CB, Brasil, p.13
12 de Out de 2004
Questão Indígena
Causa sem prestígio
Colegas de trabalho foram praticamente os únicos a comparecer ao velório de Apoena Meirelles, em Brasília. O corpo do sertanista, que dedicou a vida à defesa dos índios, será enterrado hoje no Rio de janeiro
André Carravilla
Da equipe do Correio
Uma pequena mostra da importância que o Brasil dá à causa indígena pôde ser conferida ontem em Brasília. A presença de jornalistas e fotógrafos foi o único sinal de prestígio verificado no velório de Apoena Meirelles. O sertanista de 55 anos, um dos mais importantes do país, foi morto por um jovem com três tiros. 0 assassinato ocorreu sábado à noite em Cacoal, Rondônia, quando Apoena retirava dinheiro em um caixa eletrônico dentro de uma agência do Banco do Brasil.
A hipótese mais provável é a de latrocínio - assalto seguido de morte. Mas a Polícia Federal não descarta a possibilidade de que ele tenha sido vítima de um crime por encomenda. A suspeita se deve à arma usada pelo criminoso: uma pistola automática 380, tipo de armamento que não costuma ser usado por pequenos delinqüentes.
Cena do crime
Uma funcionária da Fundação Nacional do índio (Funai) estava com Apoena na hora do crime. Ela conta que um rapaz, aparentando 18 anos, aproximou-se dos dois e anunciou o assalto. Apoena pôs o dinheiro na carteira e deu um passo na direção do jovem, que disparou a arma acertando-o no peito. Em seguida, o rapaz correu, mas o sertanista foi atrás dele. Houve, então, o segundo estampido. Mesmo depois de levar dois tiros, Apoena continuou a perseguição. Veio o terceiro disparo. 0 assassino pegou o dinheiro e fugiu.
Em Rondônia, o sertanista desempenhava uma missão em que corria risco de morte, por contrariar interesses de garimpeiros e poderosos da região. Era o único interlocutor da Fundação Nacional do índio (Funai) com os índios cinta-larga, tribo arredia que vive na Reserva Roosevelt, local de alta concentração de diamantes. Por orientação dele, os índios pararam de comercializar as pedras.
Desafio
A morte do sertanista impõe um desafio para a Funai: encontrar um substituto para Apoena Meirelles. "É uma área muito difícil.
Os índios o ouviam. Não é qualquer sertanista que vai ter essa facilidade", afirma o chefe de gabinete da presidência da Funai, Roberto Lustosa. Para se ter uma idéia da dificuldade, em abril deste ano 29 garimpeiros que trabalhavam ilegalmente na reserva foram assassinados por índios cinta-larga.
Apoena estava dando continuidade ao trabalho iniciado pelo indigenista Walter Blos, que no final de 2003 pediu para ser afastado por causa das constantes ameaças de morte que vinha recebendo de garimpeiros e madeireiros. A superintendência não confirma os boatos de que o mesmo problema se repetia com Meirelles, mas admite que o sertanista estava preocupado com a sua segurança.
Em Brasília, o corpo dele foi velado em um pequeno auditório na sede da Funai. Cerca de cem pessoas compareceram ao local. A maioria colegas de trabalho. As ausências eram evidentes, poucas autoridades apareceram para prestar as últimas homenagens ao homem que ficou conhecido por dedicar a vida aos índios.
0 presidente da Funai, Mércio Pereira Gomes, foi um dos poucos que encontraram espaço na agenda. Ainda assim ficou pouco tempo, conversou por alguns minutos com Tainá e Fernando, filhos do sertanista, e foi embora antes de o corpo deixar o auditório para ser velado no Rio de Janeiro, onde será enterrado hoje pela manhã no cemitério do Caju. "Ele era um grande homem", resumiu Gomes.
0 Palácio do Planalto enviou um representante. O ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, mandou o secretário-executivo, Luiz Paulo Barreto. Ele informou que o Ministério da justiça determinou a participação da Polícia Federal nas investigações. "Vamos fazer isso até que esteja completamente afastada a hipótese dele ter sido executado por causa da função", explicou o superintendente da Polícia Federal em Rondônia, Joaquim Mesquita.
Nota oficial
Por meio de nota divulgada pela Secretaria de Imprensa do Palácio do Planalto, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse ontem que "lamenta muito" a morte do sertanista: `Apoena foi uma importante referência para o indigenismo brasileiro. A melhor homenagem a ele é seguir na luta pela continuidade dos povos indígenas no Brasil, compromisso inequívoco deste governo'.
Instituições envolvidas na questão indígena reclamam da política indigenista do governo e da demora de Lula em homologar a reserva indígena Raposa Serra do Sol, em Roraima, onde menos de dez plantadores de arroz disputam o território com 15 mil índios. A homologação da reserva foi discutida ontem pelo presidente numa reunião com seis ministros e o presidente da Funai. Ao final, os presentes avaliaram que era melhor esperar decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), que julga um processo referente à demarcação de Raposa Serra do Sol.
Para saber mais
Profissões não reconhecidas
Hercules Barros
Da equipe do Correio
A Fundação Nacional do índio (Funai) começou a usar os termos sertanista e indigenista como definição funcional depois deformar algumas pessoas do seu quadro. As profissões, porém, não são regulamentadas no Brasil. E o processo de reconhecimento das áreas está parado há anos. "Cada vez que se perde um profissional dessa geração, perde-se o conhecimento gerado na prática que está pouco documentado"; lamenta o professor Henyo Barretto Filho, do Departamento de Antropologia da Universidade de Brasília. É comum indigenistas e sertanistas em atuação hoje terem diários de campo, mas a catalogação da experiência não é usual.
0 nome sertanista está ligado à atuação dos bandeirantes nos primórdios do desbravamento do Brasil, no século 17. Eram eles que tentavam o contato com as civilizações indígenas. 0 termo indigenista é mexicano e migrou para o Brasil nos anos 40, com a participação do governo brasileiro no Instituto Indigenista Interamericano (III).
O instituto é formado por um corpo intergovernamental para articulação entre os países das instituições que tratam das questões dos povos indígenas.
Na prática, indigenista é todo profissional que se dedica à causa indígena. O especialista é geralmente formado pela Funai. É o primeiro a chegar na abordagem com os índios que vivem isolados. Geralmente é nascido, criado, ou morou algum tempo nas reservas indígenas. Apoena Meirelles reunia todas essas qualidades. Era filho de sertanista, nasceu em uma aldeia, conviveu com diferentes grupos indígenas e participou das equipes de exploração do pai nos primeiros contatos com índios arredios, como os Xavantes e os cinta-larga.
Grandes Nomes
Conheça alguns dos maiores sertanistas e indigenistas que desbravaram o interior do país e dedicaram a vida à causa indígena
Orlando Villas-Bôas
O mais famoso dos indigenistas do país morreu em 2002, aos 88 anos. Dedicou 50 anos da vida à luta pelos índios e pertencia a uma família que compartilhava o amor à causa. Os irmãos Leonardo e Cláudio também eram indigenistas. Orlando ficou conhecido por defender o direito dos índios à posse da terra onde vivem. A criação do Parque Indígena do Xingu, no Mato Grosso, foi resultado do trabalho dele e dos irmãos.
Chico Meirelles
O maior feito de Francisco Meirelles foi entrar em contato e pacificar os xavantes. 0 respeito que conquistou entre a comunidade indígena lhe conferiu o direito de participar de todos os atos tribais. Acreditava que o desenvolvimento tecnológico era inevitável e preparava os índios para enfrentar as dificuldades impostas pela modernidade. Morreu em 1971.
Cícero Cavalcante, 84 anos Ingressou no Serviço de Proteção ao índio em 1943. Atuou em Cuiabá (MT), por indicação do general Mariano Cândido da Silva Rondon, então presidente do Conselho Nacional de Proteção aos índios. Participou da pacificação dos índios kubenkrangégn, do Xingu. Ele encerrou os embates entre indígenas e empresários da borracha que tentavam invadir as terras.
Sydney Possuelo, 64 anos Admitido na Funai em 1972, trabalhava com a causa indígena desde a década de 1960, quando se ofereceu para trabalhar com os irmãos Villas-Bôas. Morou cerca de oito anos no parque do Xingu. Chefiou postos indígenas, coordenou expedições e logo especializou-se em lidar com grupos isolados. Trabalha na proteção dos índios isolados.
Cláudio Romeno, 53 anos Formado em Antropologia, entrou para a Funai em 1976. Coordenou o Plano de Desenvolvimento da Nação Xavante. Mudou-se para a aldeia no Mato Grosso, onde ficou até 1979. Teve demissão por justa causa no regime militar, depois anulada. De volta à Funai, foi diretor do Xingu em 1983. Trabalhou na demarcação de mais de 40 terras indígenas. Hoje é coordenador-geral de estudos e pesquisas do órgão.
CB, 12/10/2004, p. 13
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