O Globo, Rio, p. 31
11 de Jan de 2004
CEDAE deixa de receber por mais da metade da água tratada que produz
Companhia está entre as sete menos eficientes do setor em todo o país
A Cedae deixa de vender - e faturar - mais da metade da água tratada que produz por causa de ligações clandestinas, vazamentos e problemas na medição. A companhia tem um dos piores índices de perda de faturamento do país (54%), segundo dados do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (Snis) - levantamento realizado pelo Ministério das Cidades. O diagnóstico de 2002, que acaba de ser concluído, revela que a Cedae é uma das sete companhias de água do país, entre as 25 analisadas, que deixam de vender mais de 50% de sua produção.
- As perdas da Cedae são grandes porque a empresa não é eficiente. A companhia não presta bom serviço de manutenção. Além disso, enfrenta uma inadimplência altíssima - diz Jerson Kelman, presidente da Agência Nacional das Águas, órgão regulador do setor.
A Cedae afirma que não tem como estimar o prejuízo financeiro causado por esse desperdício. Mas, segundo dados da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), a empresa amargou um prejuízo de R$ 639,5 milhões em 2002.
A crise vivida pela empresa é evidenciada por vazamentos, como o que fez parecer um chafariz a tubulação que passa pelo canal da Rua Lineu de Paula Machado, na Lagoa. Moradora da Rua do Matoso, no Rio Comprido, Regina Célia da Silva Pinto se irrita com um vazamento que, segundo ela, destrói o asfalto há dez anos.
Empresa diz que perda maior é na arrecadação
A água tratada também escoa sem o menor controle por ligações clandestinas. A maior parte abastece caixas d'água nas favelas, mas também há indústrias e condomínios de luxo na lista negra dos "gatos". Há cerca de três meses, a Cedae flagrou roubo de água na obra de construção de um shopping na Rodovia Niterói-Manilha.
Comparadas as companhias de água do Sudeste, a Cedae é a que está em pior situação. Maior empresa de saneamento do país, a paulista Sabesp deixou de faturar 31,7% dos 2,4 milhões de litros d'água que tratou e distribuiu em 2002.
A perda de eficiência da Cedae vem dos últimos anos. Em 1999, as perdas de água foram de 46%. No ano seguinte, atingiram 54,3%. O índice mais alto foi em 2001, quando chegou a 57%. O presidente da Cedae, Aluizio Meyer de Gouvea Costa, reconhece que a empresa está em crise, mas diz que há uma campanha de difamação contra a companhia:
- Uma parte da produção se perde na distribuição, mas a perda maior é na arrecadação da água que é vendida. Desde que o país aderiu à privatização, não houve mais investimentos públicos no setor. Mas a imagem que fazem da empresa é pior do que ela realmente é.
A inadimplência, somada ao desperdício, tem contribuído para a piora dos serviços prestados pela empresa. Cerca de 25% dos clientes que recebem água e têm o seu esgoto recolhido não pagam à Cedae.
- A dívida acumulada chega a R$ 3 bilhões. A Justiça, na maioria das vezes, impede o corte, com alegando que a água é um bem fundamental. Se não podemos cobrar, é claro que teremos dificuldades de manutenção e as perdas vão aumentar - diz Meyer.
Segundo o diretor de Produção e Grandes Operações da Cedae, Jorge Briard, o maior problema da empresa está nos erros de medição e na ineficiência da área comercial.
- É um absurdo ter 54% de perda. Mas o nosso maior problema, e que mais contribui para isso, é a baixa hidrometração. Apenas 52% dos nossos clientes têm hidrômetro. A cobrança do restante é feita por estimativa - diz Briard.
Para escapar do sufoco, a empresa prepara um recadastramento comercial, que começará este ano pelas zonas Oeste e Norte. Até o fim de 2004, a meta é atingir 80% da cidade. Todos os hidrômetros com mais de cinco anos serão trocados, acabando com a cobrança por estimativa. A estratégia inclui também a instalação de macromedidores nas tubulações que fornecem água para áreas de favelas.
O Globo, 11/01/2004, Rio, p. 31
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