pedro. Todo fim de tarde, um grupo de aproximadamente dez fiéis se reúne aos pés do cruzeiro da paróquia São Sebastião, reza o terço e lê o capítulo Em Tempos de Calamidade e Atribulação do livro Manual de Nossa Senhora Aparecida. Para finalizar o ritual, cada pessoa joga um copo de água na cruz. "Quando chegou a Tambaú, em 1926, o padre Donizetti também sofreu com uma estiagem semelhante e, após uma novena, choveu e tudo se recuperou",explica Anderson Godoi de Oliveira, pároco do Santuário Nossa Senhora Aparecida. Apesar de manter a fé, ele acredita que a seca só vai acabar quando as pessoas aprenderem a lidar com o meio ambiente. A exemplo de Tambaú, boa parte das cidades castigadas fica nas regiões norte e nordeste de São Paulo. Muitas delas são abastecidas por nascentes, que secam mais rápido com uma estiagem, devido ao volume menor de água. "As consequências foram bem graves, e esses locais vão levar aproximadamente uma década para se recuperar", afirma Hiroshi Paulo Yoshizane, professor de topografia, hidrologia e solos da faculdadede tecnologia da Universidade Estadualde Campinas (Unicamp). Outro complicador é o mau planejamento urbano. A Sabesp cuida do abastecimento de água da região metropolitana e de apenas algumas cidades do interior. No restante dos casos, o assunto fica a cargo das prefeituras. Poucas se planejaram para uma crise tão grave.
As consequências desses erros são enormes. Desde maio, a hidrovia Tietê-Paraná está paralisada, o que afeta diretamente os municípios de Barra Bonita, Pederneiras, Araçatuba, Jaú, Santa Maria da Serra, Anhembi e Conchas. O prejuízo estimado pelo Departamento Hidroviário do Estado é de cerca de 200 milhões de reais no período. Em Socorro, o abastecimento continua normal, mas há quatro meses o baixo nível do Rio do Peixe impede o rafting, a principal atividade turística da região. "Passamosa investir em cavalgadas e water trekking, que são as caminhadas pelo leito", diz Juneca Ramalho. Há treze anos à frente da Rios de Aventura, ele estima um prejuízo mensal de 30% coma interrupção do rafting. Em junho, a Bacia do Cascalho, que abastece Cordeirópolis, começou a baixar até 5 centímetros por dia. O prefeito Amarildo Zorzo decretou calamidade pública e o Serviço Autônomo de Água e Esgoto de Cordeirópolis (Saae) passou a captar água em quatro cavas de mineradoras desativadas quando a represa atingiu 30% da capacidade. "Parece muito, mas não é", afirma Zorzo. "A cidade poderia se desabastecer, precisava de obras emergenciais e, com a decretação da calamidade pública, obtive respaldo jurídico para não realizar licitações, processo que levaria meses", explica. Em novembro, o prefeito vai tentar renovar a medida até maio de 2015. A cidade recebe água a cada 24 horas e, como ocorre na maioria dos locais afetados pela seca, por lá é proibido lavar carro, calçada e quintal, sob pena de multa de 500 reais. A população tem se adaptado. "Nos dias do rodízio, as crianças não tomam banho aqui", conta Gisele Cicolin, diretora da creche municipal.
Em Itu, o clima é de guerra. Desde o fim de setembro, pelo menos uma vez por semana há uma manifestação. Nas mais recentes ocorreram os assaltos aos caminhões-pipa. A população, que já jogou ovos, tomates e pedras na Câmara Municipal, exige a declaração de estado de calamidade pública e questiona com uma ação popular a licitação que contratou a empresa Águas de Itu, concessionária que administra o recurso no município desde 2006. De acordo com a companhia, as represas estão com aproximadamente 4% de sua capacidade e o rodízio ocorre a cada 24 horas. "Não faz sentido a prefeitura declarar calamidade se ainda há água e os investimentos são realizados pela concessionária", argumenta Marco Antonio Augusto, responsável pela defesa civil municipal. Segundo ele, 34 caminhões-pipa vêm enchendo os reservatórios das casas nos dezessete bairros altos, que registraram desabastecimento por mais de uma semana. Devido às queixas, até novembro uma nova empresa, a Águas do Brasil, assumirá o controle do fornecimento de água para a cidade, e promete finalizar uma obra de transposição das águas do Ribeirão Mombaça para a Estação de Tratamento de Água Rancho Grande, ao custo de 30 milhões de reais. O problema é que tudo ficará pronto em 2015, na melhor das hipóteses. "Minhas torneiras estão secas e, apesar disso, o valor da conta aumentou", reclama Junior Pereira, que há quinze anos é dono da Padaria Cidade Nova, no bairro de mesmo nome, um dos mais afetados. Ele proíbe seus clientes de usar o banheiro, teme os saques que ocorreram no comércio por ali, compra galões de água mineral para fazer pão e acumula um prejuízo mensal de 20% no faturamento. "Pode não ser calamidade pública, mas é o inferno", define.

Veja SP, 29/10/2014, Crise Hídrica, p. 40-46

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